De maneira espontânea, inédita e sem qualquer envolvimento de partidos políticos, brasileiros em todo o mundo se mobilizam para tentar impedir que a extrema direita chegue no poder no país.
Em diversas capitais no exterior, grupos de imigrantes estão se organizando para viabilizar a viagem de eleitores que, no primeiro turno, não foram às urnas. A operação ganhou até nome: “voto solidário”.
Pela primeiras vez, quase 1 milhão de brasileiros estão aptos a votar no exterior. No dia 4 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva venceu no exterior, com 53% dos votos. Mas a taxa de abstenção foi grande. 62% deles não apareceram nas sessões eleitorais no primeiro turno. Seis de cada dez eleitores.
Nos EUA, a taxa de abstenção foi de 71%, contra 70% na Espanha e 68% na Itália.
Parte do problema é a distância dos consulados em relação ao local de moradia de vários grupos da comunidade brasileira. Ainda que as urnas tenham sido espalhadas por mais de 160 cidades em 102 países, a realidade é que, para muitos eleitores, chegar até as capitais ou grandes cidades de seus países envolveu gastar dinheiro e realizar viagens.
Um brasileiro morador de Toulouse, por exemplo, precisa viajar 590 quilômetros para poder votar em Paris.
Outro desafio é o de convencer uma parcela dos brasileiros de que não havia um risco de serem deportados caso se apresentem aos consulados. A desinformação sobre os direitos de cada um ainda se mostrou um obstáculo. Muitos brasileiros consideram que, por estarem de forma irregular num país estrangeiro, não teriam o direito de votar.
Assim, nos dias seguintes ao primeiro turno, mobilizações na Espanha, Itália, Portugal, França, Suíça, EUA e em dezenas de países surgiram para mudar essa realidade.
A ideia é simples: oferecer carona e hospedagem para atrair os eleitores progressistas e que não compareceram às urnas.
Pela legislação eleitoral do Brasil, candidatos não podem organizar comboios ou qualquer caravana para eleitores. Mas nada impede que pessoas se organizem neste sentido. Além disso, diplomatas ouvidos pelo ICL Notícias apontam que, no exterior, a legislação brasileira não se aplica.
Um site ainda foi criado www.votolafora.com.br para ajudar a mobilizar a comunidade de imigrantes. Nele, os brasileiros podem pedir carona ou local para ficar, e encontrar quem possa estar oferecendo um espaço.
A mobilização, de fato, já começou. Em Zurique, grupos de artistas estabeleceram canais de comunicação para atrair eleitores de cidades que não tenham o consulado brasileiro. O mesmo tem sido realizado em Paris, Roma e Berlim.
Uma das maiores operações tem ocorrido na Espanha. Mariana Rosa Rodriguez, carioca de 40 anos e que vive em Málaga, é uma das organizadoras da mobilização.
No primeiro turno, ela conta que dez brasileiras saíram de sua região no Sul da Espanha e fizeram a longa viagem até Madri. “Quando veio a depressão dos resultados do primeiro turno, começamos a falar o que podemos fazer aqui, na nossa comunidade”, contou.
Um número que intrigava a brasileira era o de eleitores no país. Dos 40 mil brasileiros inscritos na Espanha, apenas onze mil apareceram para votar.
A operação que Mariana e outras mulheres brasileiras organizaram já começou a dar resultado. Hoje, elas são quase 40 que sairão de Málaga para Madri, no dia 25 de outubro.
Caronas e vaquinhas passaram a ser planejadas. Uma eleitora de Cadiz, por exemplo, foi beneficiada pela operação e o objetivo é de chegar a mais gente nas próximas duas semanas.
“É verdade que nunca houve uma virada do primeiro para o segundo turno. Mas também é verdade que nunca a diferença foi tão pequena”, disse Mariana. “Estamos esperançosas e motivadas. Estamos fazendo a nossa parte”, completou.






