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Extrema direita lidera eleição estadual na Alemanha e obtém resultado inédito


A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita, foi a força mais votada nas eleições estaduais realizadas neste domingo (6) em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, segundo as projeções de boca de urna. A legenda, que tem Ulrich Siegmund como candidato a ministro-presidente — cargo equivalente ao de governador —, teria alcançado 44% dos votos, em um resultado histórico para a extrema direita no país desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

O desempenho, no entanto, não garante à AfD o comando do governo estadual. A legenda deverá conquistar entre 40 e 41 das 83 cadeiras do Parlamento regional, ficando próxima, mas sem alcançar sozinha a maioria necessária para governar. O resultado definitivo dependerá do número de partidos que superar a cláusula de barreira de 5% e da composição final do Legislativo.

A líder da AfD, Alice Weidel, classificou o resultado como um “mandato claro” não apenas para Saxônia-Anhalt, mas também para outros estados e para as eleições federais de 2029. Ela afirmou que o partido está disposto a negociar com outras legendas, apesar do histórico de resistência à formação de alianças com a extrema direita.

A CDU, partido do atual governador Sven Schulze e do primeiro-ministro federal Friedrich Merz, descartou imediatamente uma possível coalizão com a AfD. “Não trabalhamos com partidos extremistas”, afirmou Franziska Hoppermann, secretária-geral da legenda.

CDU sofre forte derrota

A CDU teria obtido apenas 18,5% dos votos, aproximadamente metade do resultado alcançado nas eleições anteriores, em 2021. O desempenho representa uma derrota significativa para o partido de Merz e para o atual governador Schulze.

As projeções indicam ainda que A Esquerda teria 9,5% dos votos, os Verdes 9% e o Partido Social-Democrata (SPD) 8%, todos acima da cláusula de barreira. Ainda havia dúvidas sobre o desempenho do BSW, legenda que chegou a admitir a possibilidade de negociar uma coalizão com a AfD.

Caso a composição projetada se confirme, a AfD precisaria do apoio de outra legenda para formar um governo. Siegmund afirmou que pretende conversar com outras forças políticas, mas deixou claro que não abrirá mão das principais bandeiras do partido, como endurecimento da política migratória, segurança interna e aproximação com a Rússia.

A possibilidade de uma aliança entre partidos tradicionais e a AfD esbarra no chamado “Brandmauer” — o “muro de proteção” criado pelas legendas democráticas para impedir a participação da extrema direita em coalizões de governo. A AfD é classificada pelos serviços de inteligência alemães como uma organização comprovadamente de extrema direita, e integrantes do partido já foram alvo de investigações relacionadas a discursos de ódio e posições neonazistas.

Uma das alternativas para a CDU seria formar um governo minoritário, buscando apoio pontual de outras siglas, especialmente A Esquerda. Esse tipo de arranjo já existe em outros estados alemães, embora seja rejeitado por setores do partido.

Vitória da AfD aumenta pressão sobre governo Merz

O resultado também representa um revés para Friedrich Merz, que enfrenta dificuldades políticas desde que assumiu o governo federal. A expressiva votação da AfD é interpretada por integrantes da oposição e analistas como um sinal de insatisfação com a atual administração em Berlim.

A vitória de Siegmund também tem um significado simbólico. O candidato construiu uma campanha de forte apelo populista, utilizando principalmente o TikTok e explorando referências à antiga Alemanha Oriental. Em seu discurso após a divulgação das projeções, afirmou que o partido está “no caminho certo”, independentemente das negociações que serão necessárias para formar o governo.

AfD cresce com discurso anti-imigração

Criada em 2013 por economistas durante a crise do euro, a AfD ganhou espaço na política alemã ao explorar temas como imigração, oposição às políticas ambientais e críticas aos direitos de minorias. O partido se fortaleceu especialmente após a política de acolhimento de refugiados adotada pela então chanceler Angela Merkel em 2015.

Siegmund é um dos nomes que cresceram dentro da legenda nos últimos anos. Sua projeção política aumentou durante a pandemia de Covid-19, quando ganhou visibilidade ao criticar as restrições impostas pelo governo.

A AfD mantém uma plataforma mais radical do que a de outras forças populistas europeias. Entre suas propostas estão a chamada “remigração”, que prevê deportações em massa de imigrantes, restrições à presença de estrangeiros em determinadas profissões, mudanças profundas nas políticas de educação e cultura, o retorno do marco alemão e até a saída da Alemanha da União Europeia.

Participação eleitoral elevada

A eleição em Saxônia-Anhalt teve comparecimento de aproximadamente 78% dos eleitores. A participação elevada foi associada ao esforço da AfD para conquistar eleitores indecisos e pessoas decepcionadas com a CDU, que durante décadas foi a principal força política do estado.

Apesar de manifestações contra a extrema direita, o dia de votação foi considerado relativamente tranquilo. Houve pelo menos um confronto pontual entre apoiadores da AfD e integrantes de movimentos sociais, rapidamente contido pela polícia.

O resultado coloca a AfD diante de um novo desafio: transformar sua expressiva votação em poder institucional. Para isso, o partido precisará romper o isolamento imposto pelas demais legendas ou esperar por uma mudança na disposição dos partidos tradicionais em negociar com a extrema direita. Independentemente da composição do próximo governo estadual, a votação em Saxônia-Anhalt representa um novo marco para a ascensão da AfD na política alemã.





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