Por Cleber Lourenço
Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), produzido durante o governo Jair Bolsonaro ao qual o ICL Notícias teve acesso, mostra que a estrutura federal de inteligência monitorou protestos, movimentos sociais, organizações religiosas e demandas de atingidos no contexto dos atos que marcariam um ano do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Datado de 17 de janeiro de 2020, o relatório foi compartilhado com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e com a Casa Civil da Presidência da República, indicando que o monitoramento e suas conclusões circularam no núcleo central do governo federal.
O documento foi elaborado poucos dias antes das mobilizações previstas para lembrar a tragédia de 25 de janeiro de 2019, que matou 272 pessoas e devastou comunidades, cursos d’água e a economia local. O material revela que a Abin não se limitou a registrar a existência dos atos. O órgão levantou informações sobre a situação social e econômica do município, descreveu o ambiente político local, acompanhou críticas dirigidas à mineradora e ao poder público e reuniu, em anexos, listas de entidades e programações de manifestações.
Logo na abertura, o relatório deixa explícito o caráter das mobilizações monitoradas. Segundo o documento, os eventos eram organizados “para lembrar o desastre ambiental e para protestar em cobrança de demandas da sociedade civil”. A própria Abin registra que os atos incluíam críticas ao governo federal, à Vale e a autoridades públicas, além de apontar a possibilidade de repercussão política em razão da presença do presidente da República nas cerimônias e desencorajou que autoridades do governo federal não fossem ao evento.
O texto também mostra que o foco do monitoramento ia além de qualquer preocupação imediata com violência. Em outro trecho, a agência avalia que a tendência era de manifestações “dentro da normalidade, sem ocorrências graves ou violência”. Ainda assim, detalha atores, pautas e ambiente político, deixando claro que o acompanhamento era voltado ao conteúdo e à repercussão dos atos.
A primeira parte do documento traz um quadro descritivo da tragédia. A Abin relembra que a Barragem I da mina do Córrego do Feijão se rompeu em 25 de janeiro de 2019, liberando milhões de metros cúbicos de rejeitos. O relatório descreve que a lama atingiu áreas operacionais da empresa, comunidades e cursos d’água, alcançando o rio Paraopeba e provocando “destruição ambiental e impactos diretos ao abastecimento de água na região”.
Na sequência, o documento aborda o cenário econômico e social de Brumadinho após o desastre. A agência registra que a economia local foi fortemente afetada e que moradores dependiam da mineração. Também menciona programas de indenização e auxílio emergencial, apontando que os recursos vinham sendo usados para despesas básicas, como alimentação e contas domésticas.
Esse ponto é relevante porque mostra que a Abin acompanhava o humor social. O relatório indica insatisfação persistente com o processo de reparação e com o ritmo das respostas após o rompimento. Em um dos trechos, o documento destaca críticas às negociações conduzidas com a Vale e à percepção de que os acordos não atendiam plenamente aos atingidos.

Mapeamento de movimentos e atos
Ao tratar das mobilizações, a Abin identifica duas frentes distintas. De um lado, a solenidade oficial organizada por autoridades e familiares de vítimas. De outro, atos autônomos organizados por movimentos sociais, organizações civis e setores da Igreja, com discurso mais crítico.
É nesse segundo eixo que o relatório se aprofunda. O documento descreve campanhas e articulações sociais, com destaque para a campanha “Janeiro Marrom”, que reunia dezenas de organizações. Segundo a Abin, a iniciativa tinha como objetivo “lembrar um ano do desastre, denunciar os impactos socioambientais e cobrar reparação às vítimas”.
A agência lista 45 entidades envolvidas na mobilização. Entre elas, Movimento dos Atingidos por Barragens, Frente Brasil Popular, Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração, Projeto Manuelzão, Polos de Cidadania da UFMG e diversas organizações ambientais, religiosas e comunitárias. O nível de detalhamento inclui a identificação de coletivos locais, instituições acadêmicas e frentes de articulação política.

MST na mira
O MST aparece com destaque no relatório. Segundo o documento, o movimento organizaria uma caravana com cerca de 350 participantes entre Belo Horizonte e Brumadinho. A ação incluía uma marcha em memória das vítimas e o lançamento do plano “Plantar árvores, produzir alimentos saudáveis”. A Abin registra inclusive a programação da atividade, com “concentração, plantio simbólico, ato em memória das vítimas e atividade cultural”.
A dimensão religiosa das mobilizações também foi monitorada. O relatório descreve a realização da “1ª Romaria pela Ecologia Integral”, organizada pela Arquidiocese de Belo Horizonte. Segundo o documento, o evento tinha como objetivo “promover a ecologia integral e solidarizar-se com as vítimas”. A Abin detalha a programação, incluindo caminhada, celebração de missa e lançamento de campanha nacional, com apoio da CNBB.
O acompanhamento desses eventos mostra que a inteligência estatal incluía no radar não apenas movimentos políticos, mas também mobilizações de caráter religioso e comunitário.
O relatório também sistematiza as principais demandas dos atingidos. Entre elas, a continuidade das buscas por vítimas desaparecidas, revisão dos critérios de indenização, reparação ambiental e responsabilização dos envolvidos no rompimento.
Em um dos trechos mais sensíveis, a Abin registra que, segundo movimentos sociais, haveria “favorecimento” em acordos firmados com a Vale. O documento aponta que essa percepção alimentava críticas à mineradora e ao poder público. Também menciona insatisfação com o auxílio emergencial e com os critérios de compensação por danos materiais e morais.
As reivindicações aparecem de forma objetiva. O relatório lista quatro pontos centrais dos protestos: pagamento de auxílio por problemas de saúde relacionados ao desastre; indenização a moradores afetados por obras de captação de água; continuidade das buscas por desaparecidos; e punição dos responsáveis pelo rompimento.

Sem risco de violência, com impacto político
Outro trecho relevante trata do ambiente político. A Abin afirma que, naquele momento, não havia registro de críticas diretas ao governo federal. Mas acrescenta que a presença de autoridades poderia gerar mobilizações “principalmente contra a manifestação do governo federal”. O documento também indica a possibilidade de críticas ao presidente da República e ao governo de Minas Gerais durante os atos.
Esse ponto explicita que o monitoramento incluía o potencial de desgaste político das manifestações. A preocupação não se limitava a segurança pública, mas abrangia a repercussão política e social dos atos.
Mesmo com esse nível de detalhamento, a conclusão do relatório aponta ausência de risco relevante. Segundo a Abin, não havia indícios de atuação de “grupos para a prática de atos violentos ou extremistas”, e a tendência era de manifestações pacíficas.
A combinação desses elementos torna o documento particularmente revelador. A agência produziu um relatório extenso sobre mobilizações sociais, mapeando atores, pautas e críticas, mesmo sem identificar risco concreto de violência.
Os anexos reforçam essa conclusão. O material inclui listas de organizações, programação de eventos religiosos e peças de divulgação de atos, evidenciando o acompanhamento da logística e da comunicação das mobilizações.
O relatório, portanto, expõe o nível de atenção da inteligência estatal sobre uma rede de mobilização formada por familiares de vítimas, moradores atingidos, movimentos sociais, entidades religiosas e organizações civis. Ao registrar demandas, críticas e articulações, o documento revela como o Estado monitorou a resposta social a uma das maiores tragédias ambientais do país.
Mais do que um registro administrativo, o texto funciona como um retrato detalhado do cenário político e social de Brumadinho um ano após o rompimento da barragem — e do olhar da inteligência governamental sobre essa mobilização.





