Como Renan Santos começa a ocupar o vazio produzido pela crise do bolsonarismo e arrogância da esquerda anti-comuniação digital.
Por Rafael Medeiros | TREZZE Comunicação Integrada
Em maio deste ano publiquei um artigo sustentando uma hipótese que, naquele momento, parecia exagerada para muitos observadores da política brasileira: a de que Renan Santos não deveria ser analisado como um candidato periférico, mas como a manifestação inicial de um processo de reorganização da direita brasileira no pós-bolsonarismo.
Naquele texto argumentei que o verdadeiro fenômeno não era Renan Santos em si.
O fenômeno era o vazio.
O vazio produzido pela crise interna do bolsonarismo.
O vazio produzido pela fadiga da polarização.
Dois meses depois, os números começam a sugerir que aquela hipótese merece ser levada mais a sério.
Pesquisas recentes passaram a registrar Renan Santos alcançando aproximadamente 10% das intenções de voto em alguns cenários, sobretudo no maior colégio eleitoral do país, um crescimento significativo em relação aos levantamentos anteriores, quando aparecia entre 2% e 4%.
Para um candidato sem tempo tradicional de televisão, sem máquina partidária comparável aos grandes partidos e sem presença institucional consolidada, esse desempenho dificilmente pode ser tratado apenas como uma curiosidade estatística.
Talvez estejamos diante do primeiro sintoma de uma mudança estrutural.
A DIREITA ESTÁ PERDENDO O MONOPÓLIO DO ANTISSISTEMA
Existe uma contradição que poucos analistas parecem perceber.
O bolsonarismo chegou ao poder apresentando-se como uma força antissistema.
O problema é que movimentos antissistema deixam de sê-lo quando passam a integrar o próprio sistema que combatiam.
Após anos ocupando parte expressiva das instituições, controlando governos estaduais, bancadas parlamentares e estruturas partidárias, o bolsonarismo enfrenta uma dificuldade típica de todos os movimentos populistas: convencer o eleitor de que continua sendo insurgente enquanto já faz parte do establishment político.
É justamente nesse espaço que Renan Santos tenta operar.
Seu discurso não é construído contra a esquerda apenas.
Ele também disputa diretamente o eleitor decepcionado com o bolsonarismo.
Não é coincidência que boa parte do seu crescimento ocorra justamente entre jovens e segmentos altamente conectados às redes sociais.
A INTERNET CONTINUA SENDO O CAMPO DE BATALHA QUE A ESQUERDA SUBESTIMA
Talvez a maior ironia deste processo seja observar quem mais ajuda Renan Santos.
Não necessariamente seus apoiadores.
Mas seus adversários.
Grande parte da esquerda continua tratando a internet como um espaço secundário da disputa política.
Quando reage ao MBL, frequentemente o faz reproduzindo exatamente aquilo que o algoritmo recompensa:
indignação;
debates intermináveis;
cortes virais;
compartilhamentos emocionais;
engajamento negativo.
Nas plataformas digitais, pouco importa se o sentimento é favorável ou contrário.
O algoritmo mede atenção.
E atenção converte-se em distribuição.
Enquanto parte da esquerda acredita estar “desmascarando” Renan Santos, frequentemente contribui para ampliar seu alcance orgânico.
É uma contradição semelhante àquela observada durante a ascensão de Jair Bolsonaro.
Quanto mais era atacado nas redes, maior se tornava sua presença digital.
Não porque os ataques convencessem o eleitor.
Mas porque ampliavam sua circulação algorítmica.
A POLÍTICA DOS MEMES SUBSTITUIU A POLÍTICA DOS PROGRAMAS
As campanhas tradicionais continuam organizadas para disputar televisão.
Renan Santos disputa TikTok.
Enquanto marqueteiros ainda planejam peças de trinta segundos para o horário eleitoral, ele produz dezenas de cortes diários desenhados para circular organicamente.
Debates deixam de ser apenas confrontos de propostas.
Transformam-se em fábricas de memes.
Cada resposta é pensada como um possível vídeo de quinze segundos.
Cada confronto pode virar centenas de milhões de visualizações.
Essa lógica altera completamente a engenharia eleitoral.
Quem domina o corte, domina a repercussão.
Quem domina a repercussão, ocupa a agenda.
Quem ocupa a agenda passa a definir sobre o que todos falarão.
O DILEMA DO PL
O crescimento de Renan Santos cria um problema estratégico para o bolsonarismo.
Mesmo que seus percentuais ainda estejam distantes dos principais candidatos, ele passa a disputar exatamente um eleitorado que, até pouco tempo atrás, pertencia quase exclusivamente ao campo bolsonarista.
O eleitor jovem.
O eleitor masculino hiperconectado.
O eleitor que rejeita partidos tradicionais.
O eleitor que busca uma identidade política construída pela linguagem das redes.
Se essa tendência se consolidar, o PL enfrentará um dilema.
Atacar Renan significa dar ainda mais visibilidade a um adversário que cresce justamente pela exposição digital.
Ignorá-lo pode permitir que ele continue ocupando um espaço estratégico sem resistência.
Nenhuma das duas alternativas é confortável.
O PROBLEMA TAMBÉM É DE LULA
A análise costuma concentrar-se apenas na direita.
Talvez esse seja outro erro.
Porque Renan Santos representa também um desafio para a esquerda.
É uma estratégia compreensível para quem lidera pesquisas nacionais.
Mas campanhas excessivamente institucionais enfrentam dificuldades para disputar atenção num ambiente em que emoção, humor, conflito e linguagem nativa das plataformas produzem muito mais alcance do que discursos convencionais.
Se a eleição continuar migrando para a lógica dos algoritmos, possuir maior estrutura partidária poderá deixar de ser a principal vantagem competitiva.
O RENAN SANTOS IMPORTA MENOS DO QUE O FENÔMENO QUE REPRESENTA
Talvez a principal conclusão não seja que Renan Santos vencerá a eleição.
É cedo para qualquer afirmação dessa natureza.
A questão realmente relevante é outra.
Sua trajetória começa a demonstrar que existe demanda política para uma nova direita digital, menos vinculada ao legado de Jair Bolsonaro e mais adaptada à cultura das plataformas.
Se essa hipótese estiver correta, o bolsonarismo pode estar deixando de ser o destino final da direita brasileira para tornar-se apenas uma etapa histórica.
O “fator Renan” deixa, então, de ser apenas uma candidatura.
Passa a ser um laboratório.
Um laboratório que testa como será organizada a próxima geração da direita brasileira.
Ignorar esse processo por preconceito ideológico ou por subestimar a política digital pode produzir o mesmo erro analítico cometido por boa parte da elite política em 2018.
Naquele momento, muitos riram dos memes.
Meses depois, os memes haviam conquistado o Palácio do Planalto.
A história não se repete mecanicamente.
Mas costuma punir aqueles que insistem em disputar a próxima eleição utilizando as ferramentas da anterior.
Por Rafael Medeiros | TREZZE Comunicação Integrada.






