Por Cleber Lourenço e Paulo Motoryn
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que Daniel Vorcaro obteve uma “promessa de apoio ou interferências” do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) às vésperas da prisão do controlador do Banco Master. A avaliação aparece em manifestação na qual a PGR apontou “indícios consistentes” de crimes no financiamento do filme Dark Horse e pediu que a Polícia Federal investigasse se os repasses milionários ao projeto tiveram como contrapartida alguma atuação parlamentar de interesse de Vorcaro.
Gonet fez a afirmação ao analisar uma mensagem enviada por Flávio ao banqueiro em 16 de novembro de 2025. Naquele dia, o senador tentou telefonar para Vorcaro e, depois, escreveu:
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
Vorcaro foi preso no dia seguinte, quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Dubai. A primeira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada em seguida.
Na manifestação, Gonet atribui um significado direto à mensagem. Ao mencionar que Vorcaro havia classificado o financiamento do filme como “o mais importante disparado”, o procurador-geral afirma que o banqueiro:
“obteve, às vésperas da deflagração da fase ostensiva da Operação Compliance Zero, promessa de apoio ou interferências do próprio Senador”
A frase aparece no trecho em que a PGR sustenta haver elementos suficientes para aprofundar a investigação. Gonet afirma que existem “indícios consistentes da prática das condutas ilícitas narradas” e cita como hipóteses os crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
O procurador-geral também destaca a forma como o dinheiro chegou ao projeto. Segundo ele, houve:
“repasse de montante expressivo, sem contrapartida financeira conhecida, mediante sofisticada blindagem patrimonial e atuação de interpostas pessoas”
A investigação identificou US$ 12,33 milhões remetidos em 2025 pela Entre Investimentos e Participações, ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, para o fundo Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. A PF encontrou ainda no celular de Vorcaro um acordo que previa US$ 24 milhões para financiar o filme. Os valores das parcelas previstas no documento eram praticamente os mesmos das remessas posteriormente identificadas.
Flávio cobrou Vorcaro por pagamentos
A mensagem que Gonet classificou como uma possível promessa de “apoio ou interferências” veio depois de meses de contatos entre Flávio e Vorcaro relacionados ao financiamento.
A PF afirma que Flávio não aparece apenas como alguém mencionado por terceiros, mas como “interlocutor direto” do banqueiro em tratativas que envolveram “cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das gravações”.
Em 8 de setembro de 2025, Flávio enviou um áudio cobrando os pagamentos. Segundo a PF, o senador demonstrou preocupação com o risco de inadimplência perante o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e afirmou que tentaria resolver a situação.
Uma semana depois, em 15 de setembro, Thiago Miranda avisou Vorcaro de que Flávio queria encontrá-lo pessoalmente para mostrar o que estava sendo gravado. No dia seguinte, houve uma ligação entre Flávio e Vorcaro.
A PGR registra que essa ligação ocorreu no mesmo dia da última remessa da Entre Investimentos para a Havengate identificada no relatório do Coaf:
“No dia seguinte, há registro de ligação entre DANIEL VORCARO e FLÁVIO BOLSONARO, coincidindo temporalmente com a última remessa da ENTRE INVESTIMENTOS para a HAVENGATE DEVELOPMENT FUND LP”
Em 22 de outubro, Flávio voltou a procurar Vorcaro. Disse que o filme já estava no terceiro dia de gravação e que a produção estava “no limite”. Pediu que o banqueiro avisasse caso não conseguisse fazer o aporte para que ele pudesse “encontrar outro caminho com urgência”. Vorcaro respondeu que resolveria.
Em 7 de novembro, Flávio enviou um vídeo a Vorcaro e afirmou, segundo a PF, que aquilo “somente estaria acontecendo em razão da ajuda dele”. Nove dias depois, enviou a mensagem dizendo que estaria “sempre” com o banqueiro, interpretada posteriormente por Gonet como “promessa de apoio ou interferências”.
PGR mandou procurar eventual contrapartida
A PGR não afirma que tenha sido comprovada uma interferência de Flávio em favor de Vorcaro. Ao contrário: Gonet deixa claro que ainda faltava descobrir se o financiamento do filme teve alguma contrapartida relacionada ao exercício do mandato do senador.
Segundo o procurador-geral, a investigação precisava avançar principalmente na identificação de eventual:
“ato típico da função parlamentar que possa ser atribuída, numa lógica de causa e efeito, ao negócio cinematográfico mencionado”
Gonet diz, em seguida, exatamente o que deveria ser procurado:
“elementos complementares da contrapartida financeira dos repasses, que vincule o financiamento à atuação parlamentar em pautas de interesse de Daniel Bueno Vorcaro.”
Para tentar encontrar essa conexão, a PGR pediu um levantamento das proposições legislativas apresentadas ou endossadas por Flávio e pelo deputado Mario Frias (PL-SP) que pudessem ser de interesse do Banco Master, de empresas vinculadas ao banco ou de seus controladores, “em especial Daniel Bueno Vorcaro”.
Gonet também pediu um “relatório de busca completa” nos celulares, computadores e demais aparelhos já apreendidos pela PF no Inquérito 5.026 e em investigações relacionadas para localizar referências aos parlamentares.
A manifestação foi assinada por Gonet em 21 de julho. Ao final, o procurador-geral não se opôs à abertura de um inquérito específico para investigar o financiamento de Dark Horse. O objetivo das diligências passou a incluir justamente a busca pela peça que ainda faltava: saber se os milhões destinados ao projeto tiveram alguma contrapartida relacionada à atuação parlamentar de Flávio.






