A Casa Branca declarou nesta sexta-feira (20) que não apoia a proposta da Organização das Nações Unidas (ONU) de criar um mecanismo internacional de governança para a inteligência artificial. A iniciativa foi apresentada durante a Cúpula sobre o Impacto da IA, realizada em Nova Délhi, na Índia.
Representando o governo americano no encontro, o conselheiro de tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, afirmou que os Estados Unidos rejeitam “totalmente” a ideia de uma governança global para o setor.
Segundo ele, a posição do governo do presidente Donald Trump é clara: a inteligência artificial não deve ficar sujeita a estruturas centralizadas ou excessivamente burocráticas. Para Washington, esse tipo de modelo poderia limitar a inovação e reduzir a competitividade tecnológica.
A manifestação ocorreu pouco antes da divulgação da declaração final dos líderes participantes da cúpula.
ONU propõe painel científico independente
Horas antes, o secretário-geral da ONU, António Guterres, anunciou a criação de um novo órgão consultivo voltado ao “controle humano” da inteligência artificial. A proposta prevê a formação de um Painel Científico Internacional Independente sobre IA, composto por 40 especialistas designados pela Assembleia Geral.
O modelo deve seguir uma estrutura semelhante à do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), responsável por avaliações científicas sobre o aquecimento global.
Guterres defendeu que a governança baseada em evidências não representa um obstáculo ao progresso, mas sim um caminho para torná-lo mais seguro e equilibrado. Segundo ele, compreender melhor os limites e capacidades da IA permitirá estabelecer regras mais inteligentes e proporcionais aos riscos.
Debate global sobre regulação da inteligência artificial
A rápida expansão da IA generativa tem impulsionado lucros no setor de tecnologia, mas também ampliado preocupações sobre impactos no emprego, na privacidade, na segurança digital e até no meio ambiente.
À frente da OpenAI, Sam Altman também defendeu a necessidade de regras para o uso da tecnologia. Ele afirmou que a democratização da IA é fundamental, mas reconheceu que são necessárias medidas de segurança “com urgência”.
Lula alerta para risco de desigualdade
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou dos debates e destacou que, sem coordenação internacional, a IA pode aprofundar desigualdades históricas.
Segundo ele, os algoritmos não são apenas códigos matemáticos, mas parte de uma estrutura de poder. Para Lula, quando poucos atores controlam as infraestruturas digitais, o debate deixa de ser apenas tecnológico e passa a envolver concentração de poder.
A cúpula de Nova Délhi foi a primeira realizada em um país em desenvolvimento. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, afirmou que o mundo vive uma transição estrutural na relação entre humanos e máquinas e defendeu que a IA seja direcionada ao bem comum global.
A Índia busca aproveitar o evento para fortalecer sua posição estratégica no setor e atrair investimentos bilionários nos próximos anos, reduzindo a distância tecnológica em relação aos Estados Unidos e à China.
Próximos passos
Esta foi a quarta reunião anual dedicada à política internacional de inteligência artificial. O próximo encontro está previsto para Genebra, no primeiro semestre de 2027.
Apesar da ampla participação e da diversidade de temas — como proteção de crianças, impacto no mercado de trabalho e acesso equitativo à tecnologia — analistas avaliam que o desafio agora é transformar declarações políticas em compromissos concretos.






