Há um cemitério diferente na Islândia. Ele se refere ao nosso futuro. No chão, lápides com os nomes de locais que não existem mais. Um jardim triste que serve de alerta ao planeta de que o aquecimento é inequívoco e que os impactos são reais.
De tempos em tempos, ativistas islandeses organizam funerais inéditos para a Humanidade. A vítima são as geleiras do país que faz fronteira com o círculo polar ártico.
Enquanto a Europa derrete agora com um calor sem precedentes e governos se preparam para o que pode ser um dos fenômenos do El Niño mais poderosos, a Islândia vive a realidade de uma transformação cada vez mais acelerada diante das mudanças climáticas. Se em grandes cidade o drama é como se refrescar e garantir o abastecimento de energia, a revolução perto do Ártico tem sido social, econômica, cultural e, claro, geográfica.
O ICL Notícias percorreu o país no Norte do Oceano Atlântico para constatar que o degelo que ganha intensidade inédita é um sintoma de um fenômeno que muitos ambientalistas já consideram como inevitável: a mudança profunda que o século 21 atravessará.

Se todos os dados da ONU revelam um aumento real de temperatura no planeta, essa taxa é três vezes maior no Ártico. Na Islândia, por suas condições geográficas, alguns dos indicadores apontam para um avanço ainda mais acelerado dos termômetros.
Em apenas 20 anos, o colapso das geleiras foi maior que nos últimos 100 anos. Em alguns trechos do país, eles chegam a perder cem metros por ano. Trilhas são constantemente modificadas e a reportagem constatou como guias, mesmo os mais experientes, se deparam com “novidades” cada vez que saem para fazer suas expedições.
De fato, a partir do ano 2000, a geleira de Sólheimajökull começou a derreter rapidamente e, dez anos depois, um lago se formou em sua base. Desde então, ele tem crescido cerca de 50 metros por ano.

O ICL Notícias também visitou a lagoa glacial de Jökulsárlón, considerada como o epicentro das mudanças climáticas. Uma espécie de marco zero. Ao remar entre o gelo, a reportagem foi alertada sobre o risco de colapso imprevisível dos cubos, cada vez mais instáveis.
A lagoa cresceu diante do recuo e derretimento da geleira Breiðamerkurjökull – uma saída da calota de gelo Vatnajökull. Nos últimos 50 anos, essa lagoa quadruplicou de tamanho e se transformou na mais profunda da Islândia.
Andri Magnason, escritor islandês, acredita que o que ocorre no país é um alerta antecipado do abalo sísmico que o resto do mundo viverá ao longo das próximas décadas. Perder uma geleira, porém, não é só uma transformação na paisagem. Na Islândia, como em pontos críticos do mundo, são justamente essas geleiras que garantem água e energia para milhões de pessoas.
Essas formações são fundamentais ainda para a vida marinha. Sem elas, a elevação do nível do mar poderá afetar diretamente mais de um bilhão de pessoas até 2050, e entre 7 e 14 trilhões de dólares em infraestrutura costeira até 2100. Para algumas comunidades do Ártico e pequenos Estados insulares, o que está em jogo é sua própria existência.

Uma ilha mais verde
Percorrer a Islândia, nesse primeiro quarto do século 21, é também se deparar com uma ilha mais verde. A população local relata como rios mudaram de direção. No Sul, uma ponte construída sobre um riacho, por exemplo, agora cruza o vazio e se transformou em um monumento ao impacto do homem no planeta.
As populações de aves marinhas enfrentam dificuldades, e algumas espécies do Ártico têm sérios problemas para sobreviver. As colônias de papagaios-do-mar, por exemplo, diminuíram cerca de 70%.
Um marco nessa transformação foi o mês de julho de 2025, com inúmeras estações meteorológicas em todo o país relatando temperaturas recordes. Em vários locais, as novas marcas superaram as anteriores por uma margem impressionante — em alguns casos, mais de 8°C —, um salto raro na história meteorológica.
