Por Cleber Lourenço
Flávio Bolsonaro tentou vender uma novidade improvável ao eleitorado brasileiro: a de que seria uma espécie de “Bolsonaro vacinado”. Um Bolsonaro com filtro, verniz, terno passado, voz mais baixa e algum respeito aparente pelas liturgias democráticas. Uma versão higienizada do bolsonarismo, pronta para circular em reuniões com empresários, agradar parte do Centrão e acenar ao eleitorado que rejeita o extremismo do pai, mas ainda flerta com a direita.
Era uma fantasia desde o início.
Não porque Flávio tenha falhado em interpretar o papel. Ele até tentou. O problema é que o papel era ruim, o roteiro era falso e o sobrenome entregava o final antes da primeira cena. “Bolsonaro moderado” sempre foi uma contradição em termos. Algo entre unicórnio institucional e jacaré vegetariano: pode até render conversa, mas não sobrevive ao primeiro contato com a realidade.
E a realidade chegou — como sempre chega, sem pedir licença, puxando a cadeira e sentando à mesa.
Diante das crises seguidas, da dificuldade de ampliar o eleitorado, das trombadas internas no PL e da necessidade de manter a base radical mobilizada, Flávio foi abandonando a maquiagem. O candidato que tentava parecer vacinado começou a agir como apenas mais um Bolsonaro. Sem reforço, sem dose de moderação, sem anticorpos contra o extremismo familiar.
O primeiro sintoma apareceu no velho vício bolsonarista de brigar com pesquisa. Jair Bolsonaro gastou parte preciosa da campanha de 2022 atacando institutos, questionando levantamentos e tentando transformar números desfavoráveis em conspiração. Flávio repete agora o mesmo expediente ao acionar o TSE contra a pesquisa AtlasIntel, não porque tenha apresentado uma grande novidade democrática, mas porque o resultado o desagradou.
É o método de sempre: quando a realidade incomoda, ataca-se o termômetro. Se a pesquisa favorece, ela retrata “a voz do povo”. Se contraria, vira fraude, manipulação, armação, complô, sabotagem. O bolsonarismo nunca teve problema com pesquisa. Teve problema com pesquisa ruim para Bolsonaro.
Mas o episódio mais simbólico veio com os embaixadores — e aí a crônica ganha um déjà vu incômodo.
Em 2022, Jair Bolsonaro reuniu diplomatas no Palácio da Alvorada para atacar, sem provas, o sistema eleitoral brasileiro. A encenação virou um dos capítulos centrais da condenação que o deixou inelegível por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Foi ali que o então presidente tentou internacionalizar sua mentira sobre as urnas, preparando terreno para contestar uma eventual derrota.
Agora, Flávio Bolsonaro decidiu fazer a sua própria versão do espetáculo. Em encontro com diplomatas e embaixadores em Brasília, repetiu insinuações sobre as urnas eletrônicas e associou o sistema brasileiro a teses já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral. A empresa Smartmatic, usada como fantasma recorrente pela extrema direita, não fornece urnas nem softwares usados nas eleições brasileiras, como o próprio TSE já esclareceu.
Ou seja: não foi descuido. Foi remake. Daqueles em que o roteiro é o mesmo, os personagens são parecidos e o final a gente já conhece — mas ainda assim alguém insiste em refilmar.
Flávio não tropeçou no bolsonarismo. Ele voltou para casa.
A tentativa de vender moderação sempre esbarrou numa pergunta simples: moderado em relação a quê? A Jair? A Eduardo? A Carlos? Ao bolsonarismo que atacou vacina, urna, Supremo, imprensa, ciência, professores, artistas, indígenas, mulheres, jornalistas e qualquer instituição que se recusasse a bater continência para a família?
Nesse critério, qualquer pessoa que não esteja gritando por golpe às seis da manhã parece um estadista escandinavo.
O problema é que Flávio nunca rompeu com esse ambiente. Ao contrário: ele é produto dele. É herdeiro político, operador familiar e beneficiário direto da marca Bolsonaro. Pode tentar falar mais baixo, mas carrega a mesma gramática. Pode ensaiar moderação, mas depende da mesma base. Pode posar de normal, mas continua orbitando o mesmo núcleo que transformou delírio autoritário em plataforma eleitoral.
E nesse núcleo está Eduardo Bolsonaro, hoje uma das figuras mais extremadas da família e presença constante no entorno político do irmão. Eduardo não é um assessor qualquer. É um conselheiro informal, um operador internacional do bolsonarismo e uma espécie de embaixador do caos. Foi ele quem passou a atuar nos Estados Unidos em articulações contra o Brasil, quem radicalizou a retórica externa da família e quem chegou a falar na possibilidade de uso de caças e navios de guerra americanos em território brasileiro.
Diante disso, o silêncio de Flávio não é detalhe. É posição.
Quando Eduardo ultrapassa todas as linhas possíveis, Flávio raramente se coloca como contraponto. Quando o irmão flerta com sanções, pressão estrangeira e agressões à soberania brasileira, Flávio não aparece como o moderado que barra o extremismo. Aparece, no máximo, como quem tenta administrar o dano de imagem sem romper com o conteúdo político.
É a velha especialidade da família: posar de perseguido quando convém, posar de patriota quando interessa e bater continência para potência estrangeira quando acha útil.
A candidatura de Flávio nasceu com uma promessa implícita ao sistema político: seria possível manter o voto bolsonarista sem carregar todo o passivo de Jair Bolsonaro. Uma operação delicada, quase alquímica. Pegar a base radical sem assustar demais o centro. Herdar o sobrenome sem herdar o golpismo. Receber o espólio eleitoral do pai sem parecer apenas um preposto do pai.
A reunião com embaixadores mostrou que a fórmula azedou.
Porque ali Flávio não apenas repetiu uma tese falsa. Ele repetiu um gesto histórico do pai. Repetiu o palco. Repetiu o público estrangeiro. Repetiu a desconfiança lançada sobre o sistema eleitoral. Repetiu a estratégia de produzir dúvida antes da urna falar. Repetiu, enfim, o manual que levou Jair Bolsonaro à inelegibilidade.
O “Bolsonaro vacinado” durou até a campanha precisar escolher entre ampliar e radicalizar.
E, como quase sempre acontece nessa família, venceu a radicalização.
A verdade é que não existe bolsonarismo moderado. Existe bolsonarismo em modo campanha, bolsonarismo em modo crise e bolsonarismo em modo investigação. A embalagem muda. O produto, não.
Flávio começou tentando parecer uma versão tratável do sobrenome. Um Bolsonaro que toma vacina, conversa com empresários, sorri para o Centrão e tenta não assustar tanto quem tem memória de 2022. Mas bastou a pressão subir para a fantasia cair.
Sobrou o de sempre.
Sobrou Bolsonaro.





