Ativos considerados de baixa qualidade do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) foram usados para sustentar o esquema de operações fraudulentas atribuídas ao Banco Master, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. Esses papéis, conhecidos como cártulas, foram adquiridos por fundos de investimento administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e registrados com valores muito superiores ao seu preço real, segundo investigadores.
Recentemente, o Banco Central (BC) encaminhou ao TCU (Tribunal de Contas da União) um relatório que aponta operações suspeitas atribuídas ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, com fundos administrados pela Reag, empresa que, por sua vez, é investigada por ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital).
No documento, a autoridade monetária informa ter acionado o Ministério Público Federal (MPF) após identificar indícios de fraude.
De acordo com o relatório, entre julho de 2023 e julho de 2024, o Banco Master e a Reag estruturaram operações com falhas consideradas graves, em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional.
Besc foi incorporado pelo Banco do Brasil
O Besc foi incorporado pelo Banco do Brasil em 2008, e os certificados em papel representavam, à época, a posse de ações da instituição. Atualmente, no entanto, esses ativos não têm liquidez nem valor econômico relevante. Ainda assim, os gestores dos fundos os compravam como se valessem milhões de reais, inflando artificialmente o patrimônio dos veículos de investimento.
De acordo com um investigador ouvido pela reportagem da Folha de S.Paulo, os mesmos ativos “não valiam nada” e circulavam entre fundos no mesmo dia, numa fraude classificada como “grosseira”, caracterizada por uma espécie de ciranda financeira. A supervalorização desses papéis permitia justificar resgates e aplicações em outros fundos da própria Reag.
A suspeita, segundo a reportagem, é que parte dos recursos movimentados pelos fundos tenha sido desviada para pessoas usadas como laranjas, ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
À reportagem, a Reag informou que foi vendida à Arandu Investimentos em outubro e que eventuais questionamentos devem ser respondidos pelo novo controlador, mesmo quando dizem respeito a operações realizadas entre 2023 e 2024. A Arandu foi contatada, mas não respondeu. O Banco Master também não se manifestou.
Rota do dinheiro e alerta do Banco Central
O Banco Central acionou o Ministério Público Federal após identificar indícios de fraude em operações do Banco Master com fundos sob gestão da Reag. Segundo a denúncia, cerca de R$ 11,5 bilhões teriam sido lavados por meio desses fundos, levando o órgão regulador a pedir o congelamento dos recursos.
As investigações indicam que o esquema começava com operações de crédito do Master, que chegavam a R$ 500 milhões, concedidas a empresas formalmente independentes, mas ligadas ao sistema de desvio. Em vez de aplicar os recursos em suas atividades, essas empresas direcionavam o dinheiro para fundos da Reag.
Nos registros monitorados pelo BC, os empréstimos apareciam como regulares e dentro das regras de Basileia. Dentro dos fundos, porém, os gestores compravam ativos podres com preços artificialmente elevados, inflando o patrimônio. O dinheiro seguia então de fundo em fundo até alcançar veículos controlados por laranjas ligados ao grupo Master.
Para mascarar a ausência de amortização das dívidas, os empréstimos tinham prazos de carência de até quatro anos.
Crise de confiança e ativos fictícios
O esquema começou a ruir a partir da crise de confiança enfrentada pelo Banco Master no último trimestre de 2024, quando a instituição passou a ter dificuldades para captar recursos por meio de CDBs e a honrar dívidas antigas.
Segundo o BC, em vez de vender ativos para levantar caixa, o banco passou a fabricar créditos consignados falsos, que teriam sido vendidos ao Banco de Brasília (BRB). Essas operações somaram R$ 12,2 bilhões e ampliaram o conjunto de irregularidades que embasaram a prisão de Vorcaro, em novembro.






