Trabalhador, não se iluda. Em toda parte, uma farsa bem orquestrada se desenrola sob o véu macabro do capitalismo contemporâneo. Seja na Argentina de Milei, nos Estados Unidos de Trump ou no nosso Brasil, a melodia é a mesma, ainda que os arranjos variem. Ela sussurra promessas de autonomia, liberdade e empreendedorismo, mas sua partitura foi escrita com a tinta indelével da exploração. A despeito de todos os enfeites e penduricalhos criados para nos seduzir — o escritório descolado, o horário flexível, o crachá de “colaborador” —, no fim das contas, o sistema só conhece uma linguagem: extrair de você cada vez mais, até o esgotamento.
Há uma vida material, uma economia pulsante de trocas e necessidades. Contudo, sobre ela, estende-se uma mortalha ideológica que distorce a realidade. O truque é simples, quase genial em sua perversidade: vender a ideia de que você é livre para escolher seu caminho, para ser o “empreendedor de si mesmo”. No entanto, essa suposta liberdade é uma miragem. Enquanto você celebra sua autonomia, a força combinada do Estado e das corporações mais poderosas do planeta trabalha incessantemente para te fazer regredir ao século XIX. O objetivo é um mundo sem direitos, onde o trabalhador se encontra adoecido, paranoico e, por fim, atropelado pela plataformização de tudo e de todos. Uma verdadeira história de horror.
Esta ofensiva global se manifesta de formas distintas, mas com um propósito unificado. Na Argentina, o governo do tresloucado Javier Milei implementa uma reforma trabalhista que soa como um eco direto da Revolução Industrial: a jornada de trabalho pode ser estendida para até 12 horas diárias, os custos de demissão são drasticamente reduzidos e o poder dos sindicatos é minado. Apresentada como uma “modernização” necessária para um país com alta informalidade, a medida na prática legaliza a precarização extrema, tratando a legislação protetiva como um entrave ao dinamismo do mercado. É a lógica do capital em sua forma mais pura e brutal, onde a dignidade do trabalhador é um custo a ser eliminado.
Nos Estados Unidos, a estratégia assume um contorno burocrático, mas não menos devastador. Durante o governo Trump, planos como o “Schedule F” visavam reclassificar dezenas de milhares de servidores públicos, removendo suas proteções de carreira e tornando-os demissíveis por vontade política. A iniciativa representa um ataque direto à estabilidade do emprego, mesmo no setor público, buscando substituir a segurança baseada em direitos por uma lealdade precária ao poder de plantão. O Estado, que deveria ser o garantidor do bem-estar social, é reconfigurado para ser o principal agente da insegurança laboral.
No Brasil, o enredo se torna ainda mais sinuoso, com o próprio sistema de justiça sendo cooptado para legitimar o desmonte. O Supremo Tribunal Federal (STF), em uma série de decisões recentes, tem consistentemente erodido as bases da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao validar a terceirização irrestrita e ao abrir caminho para a “pejotização” — a contratação de indivíduos como se fossem empresas —, o STF cria um arcabouço jurídico que incentiva a fraude e enfraquece a relação de emprego tradicional. O debate sobre a competência da Justiça do Trabalho, como visto no “Tema 1.389”, ameaça relegá-la a um papel secundário, questionando sua capacidade de identificar e coibir arranjos contratuais que mascaram a exploração. A lei, que deveria proteger o lado mais vulnerável, é torcida para justificar sua subjugação.
Essa tendência de precarização geral e irrestrita encontra sua expressão máxima na chamada “uberização” ou plataformização do trabalho. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra “Sociedade do Cansaço”, descreve com precisão o sujeito de desempenho neoliberal, que se torna seu próprio capataz. Pobre Han, ele não conhece a história do Brasil. Em todo caso, o trabalhador de aplicativo, iludido pela promessa de ser seu “próprio chefe”, internaliza a lógica da produtividade incessante. Ele não tem um patrão visível a quem se opor, mas é gerenciado por um algoritmo impessoal que dita suas tarefas, avalia seu desempenho e define sua remuneração. O resultado é a autoexploração levada ao extremo, um estado de cansaço e ansiedade permanentes, onde a vida se resume a uma busca frenética pela próxima “gig”, pela próxima entrega e pela próxima avaliação de cinco estrelas. Trabalhadora, não se iluda, a uberizacão do trabalho não está só no aplicativo, ela está em toda parte, te vampirizando, sugando seu sangue e sua alma e te jogando na sarjeta.
Como apontou David Harvey, o neoliberalismo se caracteriza por um processo de “acumulação por espoliação”, no qual a riqueza é concentrada não apenas pela produção, mas pela pilhagem de direitos e bens comuns anteriormente conquistados. A erosão dos direitos trabalhistas é um capítulo central dessa história. O que estamos testemunhando é a transferência massiva de segurança e risco do capital para o trabalho. Sacou? Quem paga o pato é você, trabalhador precarizado. Aposentadoria, licença médica, férias remuneradas — tudo isso é transformado de direito coletivo em problema individual.
No fim, a crônica do trabalho no século XXI é a crônica de uma grande mentira. A liberdade que nos é oferecida é a liberdade de competir ferozmente uns contra os outros em um mercado desregulado, a liberdade de arcar sozinho com todos os riscos de um sistema instável, a liberdade de trabalhar até a exaustão por uma remuneração cada vez menor. É a liberdade do século XIX com um aplicativo de smartphone. A lição, que remonta a Karl Marx, permanece mais atual do que nunca: sob o capitalismo, a relação fundamental entre capital e trabalho é de exploração. Os penduricalhos mudam, a retórica se moderniza, mas a essência permanece. Reconhecer essa verdade, esse horror, é o primeiro passo para imaginar e lutar por um futuro onde o trabalho seja, de fato, uma fonte de dignidade, e não de desespero. E nós, trabalhadores, não temos cessado de nos desesperar.