Segundo o Instituto Meteorológico da Islândia (IMO), a temperatura mais alta de 14 de julho foi registrada em Hjarðarból, em Biskupstungur, onde os termômetros atingiram 29,5°C, estabelecendo um novo recorde local. Essa marca fica a apenas um grau do recorde nacional absoluto de calor da Islândia, de 30,5°C, registrado em Teigarhorn, em Berufjörður, em 22 de junho de 1939.
A diferença, desta vez, é que foram vários os dias de picos de temperatura. Várias estações, incluindo Þingvellir, Skálholt, Kálfhóll e Bræðratunguvegur, registraram temperaturas acima de 28°C — uma marca extraordinária para a ilha subártica, mesmo no auge do verão.
O mês de maio de 2025 foi o mais quente ainda para esse período do ano. Em todo o país, a temperatura média de maio nas áreas habitadas foi de 8,4°C, superando o recorde nacional anterior para o mês — 7,6°C, registrado em 1935.
A realidade é que essas temperaturas já abalam a vida cotidiana dessas duas regiões. Na Islândia, o material usado nas estradas foi impactado pelas temperaturas e se dirigir passou a ser perigoso, em algumas regiões.
Na vizinha Groenlândia, especialmente em áreas rurais e remotas, lidar com o calor é um grande desafio. Durante o calor extremo e as chuvas fortes de 2022, o derretimento do gelo fez com que ferro e outros metais chegassem a muitos lagos do Ártico, gerando preocupações quanto à qualidade da água e aos impactos ambientais.
Enquanto áreas urbanas possuem sistemas de esgoto encanado, cerca de 90% das residências rurais utilizam banheiros com sacos coletores descartados em áreas abertas. Com o calor, porém, aumentam também os riscos à saúde.
Na Groenlândia, o calor incomum provocou a fragmentação do gelo marinho, ameaçando comunidades que dependem dele para caça, pesca e deslocamento. Isso afetou a segurança alimentar, alterou as populações de peixes e gerou desafios econômicos.
Mosquitos no gelo
A transformação do clima é de tal dimensão que cientistas anunciaram, neste ano, a descoberta de três mosquitos na Islândia, marcando o que pode ser a primeira ocorrência desses insetos nas proximidades do Ártico.
A última vez que algo dessa natureza tinha sido identificado foi, há anos, em um avião no Aeroporto Internacional de Keflavík. Desta vez, os cientistas acreditam que se trata do primeiro registro de mosquitos ocorrendo no ambiente natural da Islândia.
A espécie encontrada – a Culiseta annulata – é nativa de uma vasta área do Hemisfério Oriental, estendendo-se do Norte da África ao norte da Sibéria. Não está claro como o mosquito chegou à Islândia, mas estuda-se a possibilidade de ter vindo em navios ou contêineres. O fato é que, mesmo num local inóspito, sobreviveram. Desde então, cientistas passaram a acompanhar com atenção e monitorar até que ponto isso será uma nova realidade.
Segurança nacional
Para além do impacto na vida cotidiana ou ambiental, as autoridades do país também adotaram uma decisão inédita no mundo. Desde o ano passado, a Islândia classifica as questões relacionadas ao clima como um risco à segurança nacional.
De acordo com as autoridades de Defesa da ilha, o governo e os serviços de inteligência consideram o possível colapso de um importante sistema de correntes do Oceano Atlântico uma preocupação de segurança nacional e uma “ameaça existencial”.
O colapso da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), na avaliação do país, transformaria a ilha de uma forma profunda. A corrente é a responsável por transportar águas quentes dos trópicos em direção ao norte e retorna águas frias para o sul, influenciando desde os padrões de monções na África até as temperaturas de inverno na Europa.
Um colapso romperia esse equilíbrio, mergulhando partes da Europa em frio extremo, intensificando secas no Sahel e desestabilizando ecossistemas marinhos.
Para o governo, portanto, esta não é mais apenas uma questão climática. É uma questão de segurança nacional e internacional. De fato, pesquisas recentes da Universidade de Copenhague, estimam que esse colapso poderia ocorrer em torno de 2057.
