Por Juliana Dal Piva e André Uzêda
Pablo Marçal, influenciador e coach do candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, atuou a pedido de Daniel Vorcaro, dono do Master, e sua equipe de marketing na defesa da venda de 58% do banco para o BRB, anunciada em março de 2025. É o que mostram mensagens de Vorcaro e de Ana Mattos, responsável pela área de marketing do banco. Segundo Mattos, 15 influenciadores deveriam utilizar o “formato Marcal” (sic) e a partir do dia 4 de abril de 2025, o próprio Marçal foi acionado para fazer postagens. O ICL Notícias identificou até um corte de um trecho da entrevista do economista-chefe do Master, Paulo Gala, pedida por Vorcaro para a cúpula da CNN Brasil.
Marçal tem sido uma figura chave na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. No único debate até o momento nesta disputa, organizado pela TV Band, no domingo (18), o coach foi quem orientou o filho 01 de Jair Bolsonaro nas táticas para provocar o presidente Lula. Marçal foi flagrado, na plateia, gesticulando com as mãos de modo a posicionar Flávio atrás de Lula, como forma deliberada para irritar o petista. O próprio Marçal foi candidato nas eleições municipais em São Paulo, em 2024, e ficou marcado por irritar o candidato José Luiz Datena e receber uma cadeirada, durante debate da TV Cultura.
Em abril de 2025, o Banco Master enfrentava uma crise pública pela venda de 58% de seu capital ao BRB, o banco público do Distrito Federal. O caso gerou uma série de reportagens negativas na imprensa em função da desconfiança da operação e da qualidade real dos ativos do Master. Para defender a operação, o banqueiro Daniel Vorcaro e sua equipe de marketing montaram uma rede de influenciadores para atuar nas redes.

“Formato Marçal”
Às 15h03 de 5 de abril de 2025, um sábado, Ana relatou a Vorcaro o plano. Relatou que tinha feito um contrato de 12 meses com a influenciadora Gabriela Priolli. O caso foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo e Priolli negou que tivesse contrato com Master.

No entanto, na sequência, Ana Mattos relatou a Vorcaro que tinha pensado mais ações com outros profissionais. “Além disso, por três meses (renováveis ou não) teremos cerca de 15 influenciadores com alto engajamento”, escreveu Matos para Vorcaro. Depois, emendou. “Os conteúdos desses influenciadores seguirão o formato ‘Marcal’, como o que compartilhei ontem no grupo”, escreveu ela. O ICL decidiu manter a grafia original utilizada nas conversas.
Na mesma mensagem, Ana mandou exemplos de roteiro separados por público. O texto para a “direita” dizia: “Eu fico pasmo como o PT quer politizar tudo. Um banco privado fecha um acordo com outro banco (público), dentro da lei, e já vem esquerda correndo pro Judiciário. É por isso que o país não anda.” O da “esquerda”: “Nem toda operação no mercado financeiro é malandra.” O do “mercado”: “A operação BRB-Master pode sim gerar sinergias positivas.”
Vorcaro aprovou a linha, com um ajuste: “Tira PT. Pessoas querem politizar.”
Quatro horas depois, o banqueiro menciona postagens de Pablo Marçal. Às 19h33, Vorcaro escreveu: “Acabei de ver que pablo marcal postou coisa do banco. Vou precisar que vc entre no circuito pra mim delicadamente”. Os dois falaram por telefone durante um minuto e meio, e em seguida o banqueiro enviou na conversa com a diretora o contato com o número de telefone de Marçal.

Pouco mais de uma hora depois, às 20h49, Vorcaro cobrou: “Falou com Pablo? Soltou mais um”. Ana respondeu que tinha mandado mensagem porque ele não tinha atendido a ligação e informou que Marçal ia ligar. Às 23h43, Vorcaro deu nova orientação: “Tenta fazer ele falar de concentracao bancaria e nao especificamente do banco”. “Sim”, respondeu Ana.

No dia 7 de abril de 2025, Marçal publicou em seu canal um trecho da entrevista que o economista-chefe do Master, Paulo Gala, tinha dado à CNN no dia 4 de abril.
O ICL Notícias revelou no domingo, 18, que essa entrevista ocorreu após um pedido de Vorcaro para a cúpula da CNN Brasil. Na ocasião, Ana Mattos, responsável pelo marketing do Master, chegou a dizer que o próprio Vorcaro deveria fazer a entrevista e que tinha falado com o então presidente do conselho da CNN Brasil, João Camargo. “Eu respondi que ele tem que combinar com a gente antes as perguntas do Naka. Todas. Antes”, escreveu Matos. “A gente dizer o que queremos falar. Tudo combinado. 100%. Eu vou com vc.” Naka é uma menção ao jornalista Fernando Nakagawa que chefiava a editoria de Economia da CNN Brasil e comentava todos os programas da casa, naquela época. João Camargo, então presidente executivo do Conselho da CNN Brasil, deixaria o canal em agosto de 2025, depois de romper com Rubens Menin, sócio-controlador. Ao final daquele dia, por indicação de Vorcaro a entrevista ocorreu com Paulo Gala.
Procurada, a CNN disse que Daniel Vorcaro “nunca foi sócio da CNN Brasil ou do CNN Money. A emissora tem um único controlador, Rubens Menin. O Banco Master foi anunciante da CNN Brasil, com entregas de mídia convencionais nos intervalos comerciais e nas plataformas digitais. Os valores dos contratos comerciais são protegidos por cláusulas de confidencialidade, política aplicada a todos os anunciantes”. A emissora ainda afirmou que “reitera seu compromisso com a independência editorial, a transparência e os princípios éticos que orientam sua atuação jornalística, mantendo a clara separação entre suas áreas comercial e editorial”. O jornalista Fernando Nakagawa negou qualquer interferência da cúpula na entrevista.
O jato de R$ 1,17 milhão
Menos de dois meses depois dessa troca de mensagens e das postagens, Marçal viajou para Nova York num jato pago por uma empresa ligada a Vorcaro. Segundo reportagem do Valor Econômico no início de outubro, o voo de 29 de maio a 2 de junho de 2025 custou R$ 1,17 milhão. O pagamento foi feito pela Prime2, sociedade de propósito específico ligada à Prime You, empresa da qual Vorcaro era sócio.
Ainda segundo o Valor, Vorcaro orientou uma funcionária da Prime You: “Não fala de valores”. Se alguém perguntasse, ela deveria dizer que ele tinha “trocado horas” de voo.
Após a reportagem, Marçal confirmou em um vídeo publicado em suas redes ter usado o avião. Disse que se ofereceu para pagar e que Vorcaro sugeriu que ele “experimentasse” a aeronave antes de comprar uma parecida.
“Irmão”
Em setembro de 2025, os dois conversavam com intimidade. Segundo o colunista Lauro Jardim, de O Globo, Marçal escreveu a Vorcaro no dia 2: “E aí irmão. Bolsonaro vai puxar cadeia mesmo?”. O banqueiro respondeu: “Acho que sim, dificilmente cenario diferente.” Nove dias depois, o STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão.






