Por Cleber Lourenço
Começou oficialmente neste domingo (16) o período eleitoral de uma eleição que tende a ficar marcada na história brasileira. Não apenas por quem vai vencê-la, mas pelo que ela passa a significar: a definição do próprio status do Brasil no sistema internacional.
Pela primeira vez, desde a redemocratização, uma eleição presidencial brasileira será disputada sob uma pressão estrangeira tão aberta, oficial e documentada. Os Estados Unidos não escondem sua preferência política, não escondem seus instrumentos de pressão e, talvez mais importante, já não escondem sequer a doutrina que sustenta essa política.
Em dezembro do ano passado, o governo de Donald Trump publicou sua Estratégia de Segurança Nacional. O documento ressuscitou nominalmente a Doutrina Monroe, criada em 1823, e anunciou aquilo que chamou de “Corolário Trump”: a reafirmação da “preeminência americana no Hemisfério Ocidental”.
Não é uma interpretação brasileira sobre as intenções de Washington. É um documento oficial da Casa Branca.
E nele existe uma frase que deveria receber muito mais atenção no Brasil. A estratégia estabelece que os Estados Unidos devem “recompensar e encorajar” governos, partidos políticos e movimentos da região alinhados aos princípios e à estratégia americana.
Não há sutileza.
Washington está dizendo, em papel timbrado, que pretende utilizar o peso da maior potência econômica e militar do continente para premiar forças políticas que se alinhem aos seus interesses.
O Brasil chega à eleição de 2026 exatamente dentro desse tabuleiro.
Desde o ano passado, o governo Trump utiliza contra o país instrumentos econômicos e diplomáticos associados diretamente à situação política brasileira. Ao impor uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, em julho de 2025, a Casa Branca citou nominalmente Jair Bolsonaro, atacou decisões de autoridades brasileiras e mencionou até a capacidade do Brasil de realizar eleições “livres e justas” em 2026.
Mais reveladora era a porta de saída oferecida por Washington. A própria ordem de Trump previa a possibilidade de revisão das medidas caso o Brasil tomasse providências e passasse a se “alinhar suficientemente” aos Estados Unidos em temas de segurança nacional, economia e política externa.
Leia novamente a palavra. Alinhar.
Não negociar. Não estabelecer uma relação entre Estados soberanos em pé de igualdade. Alinhar.
É difícil encontrar palavra mais precisa para descrever a lógica de uma relação entre uma potência e um país que ela trata como área de influência.
O mais perturbador é que parte da política brasileira não parece particularmente incomodada com isso.
Flávio Bolsonaro fez de sua proximidade com Trump um ativo político. Foi a Washington, encontrou-se com o presidente americano e com Marco Rubio e pediu que PCC e Comando Vermelho fossem classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. A medida posteriormente foi adotada pelo governo americano.
A Reuters registrou que auxiliares de Flávio enxergavam na iniciativa uma maneira de elevar o debate sobre criminalidade na eleição e reforçar o alinhamento do candidato brasileiro com Trump.
Meses depois, o episódio ganhou contornos ainda mais extraordinários.
Flávio pediu aos Estados Unidos que adiassem novas tarifas contra produtos brasileiros até depois da eleição. A argumentação apresentada a Washington mencionava justamente o fato de que o cenário político capaz de redefinir a relação bilateral seria alterado pelas urnas em outubro.
Um candidato à Presidência da República negociando com uma potência estrangeira o calendário de medidas econômicas contra o próprio país tendo como horizonte a eleição na qual ele próprio concorre.
É preciso repetir a frase porque a sucessão de absurdos políticos dos últimos anos já corroeu parte da nossa capacidade de espanto.
Há dois séculos de história latino-americana comprimidos nessa cena.
A Doutrina Monroe nasceu no século 19 sob a fórmula de uma América protegida da intervenção europeia. Na prática, transformou-se ao longo do tempo na justificativa para que Washington tratasse o continente como área preferencial de influência.
