Especialistas alertam que o hábito frequente pode afetar a autonomia, o sono e o desenvolvimento emocional da criança, mas destacam que o acolhimento em situações específicas faz parte da infância.
É comum que crianças procurem os pais durante a noite após um pesadelo, uma doença ou um momento de insegurança. Essas situações fazem parte do desenvolvimento infantil e, segundo especialistas, não representam motivo para preocupação quando ocorrem de forma ocasional.
O que merece atenção é quando uma criança de aproximadamente 10 anos passa a depender da presença dos pais para conseguir dormir todas as noites. Nesse cenário, pediatras, psicólogos infantis e especialistas em medicina do sono recomendam que a família observe o comportamento com cuidado, pois o hábito pode interferir na autonomia da criança e até sinalizar dificuldades emocionais que merecem acompanhamento.
O sono é um dos pilares da saúde infantil
A American Academy of Sleep Medicine recomenda que crianças entre 6 e 12 anos durmam entre 9 e 12 horas por noite. A quantidade adequada de sono está diretamente relacionada ao crescimento saudável, ao desenvolvimento cerebral, à aprendizagem, à memória, ao equilíbrio emocional e ao fortalecimento do sistema imunológico.
Diversos estudos também demonstram que noites mal dormidas podem aumentar o risco de dificuldades de concentração, baixo rendimento escolar, alterações de comportamento, ansiedade, obesidade e outros problemas de saúde ao longo da infância.
Dormir com os pais nem sempre é um problema
Especialistas ressaltam que dormir na cama dos pais, eventualmente, não deve ser encarado como um erro.
Após um pesadelo, durante uma febre, em períodos de mudanças importantes na rotina ou diante de acontecimentos que geram medo e insegurança, o acolhimento dos pais pode ser importante para transmitir proteção e conforto.
O ponto de atenção surge quando esse comportamento deixa de ser excepcional e passa a ser uma necessidade diária.
A autonomia também se aprende na hora de dormir
Por volta dos 10 anos, a criança já se encontra em uma etapa importante do desenvolvimento da independência emocional.
Segundo psicólogos infantis, dormir no próprio quarto ajuda a desenvolver habilidades como:
- autorregulação emocional;
- enfrentamento gradual dos medos;
- construção da autoconfiança;
- desenvolvimento da independência;
- fortalecimento da autoestima.
Quando a criança acredita que só consegue dormir ao lado dos pais, ela pode criar uma associação de segurança exclusivamente dependente da presença deles, tornando mais difícil enfrentar situações comuns da infância, como dormir na casa de familiares, participar de viagens escolares ou acampamentos.
Quando o hábito pode indicar ansiedade
Pesquisas internacionais apontam que crianças com transtornos de ansiedade apresentam maior frequência de compartilhamento da cama com os pais.
Isso não significa que toda criança que dorme com os pais seja ansiosa. Entretanto, quando o comportamento é persistente, pode representar um sinal de que existe algum medo ou sofrimento emocional que precisa ser compreendido.
Entre os fatores mais comuns estão:
- bullying escolar;
- separação dos pais;
- nascimento de irmãos;
- luto;
- mudanças de residência;
- conflitos familiares;
- excesso de exposição às telas;
- pesadelos frequentes;
- ansiedade infantil.
Nesses casos, o foco não deve ser apenas retirar a criança da cama dos pais, mas identificar a origem da insegurança.
O impacto para toda a família
Movimentos durante a noite, despertares frequentes e horários irregulares podem comprometer o descanso da família inteira, refletindo em cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração durante o dia.
Além disso, terapeutas familiares destacam que preservar momentos de privacidade do casal também faz parte de uma dinâmica familiar saudável.
Como incentivar a criança a dormir sozinha
Os especialistas orientam que a mudança aconteça de maneira gradual, respeitando o tempo da criança.
Algumas estratégias incluem:
- estabelecer horários regulares para dormir;
- criar uma rotina tranquila antes de deitar;
- evitar celulares, tablets e televisão pelo menos uma hora antes do sono;
- manter o quarto confortável, silencioso e com iluminação adequada;
- conversar sobre os medos durante o dia, e não apenas na hora de dormir;
- reforçar positivamente cada conquista da criança;
- evitar punições ou constrangimentos relacionados ao medo.
A construção da autonomia deve ocorrer com acolhimento, paciência e constância.
Quando procurar ajuda profissional
Os pais devem considerar procurar orientação de um pediatra ou psicólogo infantil quando a criança:
- apresenta medo intenso de dormir sozinha;
- acorda várias vezes durante a noite procurando os pais;
- demonstra ansiedade excessiva;
- apresenta pesadelos frequentes ou terrores noturnos;
- sofre prejuízo no rendimento escolar ou na convivência social;
- mantém o comportamento por muitos meses sem melhora.
Quanto mais cedo a causa for identificada, maiores são as chances de uma intervenção simples e eficaz.
Ciência e acolhimento caminham juntos
Os especialistas são unânimes em afirmar que não existe uma fórmula única para todas as famílias. O mais importante é compreender que o desenvolvimento da autonomia faz parte do crescimento saudável da criança.
Dormir ocasionalmente com os pais pode representar carinho e proteção em momentos específicos. Porém, quando essa prática se transforma em dependência constante, a ciência recomenda atenção, diálogo e, quando necessário, acompanhamento profissional.
Promover bons hábitos de sono desde a infância não beneficia apenas as noites de descanso. Também contribui para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança, preparando-a para enfrentar desafios com mais segurança, equilíbrio e independência.
- American Academy of Sleep Medicine (AASM) – Recomendações oficiais sobre duração do sono para crianças e adolescentes.
- American Academy of Pediatrics (AAP) – Orientações sobre higiene do sono e desenvolvimento infantil.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – Relação entre sono, aprendizagem, saúde mental e desenvolvimento infantil.
- Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology (2018) – Estudo sobre compartilhamento de cama e ansiedade em crianças.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) – Recomendações sobre higiene do sono na infância.
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