Reunidos com empresários nesta terça-feira (15), o vice-presidente Geraldo Alckmin e outros ministros do governo Lula ouviram apelos por uma resposta negociada às tarifas de 50% anunciadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, sobre produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto. Representantes da indústria classificaram a medida como um “perde-perde” e pediram a Alckmin, também ministro da Indústria, que negocie com Washington para tentar adiar a aplicação da medida.
“O que ouvimos dos empresários foi: negociação, empenho para rever os anúncios”, afirmou Alckmin após o encontro do comitê interministerial criado para coordenar a reação brasileira.
Participaram da reunião representantes de setores como aviação, aço, alumínio, maquinário, celulose, móveis, autopeças e calçados — os mais atingidos pelas novas tarifas. À tarde, será a vez do agronegócio.
Uma das principais críticas foi o curto prazo dado pelo governo Trump para entrada em vigor da medida. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) sugeriu um adiamento de 90 dias. “Saímos do piso [tarifário, de 10%] para o teto [de 50%] sem nenhuma motivação econômica”, afirmou Ricardo Alban, presidente da CNI.
Alckmin diz que governo pode buscar extensão do prazo
O vice-presidente sinalizou disposição para buscar uma extensão do prazo: “Se houver necessidade de mais tempo, vamos trabalhar nesse sentido”.
Apesar da abertura ao diálogo, o governo ainda não formalizou nenhum pedido aos EUA. “Não fizemos proposta de alíquota ou prorrogação. Estamos ouvindo os setores mais envolvidos para que o setor privado também se mobilize junto aos seus congêneres americanos”, disse Alckmin.
A estratégia do governo inclui articulação com empresas e entidades empresariais dos dois países. A US Chamber of Commerce e a Amcham Brasil já se manifestaram contra a medida e defenderam “negociações de alto nível” para evitar prejuízos bilaterais. Juntas, as entidades representam milhões de empresas com operações nos dois lados.
O comitê criado por Lula começou a operar nesta terça e será o canal direto com os setores atingidos. Ele reúne, além de Alckmin, os ministros Rui Costa (Casa Civil), Fernando Haddad (Fazenda), Simone Tebet (Planejamento), Silvio Costa Filho (Portos) e representantes do Itamaraty.
Argumento de Trump
Durante a reunião, Alckmin refutou os argumentos econômicos do governo Trump: “Dos dez principais produtos exportados, oito entram nos EUA com tarifa zero. A tarifa média é de apenas 2,7%”.
Segundo dados da Amcham Brasil, o superávit comercial americano com o Brasil alcançou US$ 1,7 bilhão em 2025, alta de quase 500% em relação a 2024. O governo brasileiro tem sustentado que as motivações das tarifas são políticas, ligadas à defesa pública de Trump ao ex-presidente Jair Bolsonaro, réu no STF.
Lei da Reciprocidade como último recurso
O governo publicou hoje o decreto que regulamenta a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada em abril pelo Congresso. A norma autoriza a adoção de contramedidas comerciais contra países que impuserem barreiras unilaterais ao Brasil.
Apesar da sinalização, o uso da lei é tratado como último recurso. A expectativa no Palácio do Planalto é esgotar as vias diplomáticas antes de qualquer ação.
Os encontros com o setor produtivo devem continuar nos próximos dias. O governo quer contar com a mobilização dos empresários, que têm forte influência sobre o Congresso americano. A ideia é que a pressão de dentro ajude a frear os efeitos da medida.





