A Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu uma investigação para apurar se o streamer GH Rell RJ cometeu homofobia contra o ator João Victor Gonçalves, conhecido por interpretar Mau Mau na novela Quem Ama Cuida. O episódio ocorreu na noite de sexta-feira (4), no entorno do Rock in Rio, e foi transmitido ao vivo pela plataforma Kick. As imagens mostram GH acompanhado de amigos seguindo o ator e fazendo comentários depreciativos sobre sua aparência e roupa.
Durante a transmissão, o grupo se aproxima de João Victor e, em tom de deboche, faz comentários sobre sua aparência. “Que é isso. Cara horroroso. Cara meteu um tomate”, dizem os participantes da live enquanto caminham muito próximos do ator. Em determinado momento, o grupo segue João Victor por alguns segundos em uma área aparentemente deserta. O ator, que não reage às provocações, acelera o passo e deixa o local.
Após o vídeo viralizar nas redes sociais, João Victor afirmou ter se sentido intimidado e classificou o episódio como homofobia. Segundo o ator, ele não sabia o que poderia acontecer diante da abordagem e do fato de estar sozinho diante de um grupo de quatro pessoas.
“Me senti acuado, senti ali uma violência. Não sabia o que poderia acontecer, qual era o próximo passo, né, que aqueles garotos poderiam dar ali comigo. Então, eu acelerei meu passo e estava com a cabeça focada em chegar no Rock in Rio”, relatou.
A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) decidiu investigar o caso mesmo sem um registro formal de ocorrência feito pelo ator. Segundo a Polícia Civil, não havia registro semelhante na delegacia responsável pela área, mas a corporação tomou conhecimento das imagens e instaurou investigação para apurar os fatos e identificar eventuais responsáveis.
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) também recebeu uma manifestação anônima sobre o episódio, que será analisada por um procurador de Justiça.
João Victor afirmou que a situação ultrapassou os limites de uma brincadeira e destacou que homofobia é crime. O ator também relacionou o episódio ao personagem Mau Mau, que vive na novela um processo de descoberta da própria sexualidade e enfrenta situações de homofobia dentro da família.
“Mau Mau é um personagem forte, valente, que encara essa homofobia estrutural que vive dentro de casa de uma forma muito corajosa. Ele engole e segue”, escreveu o ator nas redes sociais.
Streamer pede desculpas e acusa ator de racismo
Após a repercussão, GH publicou vídeos apresentando sua versão dos fatos. O streamer afirmou que o trecho divulgado nas redes sociais foi retirado do contexto de uma transmissão mais longa e disse que costuma abordar pessoas nas ruas como parte de seu conteúdo de entretenimento.
GH negou ter praticado homofobia, mas pediu desculpas caso sua conduta tenha sido interpretada dessa maneira. “Se eu errei, eu peço desculpas porque nós é ser humano e nós erra”, afirmou.
O streamer também acusou João Victor de racismo. A alegação foi baseada no relato do ator de que teve medo de ser assaltado durante a abordagem. GH questionou se o temor estaria relacionado à sua cor de pele.
Na transmissão original, contudo, não fica claro se o streamer e os amigos sabiam que João Victor era ator no momento da abordagem.
A defesa do ator rejeitou a acusação de racismo e afirmou que o receio relatado por João Victor foi uma reação de autoproteção diante das circunstâncias. Segundo os advogados, ele estava sozinho, diante de quatro pessoas, em uma área sem segurança aparente e sendo seguido por um grupo que fazia comentários depreciativos sobre sua roupa.
A defesa também sustentou que manifestações racistas feitas posteriormente por seguidores do ator contra GH não podem ser atribuídas a João Victor e não alteram a análise da abordagem registrada no vídeo.
Os advogados afirmaram ainda que o episódio deve ser analisado como uma possível forma de discriminação relacionada à expressão de gênero e à orientação sexual, mesmo sem a utilização explícita de termos homofóbicos durante a abordagem. Para a defesa, o deboche em relação à roupa usada pelo ator, associado ao fato de ela ter sido interpretada pelo grupo como “feminina”, caracteriza uma conduta discriminatória que foi posteriormente amplificada pela transmissão ao vivo.
O que dizem o Rock in Rio e a organização
O Rock in Rio afirmou que repudia qualquer forma de violência, assédio, discriminação ou preconceito. Segundo a organização, o episódio envolvendo João Victor ocorreu fora do perímetro de segurança coberto pelo festival, em uma área pública cuja segurança é responsabilidade dos órgãos competentes.
O festival informou ainda que mantém equipes e ações voltadas à prevenção e ao enfrentamento de casos de discriminação dentro da Cidade do Rock. Entre as iniciativas estão campanhas de conscientização, treinamento de funcionários e canais de acolhimento para vítimas ou testemunhas de situações envolvendo racismo, LGBTfobia, xenofobia, intolerância religiosa, capacitismo e outras formas de violência e preconceito.




