Por Heloisa Villela
A Casa da Mulher Brasileira, em Brasília, acordou cheia de vida. Depois de 9 anos fechada, o pátio do prédio agora tem uma área para as crianças brincarem, uma cozinha comunitária e cerca de 15 barracas e mais de 30 pessoas decididas a permanecer no local até que ele volte a funcionar como foi construído: para atender cerca de cinco mil mulheres por mês que tinham ali, não só abrigo, mas também assistência social, jurídica e psicológica. Essa foi uma de 16 ocupações na mesma madrugada, coordenadas pelo Movimento de Mulheres Olga Benário.
O ICL Notícias acompanhou a ação em Brasília. De um ponto de encontro em uma área afastada da cidade, cujo endereço, por motivo de segurança, permanecerá em segredo, os manifestantes seguiram para a Casa da Mulher Brasileira, na Asa Norte, em dois ônibus, por volta das 4 horas da manhã. E já partiram com barracas, colchões, fogareiro, panelas, produtos de limpeza e brinquedos. Compenetrados e organizados, eles falavam baixo, agiam rápido e desembarcaram no local já divididos em grupos de atividade: cozinha, construção, segurança.
Ruhama Pessoa, coordenadora do Olga e da ocupação Zilda Xavier, disse que o estado de abandono do prédio mostra bem o tratamento dado às políticas de proteção às mulheres no país. A Casa da Mulher Brasileira, que os ativistas ocuparam, foi construída em 2018.
“Ela custou R$ 8 milhões e não funciona há nove anos. É um espaço grande que poderia ser usado. Nós tivemos mais de 28 feminicídios no Distrito Federal e o que a gente vê é um desmonte das políticas públicas. A gente está ocupando para mostrar esse descaso. Neste exato momento estão acontecendo ocupações de mulheres no Brasil inteiro”, disse Ruhama, enquanto o céu nublado começava a clarear no horizonte.

Ao todo, foram 16 ocupações simultâneas, em 13 estados, durante a madrugada. As casas e prédios ocupados, todos vazios, não cumprem a função social determinada pela constituição, e para o Movimento Olga, poderiam abrigar mulheres que permanecem em situação de violência doméstica porque não têm para onde ir.
Indira Xavier, coordenadora nacional do Olga, disse ao ICL Notícias que as ocupações têm como objetivo enraizar a luta das mulheres em diferentes comunidades. Levar a experiência para o terreno. Aprofundar a discussão sobre a violência e recusar que cada história se torne apenas parte das estatísticas. Por isso, mães, amigos e familiares de vítimas participaram de manifestações no último dia 13, para personalizar o problema, e alguns também acompanharam as ocupações da madrugada.
No último dia 8 de março, uma mulher foi esfaqueada trinta vezes em Minas Gerais e quem chamou a polícia foi um dos filhos dela, um menino de 10 anos.
“Também precisamos falar desses órfãos, dos lares despedaçados, das outras mulheres que têm que cuidar dessas crianças”, disse Indira.
Ela ressaltou que o amparo para os filhos dessas vítimas é fundamental para romper o ciclo da violência.Indira também apontou a necessidade de discutir a educação sobre a violência nas instituições de ensino, e denunciar as escolas cívico militares que já acumulam mais de 100 casos de estupro contra estudantes, somente no estado do Paraná.

Delegacias especializadas
Entre as reivindicações desse mês da mulher, o Movimento Olga destaca a necessidade da instalação de delegacias especializadas em todos os municípios do país, com funcionamento 24 horas por dia.
Hoje, disse Indira, menos de 10% das cidades brasileiras têm delegacias da mulher. O Olga também ressalta a importância do fim da escala 6X1, sem redução salarial, como essencial para as mulheres, além de creche integral para todas as crianças. Com renda e lugar seguro para os filhos, as mulheres podem buscar, com independência, espaços seguros para viver.
Ser presença permanente nos diferentes bairros e municípios é a meta urgente do Movimento Olga. Só assim, inserido na comunidade, o movimento e as casas de abrigo que ele mantém em diferente estados do país, vão ampliar o espaço de proteção, a possibilidade de oferecer abraço e acolhimento mais amplo às mulheres. O Olga foi fundado há 15 anos e é na convivência com as mulheres que mais precisam de amparo e abrigo que Indira diz aprender mais a cada dia.
“Nós somos o único ser capaz de transformar dor em luta. É cada história que essas mulheres trazem… Você vê mulheres profundamente feridas, mas também vê força e esperança”, disse.







