Por Cleber Lourenço
Policiais militares teriam invadido a casa de militantes do PT, tomado camisetas de campanha e agredido uma das mulheres antes de utilizar as roupas para vestir três pessoas detidas em Piracicaba, no interior de São Paulo. A denúncia foi detalhada pela deputada estadual Professora Bebel (PT-SP), em entrevista divulgada nesta quinta-feira-feira (22), e reforçada por depoimentos das próprias militantes à imprensa local.
“O primeiro momento é a entrada arbitrária dos policiais na casa das militantes. Fizeram com que elas tirassem a camiseta”, afirmou Bebel, ao descrever a abordagem ocorrida na quarta-feira (21), na comunidade Vitória Pantanal, na região do Jardim Monte Líbano.
Segundo a parlamentar, uma das mulheres se recusou a retirar a roupa porque ficaria apenas de sutiã diante dos agentes. “Uma delas se negou a tirar porque ela disse: ‘Eu não vou ficar de sutiã na frente do senhor’. E por isso ela levou um chute”, relatou.
A deputada sustenta que os policiais recolheram as camisetas e, posteriormente, as colocaram em dois adultos e um adolescente de 17 anos abordados por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas.
“Saindo de lá, ele foi lá então cumprir a denúncia anônima com as camisetas. Vestiram nos meninos”, declarou.
Para Bebel, a sequência indica uma tentativa de fabricar uma associação entre os detidos e a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Isso foi forjado, foi montado e da pior forma”, afirmou.

Militantes relatam chute, ameaças e exigência de camisetas
As denúncias foram reforçadas por Marcela Souza Santos, de 33 anos, e Gessica Pereira Reis, de 29, em depoimentos concedidos a jornais da região e durante uma coletiva de imprensa realizada na quinta-feira (22).
As mulheres relataram que foram abordadas enquanto se preparavam para trabalhar na campanha de Lula. Segundo elas, os policiais passaram a questionar sua participação política e exigir as camisetas que vestiam.
Em um dos depoimentos à imprensa local, uma militante contou que os agentes inicialmente exigiram cinco peças.
“Ele falou assim: ‘Eu quero cinco blusas dessas que você está’. Aí a gente falou que não tinha as cinco blusas para dar para eles”, relatou.
Segundo as denunciantes, uma das mulheres retirou a camiseta porque usava outra roupa por baixo. A outra se recusou por estar apenas de sutiã.
Os policiais também teriam acompanhado uma das militantes até uma residência para buscar mais roupas de campanha. Os relatos apontam que três camisetas acabaram sendo recolhidas, embora haja diferenças quanto à quantidade inicialmente exigida pelos agentes.
As mulheres também denunciaram ofensas políticas e agressões físicas. Marcela afirmou que recebeu um chute na perna depois de ser questionada sobre seu trabalho para o PT.
“Ele olhou para minha cara e começou a rir, daí ele falou: trabalha para o PT. E chutou minha canela”, contou.
Outra militante relatou que um policial teria chamado o PT de “partido vagabundo” e Lula de “ladrão”.
As denúncias incluem ameaças de prisão caso as mulheres não obedecessem às ordens. Uma delas afirmou ter ouvido de um agente: “Se você não for para sua casa, a gente vai levar você presa”.
Em outro momento, quando questionado sobre a violência da abordagem, um policial teria respondido: “Pensa o que você quiser, a lei aqui somos nós”.
As militantes também relataram comentários de agentes sobre a eleição presidencial, incluindo uma referência a três pessoas que deixariam de votar no segundo turno.
As acusações de agressão, ameaça e retirada forçada das camisetas ainda dependem de comprovação pelas autoridades.
Detido também relatou ordem para vestir camiseta
A denúncia de que os policiais teriam colocado as camisetas nos suspeitos também aparece no depoimento de um dos homens presos, de 21 anos, prestado à Polícia Civil.
Ele afirmou que os agentes encontraram camisetas em um barraco da viela e determinaram que os três as vestissem.
A declaração coincide com a versão das militantes quanto à suposta imposição das roupas, mas apresenta uma diferença sobre sua origem: enquanto as mulheres afirmam que policiais recolheram camisetas delas e de uma residência, o detido situou as peças em um barraco.
A mãe do adolescente apreendido, Edna Souza Barbosa, também contesta que o filho estivesse usando roupa de campanha no momento da abordagem. Segundo ela, o jovem não participava de atividades eleitorais e teve uma camiseta colocada pelos policiais.
As imagens dos três detidos usando peças idênticas, com a inscrição “Professoras e professores da Apeoesp com Lula”, foram posteriormente divulgadas nas redes sociais pelo ex-secretário estadual de Segurança Pública Guilherme Derrite (PP-SP).
Ouvidoria pediu afastamento dos policiais
A Polícia Militar sustenta que recebeu uma denúncia pelo telefone 190 que já mencionava três pessoas usando camisetas alusivas a Lula, além de suspeitas de tráfico de drogas e da presença de uma arma.
A corporação informou ter apreendido 160 porções de cocaína, um revólver e R$ 340. Também afirmou que as acusações contra os agentes serão apuradas.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou nesta sexta-feira (23) que o Comando de Policiamento de Área 9 instaurou uma investigação preliminar sobre a ocorrência.
Na quinta-feira (22), a Ouvidoria da Polícia paulista solicitou à Corregedoria o afastamento imediato dos agentes envolvidos e identificados do serviço operacional até a conclusão das apurações.
Em nota assinada pelo ouvidor Mauro Caseri, o órgão apontou possíveis violações de direitos fundamentais, incluindo violência policial, abuso de autoridade, constrangimento ilegal e práticas que poderiam configurar tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante.
O PT também levou o episódio à Procuradoria-Geral Eleitoral, solicitando investigação sobre a produção e a divulgação das imagens.
Bebel afirmou que procurou pessoalmente a Ouvidoria e cobrou a apuração das denúncias.
“A gente quer que pare com isso, que o uso da polícia seja para proteção e segurança da população e não para fazer espetáculos diante de pessoas públicas”, declarou a deputada.
A investigação deverá esclarecer se os policiais entraram irregularmente na residência, se houve agressões contra as militantes, de onde vieram as camisetas e por que os três detidos apareceram usando roupas de campanha.




