A morte não é apenas o fim biológico, mas uma construção histórica. Em novo curso promovido pela Revista Cult e pelo Espaço Cult, o historiador Lindener Pareto conduz um mergulho profundo nas transformações sociais, políticas e sanitárias da capital paulista nos séculos XIX e XX, tendo como ponto de partida o Cemitério da Consolação.
Para compreender a alma de uma metrópole vertiginosa, às vezes é preciso silenciar os motores e escutar o que dizem as pedras. Olhar para a história de São Paulo a partir de seus mortos e das escolhas que a sociedade fez ao sepultá-los é a provocação central do curso “Viver e Morrer em SP: uma história de São Paulo a partir do Cemitério da Consolação”, que acontece nos meses de julho e agosto de 2026.
Dividido em três encontros – duas aulas teóricas e uma imersão prática –, o programa propõe uma análise densa e reveladora das transformações sociais, culturais, sanitárias e urbanísticas da capital paulista ao longo dos séculos XIX e XX. O fio condutor dessa jornada é a criação e a consolidação do primeiro cemitério público da cidade.

O curso será ministrado pelo historiador Lindener Pareto, doutor em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP). Conhecido por seu trabalho afiado de divulgação científica no projeto de História Pública Provocação Histórica e por suas colunas incisivas no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Pareto tem se destacado por retirar a história do pó dos arquivos e trazê-la para o calor dos debates contemporâneos.
“A morte não é apenas um evento biológico, mas uma construção histórica e cultural. Investigar o Cemitério da Consolação é ler a história de São Paulo escrita em pedra, bronze e disputas sociais”, afirma o professor.
Da morte domada ao higienismo: a cidade em disputa
O programa do curso foi estruturado para conectar a teoria sociológica à prática de campo, permitindo que os participantes compreendam como a cidade se transformou de uma pacata vila em uma metrópole caótica.
O primeiro encontro, “Uma breve história da morte” (16 de julho), traça um panorama das transformações nas atitudes perante a morte no Ocidente. Inspirada em autores fundamentais como Philippe Ariès, a aula abordará a transição da “morte domada” medieval para o surgimento das preocupações higienistas, que expulsaram os cemitérios de dentro das igrejas e do centro das cidades europeias, criando o modelo de necrópole extra-muros que conhecemos hoje.
Na segunda aula, “Viver e Morrer em São Paulo” (23 de julho), o foco recai sobre o crescimento vertiginoso da capital paulista no século XIX. O encontro debate o movimento higienista local e os intensos embates políticos e sanitários que culminaram na fundação do Cemitério da Consolação, inaugurado em 1858. É a história de uma cidade em disputa, dividida entre as elites emergentes e as massas de trabalhadores, que encontrava na arquitetura tumular uma nova forma de distinção social.
Um museu a céu aberto: o direito à memória
O ápice do curso acontece na terceira aula, uma visita guiada ao Cemitério da Consolação, marcada para o dia 1º de agosto (sábado, às 10h). O espaço, frequentemente evitado no cotidiano apressado dos paulistanos, é encarado aqui como um verdadeiro museu a céu aberto e um documento histórico monumental.
O roteiro de campo cruzará os caminhos da elite cafeeira, do modernismo e da política nacional. A imersão tem início no imponente pórtico projetado por Ramos de Azevedo – a monumentalidade servindo como cartão de visitas da necrópole da elite. Em seguida, o grupo visitará jazigos icônicos, como o colossal Mausoléu Matarazzo (o maior da América Latina), e as sepulturas de figuras incontornáveis da cultura e da história do Brasil: Luiz Gama, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato, Washington Luís e a Marquesa de Santos.

Ao final da caminhada, os participantes serão convidados a uma reflexão coletiva e incômoda: o cemitério como um espaço vivo de disputas pelo direito à memória. Afinal, quem a história oficial escolhe monumentalizar em bronze e mármore, e quem é sistematicamente condenado ao esquecimento?
Serviço
Curso: Viver e Morrer em SP: uma história de São Paulo a partir do Cemitério da Consolação
Facilitador: Prof. Dr. Lindener Pareto (Historiador)
Realização: Revista Cult Datas: 16 e 23 de julho de 2026, das 19h às 20h30
Local das aulas: Espaço Cult (Praça Santo Agostinho, 70, 10º andar, Aclimação, São Paulo – SP).
Visita guiada: 1º de agosto de 2026 (sábado), às 10h
Ponto de encontro da visita: Pórtico do Cemitério da Consolação (Rua da Consolação, 1660, São Paulo – SP)
Inscrições e valores: Disponíveis na plataforma Sympla
Orientações para a visita: A organização recomenda o uso de roupas e calçados confortáveis para caminhada, além de protetor solar, repelente e garrafa de água. Pede-se a manutenção do silêncio e da discrição necessários ao ambiente cemiterial, que continua ativo.






