A história raramente se apresenta de forma linear. Em muitos momentos, ela expõe contradições capazes de desafiar narrativas consolidadas e obrigar a sociedade a refletir sobre os verdadeiros mecanismos do poder.
As Olimpíadas de Berlim, em 1936, constituem um desses momentos.
Sob o comando de Adolf Hitler, a Alemanha nazista transformou os Jogos Olímpicos em uma gigantesca vitrine política. O objetivo era demonstrar ao mundo a suposta superioridade do regime e reforçar a ideologia racial que já orientava o povo alemão.
Foi nesse cenário que Jesse Owens, um atleta negro norte-americano, conquistou quatro medalhas de ouro diante do próprio governo nazista.
O episódio tornou-se um dos maiores paradoxos da história contemporânea. Embora o nazismo sustentasse uma teoria de superioridade racial, atletas negros competiram, venceram e foram oficialmente reconhecidos como campeões olímpicos em território alemão.
Décadas depois, o próprio Owens afirmou que não sofreu uma humilhação pessoal direta por parte de Hitler durante os Jogos. Isso não diminui o caráter racista do regime nazista, mas ajuda a separar os fatos históricos dos mitos construídos posteriormente.
Esse registro histórico provoca uma reflexão quando comparado a acontecimentos recentes.
Durante a Copa do Mundo FIFA de 2026, ainda em andamento, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, a seleção iraniana foi submetida a condições excepcionais de deslocamento e permanência. Em razão das restrições impostas pelo governo norte-americano, a equipe manteve sua base em território mexicano, cruzando a fronteira apenas para disputar suas partidas e retornando logo em seguida. Integrantes da delegação também enfrentaram limitações relacionadas à emissão de vistos.
Oficialmente, Washington justificou essas medidas com argumentos de segurança nacional e com o contexto das tensões entre os Estados Unidos e a República Islâmica do Irã.
Politicamente, porém, é inevitável perguntar se um evento esportivo permaneceu apenas esportivo.
A coincidência temporal entre essas restrições e o agravamento do confronto entre Washington e Teerã alimentou críticas de que o futebol acabou absorvendo as consequências de uma disputa geopolítica muito maior.
Sob uma perspectiva materialista histórica, essa hipótese merece atenção.
O marxismo compreende o esporte não como uma esfera neutra da vida social, mas como parte da superestrutura política e ideológica. Grandes competições internacionais frequentemente funcionam como vitrines do poder estatal, espaços de propaganda e instrumentos de disputa simbólica entre nações.
Foi assim em Berlim, em 1936.
Foi assim durante a Guerra Fria.
E continua sendo nas competições esportivas do século XXI.
A comparação entre os dois episódios não pretende equiparar o regime nazista ao governo norte-americano contemporâneo. São contextos históricos profundamente distintos.
O contraste reside em outro aspecto.
Em 1936, um regime abertamente racista assistiu à consagração esportiva de um atleta negro que desmontava, na prática, um dos pilares de sua propaganda ideológica.
Em 2026, uma dita: democracia liberal que historicamente se apresenta como defensora da universalidade do esporte foi alvo de críticas internacionais após impor restrições excepcionais à circulação de uma seleção nacional em razão de um contexto político e diplomático.
Ambos os episódios demonstram que o esporte jamais está completamente separado das relações de poder.
Quando interesses estratégicos entram em cena, princípios como igualdade competitiva, neutralidade esportiva e integração entre os povos frequentemente cedem espaço às razões de Estado.
Essa talvez seja a principal lição da dialética histórica.
Os discursos mudam.
As justificativas mudam.
As ideologias mudam.
Mas a utilização do esporte como instrumento político permanece atravessando diferentes sistemas sociais.
É justamente por isso que episódios separados por noventa anos ainda dialogam entre si.
Não porque sejam idênticos.
Mas porque revelam uma permanência histórica: a tendência dos Estados de subordinar o esporte aos seus interesses políticos, diplomáticos e estratégicos.
Essa é a contradição que merece ser debatida.
Principalmente quando se trata de um ESTADO NO CAPITALISMO.
Desculpem-me com o principalmete acima. Tem algo que me encomoda muito mais que a lição dialética descrita a pouco. É a outra lição dialética que parece rondar como um espectro no ocidentalismo demente do OTANISTÃO. É o prefixo: NEO. Espero que não seja tarde.
Rafael Medeiros / TREZZE Comunicação Integrada.






