Por Leila Cangussu
A filósofa Marilena Chaui classificou a cultura do cancelamento como um “assassinato socialmente aceito” durante sua participação no Despertar 2026, neste domingo (20), no Vibra São Paulo. Em uma aula sobre as relações entre opinião e pensamento, ela afirmou que a exclusão de quem diverge ameaça um dos fundamentos da democracia: o direito de pensar de maneira diferente.
Chaui analisou como o neoliberalismo e as plataformas digitais interferem na formação das opiniões e na construção da identidade. Para ela, a lógica das redes transforma a visibilidade em condição para a existência social. Nesse ambiente, ser cancelado significa perder o reconhecimento do grupo ao qual uma pessoa pertence. “Você não tem o direito de ter uma opinião divergente e não tem o direito de pensar de modo diferente do nosso grupo”, afirmou.
Opinião como direito
Para explicar a diferença entre opinião e pensamento, Chaui retomou a tradição filosófica iniciada por Sócrates. Segundo ela, a opinião é individual, particular e pode entrar em conflito com outras posições. O pensamento, por sua vez, busca construir ideias que possam ser reconhecidas como verdadeiras por todos.
A filósofa lembrou que a Revolução Francesa transformou a possibilidade de expressar opiniões em um direito. A valorização da opinião se opunha ao dogmatismo religioso que sustentava as monarquias absolutistas e permitia que os indivíduos participassem publicamente das decisões sobre a vida social, política e cultural.
No mundo contemporâneo, porém, esse direito passou a ser ameaçado pela concentração da autoridade sobre o pensamento.
Estado, escola e hospital como empresas
Chaui definiu o neoliberalismo como uma forma de totalitarismo. Ela explicou que não empregava o conceito apenas para descrever governos comandados por autocratas, mas sociedades nas quais diferentes dimensões da vida passam a obedecer à mesma estrutura.
No neoliberalismo, segundo a filósofa, a estrutura empresarial se estende ao Estado, às escolas, aos hospitais, às igrejas e aos próprios indivíduos. “Tudo tem a estrutura de uma empresa. A escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, a igreja é uma empresa, o Estado é uma empresa”, disse.
Chaui usou a linguagem adotada na política como exemplo dessa mudança. Quando os governantes são chamados de gestores, afirmou, o Estado passa a ser tratado como uma empresa e o governante assume o papel de gerente.
A mesma lógica aparece na ideia de que cada pessoa deve ser “empresária de si mesma”. Para Chaui, essa concepção relaciona o valor dos indivíduos ao desempenho econômico e à capacidade de acumular riqueza.
“Os competentes mandam”
A filósofa também criticou o que chama de “ideologia da competência”. Nesse modelo, a sociedade seria dividida entre pessoas autorizadas a produzir conhecimento e aquelas das quais se espera apenas obediência. “Os competentes mandam e os incompetentes obedecem”, resumiu.
De acordo com Marilena Chaui, essa hierarquia aparece inicialmente nos meios tradicionais de comunicação por meio da figura do formador de opinião. Nas plataformas digitais, ela se concentra nos influenciadores, que passam a determinar o que seus seguidores devem pensar e fazer.
A filósofa chamou atenção para o próprio uso da palavra “seguidor”. Para ela, o termo reproduz uma relação de autoridade na qual uma pessoa formula ideias e as demais apenas acompanham. “O mundo digital leva ao extremo o controle das nossas consciências, das nossas ações, das nossas opiniões e das nossas ideias”, declarou.
Chaui afirmou que o problema não está em reconhecer diferenças entre opinião e pensamento, mas em concluir que apenas algumas pessoas seriam capazes de pensar. Para ela, essa divisão intelectual é transformada em uma hierarquia social e política.
O cancelamento como exclusão
Nas redes sociais, a filósofa identifica uma forma ainda mais intensa de controle. Chaui afirmou que as plataformas estimulam uma subjetividade baseada na própria imagem e na aprovação alheia. “Eu só existo se eu me vejo e se tenho a certeza de que os outros me veem”, explicou.
Essa dependência da visibilidade produz, segundo ela, uma subjetividade ao mesmo tempo narcisista e depressiva. O indivíduo precisa ser visto para se afirmar, mas pode perder esse reconhecimento caso expresse uma opinião contrária à posição do grupo. “É por isso que o cancelamento é a minha morte. Quando me cancelam, eu sou assassinada”, afirmou.
Chaui relatou que também já foi alvo desse mecanismo. Segundo ela, o episódio ocorreu após defender publicamente um professor acusado de assédio, por ter convicção de que a denúncia não correspondia aos fatos. Em seguida, uma pessoa anunciou nas redes que a filósofa estava “cancelada”, mas exibiu um de seus livros e afirmou que a obra era boa. “É uma loucura”, comentou Chaui.
Democracia não é consenso
Na parte final da aula, Chaui defendeu que a democracia não pode ser reduzida às eleições, aos partidos ou à escolha periódica de governantes. “Ela não é um regime político. Ela é uma forma da sociedade”, afirmou.
Segundo a filósofa, em uma democracia, o poder pertence à sociedade, enquanto os governantes ocupam temporariamente esse espaço. A democracia também se caracteriza pela criação e pela garantia de direitos, processo no qual os movimentos sociais exercem papel central.
Chaui afirmou ainda que a democracia não se baseia na eliminação dos conflitos, mas no reconhecimento da divergência como parte da vida coletiva. “A democracia se realiza como um conflito de opiniões”, disse.
Ao trazer a discussão para o Brasil, a filósofa definiu a sociedade brasileira como autoritária, vertical e hierárquica. Ela citou a pergunta “Você sabe com quem está falando?” como expressão cotidiana dessa estrutura.
Para Chaui, uma sociedade democrática ainda precisa ser construída no país por meio da superação da divisão entre os privilégios dos grupos dominantes e as carências impostas aos demais. “Os direitos são universais. Seja o direito à opinião, seja o direito ao pensamento. A sociedade democrática ainda precisa ser criada por nós contra o autoritarismo dos dominantes”, concluiu.

O Despertar 2026 termina neste domingo (20), no Vibra São Paulo. A terceira edição do evento reúne pesquisadores, jornalistas, artistas, educadores e ativistas em debates sobre educação, cultura, democracia, direitos humanos e participação social.