Ao mesmo tempo, vulcanólogos islandeses também estão monitorando o aumento do acúmulo de magma sob as geleiras, possivelmente ligado ao recuo do gelo causado pelas mudanças climáticas. O resultado, em caso de erupções, poderia ser a destruição de cidades inteiras.
Parte do esforço dos islandeses, porém, é para alertar ao mundo que toda essa transformação terá um impacto global e não serão apenas os 400 mil habitantes da ilha isolada que sofrerão.
Nesse sentido, uma comissão independente liderada pela ex-primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir está solicitando à Organização Mundial da Saúde (OMS) que declare as mudanças climáticas uma emergência de saúde pública global.
A comissão, composta por ex-chefes de governo, ministros e outros líderes internacionais, apresentou dezessete recomendações à OMS. Entre as propostas estão tratar as mudanças climáticas como uma ameaça crescente à segurança sanitária, transformar os sistemas de saúde, fortalecer a ação climática local e reformar os sistemas econômicos e financeiros que contribuem para a crise climática.
“As mudanças climáticas são uma ameaça à nossa segurança, à coesão social, aos direitos humanos e à saúde”, disse Jakobsdóttir. “Elas estão longe de ser apenas um problema para as gerações futuras. São uma ameaça real e imediata para nós, aqui e agora, na Europa. A ação climática não é apenas necessária; é um investimento rentável em uma sociedade mais justa e resiliente. Todos nós temos a responsabilidade política e moral de agir agora.”

Luto
Numa sociedade que já vive a transformação que bilhões de pessoas pelo mundo ainda consideram que apenas ocorrerá no futuro, o impacto é profundo e até espiritual.
Na Islândia, a população não tira férias para percorrer locais onde a natureza está presente. Ela vive na natureza. Por isso, expressões como “luto ecológico” aparecem nas conversas e nos estudos de comportamento. Trata-se, segundo os locais, de uma reação diante da relação umbilical entre a história individual de cada pessoa e o que a maioria das pessoas no resto do mundo considera apenas como paisagem.
Há uma espécie de reverência diante da natureza. Na Islândia, adultos e crianças conhecem os nomes de montanhas, vales e marcos geográficos. Há um orgulho e, também por conta da prosperidade dos últimos 50 anos, a ideia de que o país inteiro – e suas montanhas – pertencem a cada islandês.
Quase tudo é de acesso público e algumas das multas mais elevadas se referem a conduzir fora das estradas, causando potencialmente danos graves ao ecossistema. E, aonde quer que se vá, dificilmente existem vestígios de lixo ou de outras atividades humanas.
Não por acaso, o desaparecimento das geleiras também gera um impacto psicológico. A morte, portanto, de geleiras ou de cenários que fizeram parte da história de gerações passa a ser lamentada como a perda de um parente próximo.
Aos poucos, foram aparecendo os funerais de geleiras, cerimônias que oferecem uma maneira de canalizar o medo, a frustração e a tristeza. Alguns estudos ainda apontam como esses funerais podem ajudar a transformar a ansiedade climática em uma reflexão coletiva e converter o luto em ação, mensagens públicas e até mesmo esperança.
Em grande parte da sociedade ocidental secular, estudiosos apontaram que a capacidade de realizar cerimônias atrofiou. Ainda assim, o impacto na Islândia é de tal dimensão que os funerais começaram a atrair muita gente.
Um dos gestos mais marcantes ocorreu em agosto de 2019, quando cerca de cem pessoas subiram a encosta de uma montanha na Islândia para dar o último adeus a uma geleira. A Okjökull estava reduzida a uma mancha de gelo sem vida. Alguns anos antes, ambientalistas já a haviam declarado “morta”.
Naquela cerimônia, até autoridades Islândia fizeram discursos, moradores locais compartilharam histórias sobre beber a água do degelo e a multidão instalou uma placa de bronze para marcar seu fim.
Na lápide, a mensagem era dirigida às gerações futuras:
“Sabemos o que está acontecendo e o que precisa ser feito. Só vocês saberão se nós o fizemos”.






