A guerra no Oriente Médio uma vez mais chacoalha Beirute, tragada para o conflito e testemunha agora de um deslocamento de milhares de pessoas. Ao ICL Notícias, a atriz e escritora Wafa’a Celine Halawi relata a angústia de voltar a sentir o impacto de bombas, a terra tremer e o as incertezas tomarem conta da vida cotidiana. Wafa’a foi a protagonista do filme “Retrato de um Certo Oriente”, baseado na obra do escritor Milton Hatoum e, em seu texto, desenha o retrato de um drama.
Por Wafa’a Celine Halawi, março de 2026*
1º de março de 2026. Como se diz em Lagos: um bom começo de mês.
O conflito regional entre os Estados Unidos, o Irã e Israel já começou. E aqui no Líbano, dizemos uns aos outros, cautelosos, quase incrédulos: bem, desta vez não está acontecendo aqui. Desta vez, somos nós, os libaneses do Líbano, que estamos recebendo notícias de nossos compatriotas no Golfo, de nossos amigos que partiram “para nunca mais passar por isso”. A palavra “absurdo” já ecoa na minha cabeça. As notícias anunciam que Naim Qassem, Secretário-Geral do Hezbollah, se uniu à guerra. Eu me uni à minha amiga Renée para tomar um drinque. Eu sabia que, depois desses breves momentos de relativa despreocupação, as coisas nunca mais seriam as mesmas. A vida pararia novamente. Outra guerra. Mais mortes, mais feridos, pessoas fugindo com um colchão e uma mala de abrigo sem abrigo. Mais projetos em suspenso, como nossa respiração. Eu respiro, mas já não consigo sentir o ar.
No terraço do bar, meu olhar cruza com o de um libanês de Nova York, sentado sozinho. Queria dizer para ele voltar imediatamente.
“Engenheiro. Vou tomar um drinque no Drop e depois assistir a uma partida”, diz ele.
Ele não entendeu nada. Quase o invejo.
“Você está assistindo ou jogando?”
Ele me entrega orgulhosamente seu copo de Sake Spritz. Como se fosse óbvio. Ele não vai jogar. Embora…
“E o que você faz?”
O que estou fazendo?
Agora? Estou bebendo. Estou bebendo às quatro da tarde, no meio do Ramadã. Porque quem sabe o que está realmente fazendo quando, uma hora antes, percebemos que o país estava prestes a ser arrastado para mais uma guerra?
“O meu melhor”, respondo. “Estou fazendo o meu melhor.”
Primeira explosão no meio da noite. Primeiro despertar sobressaltado. Mando uma mensagem para Renée:
“É isso, começaram.” Aquela familiaridade incerta retorna: a mente alerta, mas o corpo tremendo. Ele se lembra. Das guerras anteriores. E das anteriores a essa.
A explosão no porto de Beirute em 4 de agosto de 2020.
A guerra de rua de maio de 2008.
O assassinato de Hassan Nasrallah, ex-secretário-geral do Hezbollah, em 27 de setembro de 2024.
Naquele dia, o dia do seu assassinato, eu estava no elevador do prédio da minha avó. No meu limite, e em meio à guerra, eu ia visitar familiares que tinham sido forçados a fugir de Tiro, nossa cidade no sul do Líbano. Eles ficariam lá até a situação se acalmar. Eu tinha comprado um bolo para as crianças. Para distraí-las. Ou talvez para me distrair também. No último minuto, uma mulher abriu a porta do elevador e entrou com a filha. Eu não os conhecia. Um aceno silencioso de cumprimento. Um meio sorriso, porque em tempos de guerra não se pode sorrir abertamente.
Apertei o botão do oitavo andar. Eles apertaram o do segundo. O elevador mal começou a se mover. Uma explosão enorme. A cabine deu um solavanco e parou abruptamente no segundo andar. Em pânico, a mãe e a filha correram para fora e para dentro do apartamento. Outra explosão. Por minha vez, tomada pelo pânico e incapaz de pensar racionalmente, abri a porta, saí do elevador e entrei… na casa de completos estranhos.
Na sala de estar espaçosa, adultos e crianças corriam freneticamente enquanto as explosões continuavam. Gritos podiam ser ouvidos, a fumaça subia e, a cada detonação, todos se enrijeciam. Esperavam. Então, aos poucos, o caos diminuiu. Os ombros caíram, por pouco. E eu, ainda paralisada perto da porta da frente, senti os olhares de umas quinze pessoas se perguntando o que eu estava fazendo no meio da sala de estar delas com um bolo na mão.
Olhando para trás, eu poderia ao menos ter oferecido isso a eles.
No dia seguinte à primeira explosão desta última guerra, que começava, portanto, também em nosso próprio país, levamos os filhos da minha irmã, que tinham vindo ao Líbano para passar as férias, para as montanhas. Para poupá-los, tanto quanto possível, deste pesadelo até que voltassem para casa, em Lagos. Lá em cima, longe da cidade, observei a neve se espalhar, serena. Ao longe, ouvi mais explosões abafadas, com “I Am Titanium”, da Sia, tocando ironicamente ao fundo. Mas ninguém é feito de titânio.
Abro meu celular para ler as últimas notícias. Os bombardeios vêm de Dahié, os subúrbios ao sul de Beirute. Meu irmão está preso lá, em um hospital. Minha mãe enfrenta os bombardeios todos os dias para visitá-lo.
Estou indo embora. Não estou fugindo, estou indo embora. Eu tinha que ir embora, mas não assim. Ao contrário de tantos outros, meu voo não foi cancelado. Naquela noite, também, não consegui dormir. Meu amigo Sabyl me manda um alerta: a estrada para o aeroporto foi bombardeada. Desligo o celular. Não quero saber. Não quero sentir nada. Não quero ter medo. Não quero que minha vida pare de novo. Quero continuar. Mesmo que, no fim, seja aqui que tudo termine.
Outra mensagem de Sabyl: “Mande fotos de coisas bonitas.” Por que ele está me dizendo isso? Será que não haverá mais nada bonito por aqui?
No avião, eu choro. Como sempre faço quando viajo em tempos de guerra. Quando você está no meio da guerra, você não chora. Você não se permite. Me sinto sozinha. Terrivelmente sozinha, longe de casa. E me pergunto o que escreverão sobre nós nos livros de história. Principalmente porque não temos nenhum. Talvez seja melhor assim.
Olho pela janela. Pelo menos o mar é lindo.
Apesar de nós mesmas, seguimos em frente, aliviamos o peso. Ou pelo menos tentamos. Até a próxima guerra. Porque não há dúvida: ela voltará.
“Onde você se vê daqui a cinco anos?”
Sem hesitar, minha amiga Joanna e eu respondemos ao mesmo tempo:
– Mortas
– Vivas

*Wafa’a Celine Halawi é uma atriz, escritora e diretora libanesa/francesa, e atua desde os 5 anos de idade. Recentemente, ela estrelou o novo filme do premiado diretor brasileiro Marcelo Gomes, “Retrato de um Certo Oriente”, e atuou na renomada série pan-árabe “Noiva de Beirute” (Aroos Beirut), além de ter feito turnê com as peças de teatro de sucesso “Shou Ya Ashta” e “Mafroukeh”.






