Os Estados Unidos autorizaram temporariamente a compra de petróleo russo e derivados que estão atualmente retidos em navios no mar. A licença, válida por 30 dias e anunciada na quinta-feira (12), busca aliviar a pressão sobre os mercados globais de energia em meio à escalada de tensões no Oriente Médio.
Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a medida tem caráter emergencial e não deve gerar ganhos financeiros significativos para Moscou. Em publicação na rede social X, o secretário afirmou que a decisão foi tomada para evitar um choque de oferta que amplie a volatilidade dos preços do petróleo.
“O governo dos EUA está tomando medidas decisivas para promover a estabilidade nos mercados globais de energia e trabalhando para manter os preços baixos enquanto lidamos com a ameaça e a instabilidade representadas pelo regime terrorista iraniano. Para aumentar o alcance global da oferta existente, @USTreasury está concedendo uma autorização temporária para permitir que países comprem petróleo russo atualmente retido no mar”, diz trecho da postagem. “Essa medida específica e de curto prazo se aplica apenas ao petróleo já em trânsito e não proporcionará benefícios financeiros significativos ao governo russo, que obtém a maior parte de sua receita energética de impostos cobrados no ponto de extração”, continua.
O anúncio ocorreu poucas horas depois de os preços de referência do petróleo ultrapassarem US$ 100 por barril, atingindo o nível mais alto em quase quatro anos.
Guerra no Irã pressiona mercados de energia
A iniciativa do governo estadunidense ocorre em meio ao agravamento do conflito envolvendo o Irã. Ataques conduzidos por forças dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos — e a resposta posterior de Teerã — ampliaram as tensões regionais e afetaram rotas críticas de transporte de energia.
A instabilidade provocou interrupções no tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás exportados pelo Oriente Médio. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã chegou a afirmar que poderá bloquear embarques de petróleo do Golfo caso os ataques não cessem, elevando o risco de uma crise energética global.
Como resposta imediata à escalada de preços, os EUA anunciaram também a liberação de 172 milhões de barris de sua reserva estratégica.
Impacto sobre o petróleo russo
De acordo com Kirill Dmitriev, enviado do Kremlin para assuntos econômicos internacionais, a licença norte-americana pode afetar cerca de 100 milhões de barris de petróleo russo atualmente parados em alto-mar.
Em mensagem publicada no Telegram, Dmitriev afirmou que a crise energética global torna “cada vez mais inevitável” um relaxamento mais amplo das restrições ao fornecimento de energia russa, apesar da resistência de alguns países europeus.
A autorização emitida pelo Departamento do Tesouro permite a entrega e comercialização de petróleo bruto e derivados de origem russa carregados em navios até 12 de março. O prazo para conclusão das operações vai até a meia-noite de 11 de abril, no horário de Washington.
Estratégia mais ampla para conter preços
A medida integra um esforço mais amplo coordenado pela Agência Internacional de Energia (AIE), que reúne 32 países e anunciou um compromisso coletivo de liberar até 400 milhões de barris de petróleo no mercado internacional.
Além disso, o governo do presidente Donald Trump adotou medidas para reduzir riscos no transporte marítimo de energia. Entre elas, a determinação para que a U.S. International Development Finance Corporation ofereça seguros contra risco político e garantias financeiras para navios que operam no Golfo.
Trump também afirmou que a Marinha dos Estados Unidos poderá escoltar embarcações comerciais na região, caso as ameaças ao tráfego marítimo se intensifiquem.
Conversas com Putin
A política energética da Casa Branca também está ligada a movimentos diplomáticos mais amplos. No início da semana, Trump conversou por telefone com o presidente russo, Vladimir Putin, sobre os conflitos no Irã e na Ucrânia.
Segundo o Kremlin, a ligação durou cerca de uma hora e foi descrita como “construtiva e franca”. Putin teria apresentado propostas para encerrar rapidamente o conflito envolvendo o Irã, enquanto Trump reiterou o interesse de Washington em avançar para o fim da guerra na Ucrânia.
Além disso, Kirill Dmitriev publicou em seu perfil no Telegram que teria sido designado por Putin para “encontros em Washington” no início de abril em Washington com representantes da administração do presidente Donald Trump. “O diálogo entre a Rússia e os Estados Unidos — crucial para todo o mundo — foi completamente destruído durante a administração Biden”, diz ele.
Em outra frente, o governo norte-americano estaria avaliando alternativas para ampliar a oferta global de petróleo, incluindo um possível alívio adicional das sanções ao setor energético russo.
Na semana anterior, Washington já havia concedido uma autorização específica para que a Índia importasse determinados carregamentos de petróleo russo retidos no mar, medida que ajudou o país a compensar a redução do fornecimento proveniente do Oriente Médio.





