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Cantor Natanzinho recebeu mais cachês de estados e municipios que 36 cantoras somadas


Por Alceu Luís Castilho e Tonsk Fialho – De Olho nos Ruralistas 

O cantor Natanzinho Lima recebeu, desde janeiro de 2024, um total de R$ 158,06 milhões em cachês pagos por prefeituras e governos estaduais. Esse valor equivale à soma dos contratos públicos de 36 cantoras consagradas. Lauana Prado, Cláudia Leitte, Elba Ramalho, Ivete Sangalo, Vanessa da Mata, Ludmilla, Alcione, Iza e outras 28 cantoras receberam, juntas, receberam R$ 151,05 milhões — isto é, R$ 7,01 milhões a menos que um único homem.

Os dados fazem parte do dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio“, do observatório De Olho nos Ruralistas, que mapeou mais de 20 mil contratos entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026. O levantamento revela um abismo de gênero: entre as 40 bandas mais contratadas com dinheiro público, apenas nove são lideradas por mulheres. Elas ficam com 20% do valor; os homens, com os outros 80%.

A mais bem colocada é a dupla Maiara & Maraisa, na sétima posição, com R$ 101,78 milhões. Depois delas vêm Mari Fernandez, a 12ª colocada, com R$ 86,68 milhões; Simone Mendes (14ª, R$ 82,72 milhões) e Ana Castela (19ª, R$ 73,18 milhões). Na segunda metade da lista estão Taty Girl, Márcia Fellipe, Solange Almeida, Raphaela Santos e Priscila Senna, variando entre R$ 50 milhões e R$ 64 milhões.

Dossiê Farras: cachês de um artista equivalem ao total acumulado por 36 cantoras desde janeiro de 2024
Dossiê Farras: cachês de um artista equivalem ao total acumulado por 36 cantoras desde janeiro de 2024. (Arte: De Olho nos Ruralistas)

Essa conta considera apenas bandas formadas exclusivamente por mulheres. Ficam de fora grupos de formação mista, como Seu Desejo, Calcinha Preta e Limão com Mel, que têm vocalistas mulheres junto de integrantes homens. Nos três casos, os empresários são do sexo masculino.

O abismo se repete em outros recortes. No ranking por número de apresentações, apenas a cearense Taty Girl aparece em décimo lugar, com 233 shows.

O mesmo vale para o valor dos cachês: A maior média do país é a de Gusttavo Lima, com R$ 1,1 milhão por show. Vale lembrar que o sertanejo não está na lista dos 40 artistas mais contratados por prefeituras e governos estaduais. Ele fica um pouco abaixo, com R$ 30 milhões. Entre os dez primeiros dessa lista, aparecem apenas duas mulheres: Ivete Sangalo, na terceira posição, com média de R$ 975 mil, e Simone Mendes, na oitava, com R$ 758 mil.

No Top 100, o quadro não muda. As dezessete mulheres presentes na lista somam R$ 885 milhões — apenas 17% dos mais de R$ 5 bilhões pagos ao grupo. Entre elas estão nomes de grande público, como Michele Andrade (R$ 42,5 milhões), Manu Bahtidão (R$ 41,7 milhões) e Joelma (R$ 39,1 milhões).

Seja no total arrecadado, no número de apresentações ou no preço por show, a presença feminina na indústria dos shows públicos é minoritária.

Mãe de Safadão é sócio em produtora bilionária

“Mulher bonita e gado Nelore só tem quem pode”. A frase, publicada por Natanzinho Lima em seu perfil oficial no Instagram, seguida de um emoji de risada, é um dos jargões prediletos do cantor sergipano. Muitas vezes, ela vem acompanhada de um complemento: “Mulher feia e jegue, só aguenta o dono”.

No vídeo, Natanzinho está acompanhado do chefe e mentor Wesley Safadão, dono e fundador da produtora Camarote Shows. Terceiro colocado entre os artistas mais beneficiados por prefeituras e governos estaduais, Safadão acumula R$ 113,13 milhões em contratos públicos entre 2024 e 2026. Ao todo, sua produtora têm R$ 701,35 milhões entre os integrantes do top 40. Se incluirmos outros artistas que ficaram de fora desse grupo — isto é, aqueles com um total de contratos entre R$ 10 e R$ 49 milhões — o volume de negócios da Camarote com o setor público se aproxima do bilhão: R$ 921,87 milhões em pouco mais de dois anos.

A produtora de Safadão é a única entre os cinco grupos empresariais que comandam o mercado de prefeituras que possui uma sócia mulher. Dona Bill, mãe do cantor e de seu irmão Yvens Watila Oliveira, que também integra a sociedade.

Maria Valmira Silva de Oliveira, a Dona Bil, empresariava o Garota Safada, banda que projetou Safadão antes da carreira solo, e hoje participa da rotina dos artistas da Camarote. Tem também passagem pela política em Aracoiaba (CE), cidade natal da família. Ela foi vereadora e depois vice-prefeita, quando renunciou para se dedicar à carreira do filho, em 2017.

As outras quatro produtoras são comandadas só por homens. A Full pertence a Rodbala, Junior Fofão e Léo Major. A Vybbe, do cantor Xand Avião, tem no comando também Kleryston Silveira, Evertin Silveira e Carlos Aristides. A Tapajós, de Neto Tapajós, atua em parceria com a Top Eventos, de Geraldo Estrela, na carreira de artistas como João Gomes e Tarcísio do Acordeon. Na M&P, produtora fundada por Pablo e o empresário Mário Paim, o cantor é sócio por meio da AD Produção Musical, empresa representada por sua esposa, Adriele Campos.

 





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