As tarifas americanas não têm a ver com comércio, mas com política, pura e dura. Este incidente representa uma coisa simples: a dimensão internacional das eleições brasileiras. Depois de uma vaga de vitórias da direita e da extrema-direita no continente americano, a principal interrogação é a de saber se a esquerda se aguenta no Brasil ou se o efeito conservador e reacionário das últimas eleições é tão forte que tudo arrastará no seu caminho.
E, no entanto, julgo que é preciso ser um pouco estúpido para pensar que a imposição de novas tarifas ao Brasil ajuda a oposição. Exatamente ao contrário. Ajuda, isso sim, o governo em funções. Para o presidente Lula, o discurso irá centrar-se na defesa da soberania nacional, argumentando que nenhum país deve aceitar pressões externas sobre as suas instituições democráticas. Do outro lado teremos a oposição acusada de sacrificar o interesse nacional às afinidades ideológicas e o seu discurso reduzido ao frágil argumento do isolamento diplomático. A habilidade que a direita brasileira tem para fazer asneiras nunca deve ser menosprezada.
Depois temos o presidente argentino, a nova estrela da extrema-direita sul-americana que é agora convocada para todos os países em que há eleições e que não achou melhor tema de discurso, na cerimônia de apresentação de Flávio Bolsonaro, do que atacar o presidente brasileiro, insultar instituições e tentar interferir numa disputa que pertence exclusivamente aos brasileiros. Javier Milei comportou-se como o que verdadeiramente é — um agitador político que não saiu ainda da adolescência.
A política vive do confronto de ideias. A diplomacia, porém, vive do respeito. Um presidente não representa apenas a sua corrente política; representa toda uma nação. Quando utiliza uma visita internacional para alimentar divisões políticas no país anfitrião, enfraquece a função institucional que deveria desempenhar e reduz a política externa a um espetáculo de confronto. O seu estilo é conhecido pela agressividade verbal e pelas declarações provocatórias; eu só vejo nele uma atitude incompatível com a responsabilidade de um chefe de Estado. Independentemente das preferências ideológicas de cada cidadão, esta postura suscita uma questão essencial: até onde pode ir um governante estrangeiro ao comentar os assuntos internos de outro Estado?
Seja como for — os jogos estão feitos. A direita escolheu. Na falta de qualquer projeto político e na falta de qualquer centelha de carisma na liderança nacional, apresenta os seus trunfos estrangeiros — Trump, Milei, e o que aí virá. Só faltará J. D. Vance no comício de encerramento da campanha. Não sei onde vão buscar a ideia de que estes políticos são populares, mas, seja como for, a agenda da campanha está assente — será maledicência até ao fim. Nada mais restará. Nem projeto, nem propostas, nem ideias, nem liderança. Será toda a extrema-direita contra Lula e Lula contra o resto do mundo da extrema-direita. Mas será também Lula pelo Brasil e Lula contra a influência estrangeira nas eleições. Breve conselho para a esquerda: quando o adversário decide fazer asneiras não devemos interromper.