O Brasil conhece essa história.
Em 1964, o governo americano preparou a Operação Brother Sam para dar suporte aos militares que derrubavam João Goulart. Navios, combustível e armamentos foram colocados à disposição caso houvesse resistência ao golpe.
A diferença é que naquela época era segredo.
Décadas foram necessárias para que documentos desclassificados permitissem conhecer a extensão da atuação americana.
Em 2026, não precisamos esperar a abertura dos arquivos.
Está no site da Casa Branca.
Talvez essa seja uma das transformações mais importantes do nosso tempo. O intervencionismo deixou de exigir constrangimento. Aquilo que antes precisava ser escondido agora pode ser apresentado como política externa, publicado em documentos oficiais, anunciado diante das câmeras e celebrado por aliados locais.
A novidade não é o imperialismo. É a perda da vergonha.
E seria confortável imaginar que o Brasil constitui alguma excepcionalidade nessa política. Não constitui.
Trump já vinculou publicamente o apoio econômico americano ao destino eleitoral de Javier Milei na Argentina. Na Colômbia, entrou diretamente na campanha ao declarar apoio a Abelardo de la Espriella. A Estratégia de Segurança Nacional apenas organizou em linguagem burocrática aquilo que Washington passou a praticar politicamente: a reconstrução de uma esfera de influência no continente.
O que torna o caso brasileiro particularmente grave é a existência de forças políticas internas dispostas a transformar essa relação em credencial eleitoral.
Durante anos, a extrema direita brasileira construiu para si uma espécie de monopólio cenográfico do patriotismo. Vestiu verde e amarelo. Apropriou-se da bandeira. Cantou o hino. Chamou adversários de inimigos da pátria. Transformou qualquer divergência sobre as Forças Armadas em suspeita de antipatriotismo.
Chegamos a 2026 e parte desse mesmo campo político apresenta como demonstração de prestígio a capacidade de obter respaldo de Washington.
É uma contradição difícil de sustentar.
Patriotismo pressupõe soberania. Soberania pressupõe que as decisões fundamentais de um país sejam tomadas por seu povo, segundo seus interesses, dentro de suas instituições.
Não existe soberania sob tutela.
É por isso que a eleição que começa agora carrega uma dimensão que ultrapassa Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.
Naturalmente, ninguém votará pensando apenas em política externa. O brasileiro votará preocupado com salário, emprego, segurança, saúde, corrupção, impostos e todas as questões concretas que determinam sua vida. Seria simplório reduzir uma eleição inteira a uma única variável.
Mas algumas eleições acabam adquirindo significados maiores do que a soma de suas pautas.
Esta pode ser uma delas.
A Constituição brasileira escolheu a soberania como primeiro fundamento da República e estabeleceu independência nacional, autodeterminação dos povos, não intervenção e igualdade entre os Estados como princípios das relações internacionais do país.
Não são palavras ornamentais colocadas no início da Constituição para ocupar espaço.
São a resposta histórica a uma pergunta que volta a se impor.
Quem decide os rumos do país?
Os brasileiros podem discordar profundamente sobre qual governo desejam, qual modelo econômico preferem, qual política de segurança consideram adequada ou quem deveria ocupar o Palácio do Planalto.
Essa divergência é a democracia.
Há, porém, uma questão anterior a todas elas: se essa decisão pertence aos brasileiros.
Talvez esse seja o plebiscito silencioso que acompanhará a eleição de 2026.
Não exatamente sobre esquerda ou direita. Nem apenas sobre Lula ou Bolsonaro.
Mas sobre se o Brasil pretende exercer plenamente sua soberania ou aceitar novamente o lugar que uma potência estrangeira resolveu reservar para ele em seu hemisfério.
Em 1964, a Operação Brother Sam era secreta.
Em 2026, a Doutrina Monroe tem assessoria de imprensa.






