Não há espaço em João Guimarães Rosa para verdades absolutas. Em Grande Sertão: Veredas, o que existe é uma longa e complexa jornada de um ex-jagunço buscando entender quem ele é, quais valores ele representa e a dimensão de sua própria existência.
No último fim de semana, 30 mil pessoas transformam um festival literário num esboço de uma travessia. No caso, de um país.
O Festival Literário Internacional de Paracatu levou para o norte de Minas Gerais cerca de 40 autores, intelectuais e artistas para comemorar a obra do escritor brasileiro e os 70 anos de Grande Sertão. Os debates, porém, não serviram apenas para mostrar a genialidade do escritor. O que estava no centro de todos os diálogos sob a curadoria de Afonso Borges eram justamente as veredas possíveis para desvendar quem somos e possíveis construções de nosso destino.
Míriam Leitão, que acaba de realizar uma viagem pelos locais citados por Guimarães Rosa, aposta que uma das respostas está na escuta. “Ele ouviu o sertão”, afirmou, no debate de encerramento do festival, no sábado.
A escritora e jornalista destacou como o romance começa em um travessão e termina numa travessia. Para o Brasil, portanto, só lhe resta continuar sua caminhada.
Mia Couto, ao seu lado, enfatizou como ouvir e contar histórias são instrumentos críticos para fazer sentido de um mundo diverso e em transformação. Em um momento de polarização, muros e fronteiras, Mia defende a história como elemento de aproximação. Sua avaliação é de que a travessia vai exigir que modelos politicos e as estruturas que organizam a vida coletiva sejam repensados. Mas fez um apelo para que haja um compromisso de respeito pelo mundo que habitamos.
Ao longo de quatro dias, as conversas ainda focaram na relação entre território e identidade, no uso da linguagem para compreender o outro e o papel travessia como experiência que transforma quem a percorre.
Em outro debate, Sergio Abranches defendeu que imaginar o futuro também deveria ser uma tarefa política. “O Brasil precisa aprender a pensar no futuro”, afirmou. Para ele, o desafio não é apenas sobreviver às crises que possam surgir. Mas decidir que tipo de sociedade se pretende construir.
Paulliny Tort, autora de Os Imortais, recorre à pré-história e com personagens que não usavam a linguagem falada para abordar outras travessias, seja pela sobrevivência como pela organização de uma sociedade.
Calila das Mercês revelou o compromisso que acompanha sua escrita: trazer para a narrativa a força de vidas que existem longe das versões heroicas e espetaculares da história, mas que carregam desejos, medos e muita coragem.
Num dos debates sobre “Corpo e Travessia”, Rita von Hunty localizou o debate no questionamento sobre gênero, sexualidade, linguagem e poder. Para ela, o sistema sexo-gênero chegou a um ponto de falência. Sua avaliação é que o número de feminicídios e ataques contra pessoas LGBTQIA+ seriam sinais de que as formas tradicionais de organizar e hierarquizar os corpos já não podem continuar sendo tratadas como naturais ou inevitáveis. “Esse sistema faliu, e a gente vai precisar criar outra coisa no lugar disso”.
Até mesmo amar é uma travessia a ser descolonizada. Geni Nunes usou o palco de Paracatu para questionar modelos supostamente universais de relacionamento. Seu apelo: imaginar outras possibilidades de existência, de amor e de parcerias.
Sem exotismo, reiventando a língua e com respeito profundo aos personagens, Guimarães Rosa nos da o mapa ético da travessia.
“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”, diria Riobaldo.
Nem as pessoas e nem um país foi terminado. 70 anos depois, o sertão segue falando e se abrindo em veredas. Uma travessia que nada mais é que a própria metáfora do Brasil. 






