Por Jamil Chade e Cleber Lourenço
O governo Jair Bolsonaro usou o Itamaraty para defender a hidroxicloroquina contra a covid-19, enquanto o próprio governo de Donald Trump, cientistas e a OMS caminhavam para a suspensão do uso do remédio.
Em carta enviada em junho de 2020, o representante do Brasil em Washington, Nestor Forster, sustentou que a inclusão do medicamento nos protocolos do Ministério da Saúde se baseava em pesquisas e dados sobre seu suposto potencial para tratar a doença.
A correspondência foi reproduzida em um telegrama da embaixada brasileira em Washington, de 4 de junho de 2020, disponível no acervo de documentos diplomáticos abertos pela Fiquem Sabendo, organização especializada em transparência pública.
A carta foi endereçada a Eliot Engel, deputado democrata por Nova York e então presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara americana. Dois dias antes, em uma publicação nas redes sociais, o parlamentar havia criticado a doação de hidroxicloroquina dos Estados Unidos ao Brasil.
O questionamento por parte do líder dos democratas ocorreu depois que o governo Trump destinou 2 milhões de comprimidos de cloroquina ao Brasil. O gesto foi anunciado em maio e, em 1 de junho de 2020, o país estava recebendo oficialmente a doação.
Arthur Weintraub, sugeriu naquele momento que um tribunal de Nuremberg fosse estabelecido contra as pessoas que se recusaram a receitar o remédio.
No telegrama, Forster relatou que a comissão reproduziu uma reportagem sobre a doação e afirmou ser “irresponsável que os Presidentes Trump e Jair Bolsonaro tenham colocado a política acima da ciência”.
Em resposta, o representante brasileiro disse que a decisão do Ministério da Saúde de incluir a hidroxicloroquina entre os protocolos disponíveis havia sido tomada após uma “avaliação cuidadosa e minuciosa” de suas possíveis implicações terapêuticas. Segundo ele, a medida se baseava tanto em pesquisas acadêmicas quanto em dados empíricos.
Forster também argumentou que a inclusão do medicamento tinha o objetivo de garantir sua disponibilidade no sistema público de saúde, uma vez que hospitais privados já o haviam incorporado a seus protocolos. O diplomata mencionou a orientação do ministério sobre a administração da droga, incluindo o monitoramento cardíaco.
Na mesma carta, o representante brasileiro questionou estudos que, segundo ele, haviam sido divulgados sem rigor científico e revisão por pares. Sugeriu que esse poderia ser o caso de um artigo da revista The Lancet, usado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para suspender temporariamente pesquisas com cloroquina e hidroxicloroquina.
Forster informou a Engel que, segundo notícias da imprensa, a OMS havia decidido retomar os testes com hidroxicloroquina após examinar preocupações sobre a segurança do medicamento. O artigo da The Lancet seria retratado em 4 de junho, um dia depois do envio da carta.
A correspondência também citava instituições que estudavam os antimaláricos, entre elas a Fiocruz e o Hospital Albert Einstein. Ao tratar da pesquisa médica no país, o diplomata escreveu que “a medicina brasileira tem uma robusta base de conhecimento” e histórico de cooperação com instituições norte-americanas.

EUA revogam licença do remédio dez dias depois
À época, a eficácia do medicamento contra a covid-19 ainda era investigada. Em 15 de junho, menos de duas semanas após a carta, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, revogou a autorização emergencial para o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em determinados pacientes hospitalizados com a doença.
“A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA revogou hoje a autorização de uso emergencial (EUA, na sigla em inglês) que permitia a utilização de medicamentos para o tratamento de pacientes hospitalizados com COVID-19 (SARS-CoV-2), uma vez que não há evidências de que tais fármacos beneficiem os pacientes; ao mesmo tempo, observou-se um aumento expressivo no número de relatos de eventos adversos — incluindo óbitos — associados ao uso desses medicamentos”, anunciou o órgão.
“Deixamos claro, ao longo de toda a emergência de saúde pública, que nossas ações seriam pautadas pela ciência e que nossas decisões poderiam evoluir à medida que obtivéssemos mais informações sobre o vírus SARS-CoV-2, analisássemos os dados mais recentes e avaliássemos o equilíbrio entre riscos e benefícios dos tratamentos para a COVID-19”, afirmou Anand Shah, vice-comissário da FDA para Assuntos Médicos e Científicos.
Dois dias depois, foi a fez da OMS interromper o braço de seu estudo internacional dedicado à hidroxicloroquina. Segundo a entidade, os dados indicavam que o medicamento não reduzia a mortalidade de pacientes hospitalizados.
Cloroquina na lista de ações do governo
Nada disso parecia ser suficiente para convencer o governo de Jair Bolsonaro a abandonar o remédio. De fato, a distribuição de cloroquina também apareceu em uma circular enviada pelo Itamaraty aos postos brasileiros no exterior em 26 de junho de 2020, quando tanto Trump como a OMS já tinham dado por encerrado o uso do remédio.
O documento do Itamaraty, naquele momento, reunia informações sobre as medidas adotadas pelo governo na pandemia para uso dos diplomatas em contatos oficiais e ações de comunicação.
Na seção sobre o sistema de saúde, a circular afirmava que o Ministério da Saúde havia comprado e distribuído medicamentos para auxiliar no tratamento da covid-19. “São 2,9 milhões de comprimidos de Cloroquina e 8,4 milhões de cápsulas de Oseltamivir”, dizia o texto.
A iniciativa foi incluída ao lado de ações como o envio de equipamentos de proteção, a distribuição de testes e a abertura de leitos de terapia intensiva. O documento também listava medidas econômicas e sociais, entre elas o auxílio emergencial, linhas de crédito para empresas e transferências de recursos a estados e municípios.
A circular foi enviada nove dias após a OMS interromper os testes com hidroxicloroquina em seu estudo internacional. Mesmo assim, a distribuição da cloroquina seguiu na relação de ações que os representantes brasileiros poderiam apresentar no exterior.






