Por Cleber Lourenço
A deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG) acionou a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) para que esclareçam o paradeiro e a situação de Nathana Lopes Figueiredo, esposa de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, apontado nas investigações do caso Master como prestador de serviços de Daniel Vorcaro.
Nathana estava com Sicário quando ele foi preso, em 4 de março de 2026, em um apartamento de alto padrão em Belo Horizonte. Dias depois, comunicou à PF que pretendia viajar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e se comprometeu a prestar depoimento por videoconferência. Os investigadores tentaram impedir sua saída do país, mas o ministro André Mendonça rejeitou o pedido para apreender seu passaporte.
Nos documentos protocolados em 22 de setembro, Bella pergunta se Nathana chegou a prestar o depoimento, onde ela está atualmente e se continua colaborando com as investigações. A parlamentar também quer saber o que foi encontrado nos três celulares apreendidos no apartamento e nas imagens das câmeras de segurança do condomínio.
A questão sobre o paradeiro permanece sem resposta nos documentos públicos citados na petição. Reportagens recentes também não localizaram informação de que Nathana tenha retornado ao Brasil depois da viagem. A defesa dela sustenta que Nathana reside legalmente em Dubai e afirma que ela não participou dos crimes investigados, não foi indiciada e não está submetida a medidas cautelares.
PF tentou impedir viagem a Dubai
A preocupação da Polícia Federal com a saída de Nathana aparece nos próprios documentos do caso reproduzidos pela deputada.
Depois da prisão de Sicário, Nathana entrou em contato com a PF para informar que pretendia viajar para Dubai. Ela se comprometeu a prestar depoimento por videoconferência quando chegasse ao destino.
A PF pediu então a Mendonça, relator do caso no STF, que determinasse a apreensão do passaporte e proibisse a saída do Brasil sem autorização da Justiça. Os investigadores a classificaram como “testemunha-chave” e argumentaram que uma viagem ao exterior sem endereço conhecido no destino poderia “comprometer a descoberta da verdade real”.
Mendonça negou a retenção do passaporte. Segundo a petição, o ministro considerou que Nathana havia demonstrado disposição para colaborar com a investigação.
É justamente o que Bella quer esclarecer agora. A deputada pergunta se a colaboração prometida ocorreu, se houve depoimento por videoconferência e quais informações relevantes foram fornecidas.
No pedido dirigido ao STF, ela também cobra os fundamentos da decisão que permitiu a viagem, quais medidas foram adotadas para preservar as provas e impedir prejuízo à investigação e quais determinações de Mendonça já foram cumpridas ou continuam pendentes.
PF apontou “possível cumplicidade”
Nathana não aparece apenas como alguém que acompanhava Sicário no momento da prisão.
Segundo os documentos citados por Bella, a própria PF chegou a considerar uma “possível cumplicidade com o alvo”. Os investigadores registraram a suspeita de que Sicário teria entregue a Nathana, de forma dissimulada, um relógio de alto valor, possivelmente para evitar que o objeto fosse apreendido.
Bella pede que a PF esclareça em qual condição Nathana aparece formalmente nos procedimentos relacionados ao Master — como testemunha, investigada ou em outra situação.
Outro ponto é o material apreendido. Três iPhones que estavam com Sicário e Nathana foram recolhidos durante a operação. A parlamentar quer saber se os aparelhos foram periciados e quais provas ou informações foram extraídas deles.
A petição menciona ainda uma possível conexão com Dubai. Segundo o documento, há indícios de que a nota fiscal do iPhone de Nathana seria da cidade, em período no qual Vorcaro também estaria no emirado. A peça não apresenta elementos que permitam concluir, porém, que Nathana e o banqueiro tenham se encontrado ou mantido contato no local.
Apartamento não parecia residência de Sicário
As circunstâncias da prisão também estão entre os pontos que Bella quer esclarecer.
Sicário foi localizado em um apartamento de alto padrão em Belo Horizonte. No registro da diligência reproduzido na petição, os policiais afirmaram que “no interior dos cômodos não foram encontradas roupas e vestimentas que demonstrassem que aquele imóvel seria utilizado como residência fixa do investigado”.
A deputada pergunta se a PF conseguiu identificar quem era o proprietário do apartamento e qual era a relação do imóvel com Sicário.
Há ainda imagens potencialmente relevantes. O condomínio possuía uma câmera no hall do apartamento, e o HD do sistema de segurança — o DVR — foi apreendido pelos agentes. Bella quer saber se as gravações foram analisadas para identificar quem circulou pelo local e se produziram elementos para a investigação.
Sicário morreu dois dias depois da prisão
O pedido enviado à Polícia Federal abre uma segunda frente e busca esclarecer o que aconteceu nas poucas horas entre a prisão de Sicário e o episódio que levou à sua morte.
Ele foi preso em 4 de março. Segundo a petição, cerca de sete horas depois, enquanto estava na Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais, teria tentado suicídio. Sicário foi encontrado por agentes, submetido a procedimentos de reanimação e encaminhado a um hospital. A morte foi declarada em 6 de março.
Bella quer saber se ele chegou a prestar depoimento antes disso. Caso tenha sido ouvido, pede que a PF informe quais elementos foram fornecidos e qual foi a contribuição dessas informações para as investigações.
A parlamentar também questiona se o inquérito aberto para apurar as circunstâncias da morte já foi formalmente arquivado. Se a resposta for positiva, pede a data do arquivamento, a autoridade responsável e os fundamentos da decisão.
Também quer saber quais procedimentos relacionados às atividades atribuídas a Sicário continuam em andamento após sua morte.
Prestação de serviços para Vorcaro
Sicário aparece nas investigações como personagem ligado diretamente a Daniel Vorcaro.
Segundo os trechos reproduzidos nas petições, ele mantinha “relação direta de prestação de serviços” com o banqueiro e atuava na obtenção de informações sigilosas, no monitoramento de pessoas e na “neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”.
Ele também é apontado como figura central de uma estrutura informal chamada “A Turma”, que, segundo as investigações, realizava atividades de vigilância, coleta de informações e monitoramento de pessoas consideradas adversárias do grupo.
Bella pede que PF e STF forneçam laudos, autos, decisões, despachos e outros documentos relacionados às diligências, preservando informações que ainda estejam protegidas por sigilo.
“O que estamos cobrando é transparência. Existem perguntas objetivas que precisam ser respondidas pelas autoridades responsáveis pela investigação: onde está uma testemunha considerada chave pela própria Polícia Federal? Ela prestou o depoimento que havia prometido? As provas apreendidas foram periciadas? E quais informações foram obtidas antes e depois da morte de Sicário? A sociedade precisa ter acesso às respostas, respeitando, evidentemente, os sigilos que ainda forem necessários à investigação”, afirma Bella Gonçalves.





