Homens vão para as ruas usando os óculos inteligentes da Meta, abordam mulheres sem consultá-las, gravam a interação em primeira pessoa e depois publicam o resultado como pegadinha ou, pior, como tutorial de sedução. Por conta desse tipo de uso, o produto já ganhou um apelido que a empresa certamente não vai querer nos anúncios: óculos de pervertido.
A vantagem técnica que a Meta alardeia é justamente o que produz o abuso. Equipados com uma câmera que os outros ao redor não percebem, os óculos inteligentes tornam-se um problema quando essa descrição é usada para produzir registros não consensuais.
Diante da repercussão deste tipo de material, o Instagram prometeu remover vídeos que explorem ou assediem desconhecidos. Adam Mosseri, chefe da plataforma, disse que a empresa não aprova esse tipo de uso. O problema é que a promessa esbarra em suas próprias lacunas. A regra não define o que conta como assédio, não explica como vai funcionar a moderação e também não deixa claro se o mesmo cuidado também vale para gravações do mesmo formato feitas com celular comum. Como sempre, o problema não é a tecnologia em si e sim o seu uso.
Outro ponto que não ficou claro é se a pessoa filmada terá como pedir a retirada de vídeos em que apareça contra sua vontade. A Meta não afirmou que pretende desativar a câmera do óculos ao detectar adulteração no LED vermelho que sinaliza a gravação e punir contas ligadas a aparelhos que tentem manipular esse dispositivo.
No episódio desta semana do RESUMIDO comento a lógica do “ligado por padrão” das funcionalidades de IA que se espalham por diversos dispositivos e apps. A própria Meta recentemente incluiu milhões de perfis do Instagram numa ferramenta que essencialmente permitia criar deepfake de terceiros, sem avisar a ninguém. Voltaram atrás com a polêmica.
Moderar após o fato costuma ser tarde demais, pois o dano já aconteceu. Depois que a imagem da vítima começa a circular digitalmente, não tem como voltar atrás, é impossível conter todas as cópias geradas. O problema não é nem publicar, é anterior. Começa na decisão de construir um produto pensado para gravar de maneira quase incógnita.
Talvez ser visto com um aparelho apelidado de “óculos de pervertido” tenha mais efeito para conter o mau uso do que tentativas de controle da própria plataforma.





