Por – TrezzeNews
A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro representa um marco político de grandes proporções no Brasil contemporâneo. Independentemente das acusações específicas que o levaram à detenção, o fato é que sua retirada do centro do poder reabre debates que, por anos, foram tratados como tabu, entre eles, o assassinato da vereadora Marielle Franco.
O crime ocorrido em 14 de março de 2018 não foi apenas uma execução brutal. Foi um ataque direto à democracia, à política institucional e ao direito à verdade. Seis anos depois, embora executores tenham sido condenados e supostos mandantes apontados, permanecem lacunas evidentes na investigação, lacunas que, para muitos analistas, coincidem com a ascensão e consolidação do bolsonarismo no poder.
Uma versão que não encerra o caso
A responsabilização dos irmãos Brazão como mandantes do crime foi apresentada como ponto final do inquérito. No entanto, parlamentares, jornalistas investigativos e pesquisadores do tema apontam inconsistências centrais nessa versão.
O deputado Washington Quaquá, por exemplo, afirmou publicamente que não há lógica política nem operacional para que um crime de alta complexidade, com características de execução profissional e sabotagem investigativa, tenha sido arquitetado apenas por figuras ligadas à chamada pequena criminalidade do Rio de Janeiro.
Encerrar um inquérito, vale lembrar, não é o mesmo que esclarecer um crime.
O Vivendas da Barra e o ponto cego da investigação
Um dos elementos mais sensíveis do caso, e também um dos menos aprofundados institucionalmente, envolve o condomínio Vivendas da Barra. No dia do assassinato de Marielle, os executores Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz estiveram no local horas antes do crime. O mesmo condomínio onde residia Jair Bolsonaro e sua família.
Registros de portaria indicam que os dois chegaram por volta das 17h10 e saíram pouco depois. Posteriormente, o porteiro do condomínio declarou à Polícia Civil que Élcio solicitou autorização para entrar na casa do “seu Jair”.
A reação de Bolsonaro foi imediata: afirmou estar em Brasília naquele horário, argumento amplamente difundido como álibi definitivo. No entanto, reportagens posteriores demonstraram que o sistema da portaria permitia o desvio de chamadas para telefones celulares, o que, por si só, não invalida o depoimento do porteiro.
Essa linha de apuração, contudo, nunca foi aprofundada de forma consistente.
Coincidências, álibis e silêncios
No mesmo dia do crime, a jornalista Thaís Bilenky publicou que Bolsonaro planejava retornar ao Rio alegando intoxicação alimentar. A justificativa levantou questionamentos: pessoas gravemente indispostas costumam procurar atendimento médico, não voos comerciais. No dia seguinte, Bolsonaro apareceu em redes sociais almoçando normalmente na casa de um colega deputado.
Isoladamente, tais episódios poderiam ser considerados irrelevantes. No conjunto, porém, reforçam a percepção de que houve pressa em aceitar explicações frágeis e pouca disposição para investigar contradições.
As conexões ignoradas
Outro ponto frequentemente citado por analistas é a relação entre a família Bolsonaro e figuras ligadas a milícias do Rio de Janeiro. Fatos documentados mostram que Flávio e Carlos Bolsonaro empregaram familiares de milicianos, homenagearam personagens posteriormente associados a grupos de extermínio e mantinham convivência territorial próxima a Ronnie Lessa.
Em 2023, reportagem da Folha de S.Paulo revelou que Bolsonaro teria auxiliado Lessa em tratamento médico. Ainda assim, essas conexões nunca se tornaram eixo central da investigação.
O vídeo de Carlos Bolsonaro
Talvez o episódio mais controverso seja o vídeo gravado por Carlos Bolsonaro na cabine da portaria do condomínio, no próprio dia do crime. Antes da gravação, o equipamento da portaria foi retirado do local, fato que especialistas apontam como potencial interferência em provas.
No vídeo, surge o registro de uma ligação à tarde para a casa de Carlos, acompanhada do aviso do porteiro: “Seu Carlos, chegou o seu Uber”. O horário coincide com o período em que os executores estavam no condomínio, pouco antes de seguirem para a execução.
O álibi oficial afirmava que Carlos Bolsonaro passara toda a tarde na Câmara Municipal. A contradição nunca foi plenamente esclarecida.
Motivação política abandonada
Relatos de delegados que atuaram no início do inquérito indicam que a principal linha investigativa era a de motivação política, não disputa fundiária. Dados extraídos de pesquisas feitas por Ronnie Lessa mostram interesse em figuras críticas à Operação GLO (Garantia da Lei e da Ordem), entre elas Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão.
Essa linha, no entanto, foi abandonada ao longo do processo.
Adriano da Nóbrega, ex-capitão do BOPE e elo conhecido entre milícia e política, chegou a ser apontado como responsável pela contratação de Lessa. Foi morto na Bahia. Seu celular desapareceu. A investigação sobre sua conexão com o crime foi encerrada.
O que muda agora
Com Bolsonaro fora do centro do poder e com figuras-chave do período da intervenção federal afastadas ou presas, cresce a expectativa de que zonas antes protegidas pelo silêncio institucional possam, enfim, ser revisitadas.
A pergunta que permanece é direta e incômoda: o que deixou de ser investigado enquanto determinadas figuras concentravam poder político, influência institucional e capacidade de pressão?
Responder a essa pergunta não é um ato de vingança, mas de compromisso com a democracia. Sem verdade plena, não há justiça possível.
Marielle Franco segue presente, não apenas como símbolo, mas como cobrança histórica.






