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Por que a pirraça não levou o Oscar?


Noite amarga de Oscar. O tapete vermelho, mais uma vez esticado sobre as ambições de uma indústria inteira, reluz. A liturgia é a mesma: sorrisos que valem milhões, discursos ensaiados e a celebração do império cultural que, mesmo em suposto declínio, ainda dita as regras do jogo. A estatueta dourada, aquele cavaleiro insosso, continua sendo o totem de uma fé inabalável no evangelho do Sonho Americano. Mas, neste ano da desgraça de 2026, o roteiro teve reviravoltas que nem o mais cínico dos roteiristas poderia prever, e a nossa tão sonhada pirraça no Tio Sam acabou em melancolia, com uma pitada de comédia de erros.

De um lado do ringue, a A24 e seu queridinho falastrão, Timothée Chalamet, com Marty Supreme, a fábula do jogador de ping-pong narcisista que encarnava a meritocracia em sua forma mais pura e tóxica, ainda bem que perdeu. Do outro, o épico de horror e resistência negra Sinners (Pecadores), de Ryan Coogler, com suas 16 indicações históricas, pronto para ser a redenção espetacularizada que Hollywood tanto adora, e assim o foi. E correndo por fora, com a teimosia de quem enfrenta tubarões com geladeira quebrada, nosso O Agente Secreto, a obra de Kleber Mendonça Filho, com quatro indicações que nos fizeram sonhar.

O sonho, contudo, durou pouco. A noite, que prometia ser um embate de titãs entre o individualismo hustle de Marty Supreme e a potência coletiva de Sinners, viu um terceiro combatente levar o prêmio máximo. One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson, um filme sobre família, identidade e resistência ao autoritarismo, inspirado na obra do recluso Thomas Pynchon, foi o grande vencedor, levando seis estatuetas, incluindo Melhor Filme e o tão esperado primeiro Oscar de Direção para PTA. Uma vitória da arte, diriam alguns. Uma vitória do tipo certo de arte, diria a Academia.

E o Brasil? O Brasil assistiu a tudo do lado de fora, com o nariz na vitrine da festa. O Agente Secreto saiu da cerimônia como entrou: de mãos vazias. As quatro indicações se converteram em quatro derrotas doloridas. Melhor Filme? Perdeu para PTA. Melhor Seleção de Elenco? Perdeu para o mesmo PTA, numa ironia cruel que viu nosso Wagner Moura, indicado a Melhor Ator, apresentar a categoria e anunciar a vitória do concorrente. Melhor Filme Internacional? A estatueta foi para a Noruega e seu cinzento Sentimental Value (Valor Sentimental). E a mais doída de todas, a que nos fez prender a respiração: Wagner Moura, imenso em sua interpretação, foi superado por Michael B. Jordan, que levou o prêmio por Sinners.

Então, por que a “Perna Cabeluda” encontrada no tubarão, o símbolo máximo do nosso realismo fantástico involuntário (e autoritário) não conseguiu pirraçar o Tio Sam? A resposta, melancólica e um tanto cômica, está na própria dramaturgia da noite. A Academia, em sua infinita sabedoria de mercado, não apenas ignorou o Brasil, ela orquestrou uma narrativa onde até a derrota se tornou um espetáculo à parte. Não bastava perder, era preciso perder com requintes de crueldade hollywoodiana.

O Tio Sam não foi provocado porque ele estava ocupado demais aplaudindo a si mesmo de pé. A vitória de One Battle After Another, um filme americano até a medula, dirigido por um dos filhos pródigos da indústria, serviu para reafirmar a crença de que as grandes histórias, mesmo as de resistência, são contadas de dentro para dentro. Paul Thomas Anderson, ao receber o prêmio de Melhor Filme, chegou a citar a safra de 1975 – Um Dia de Cão, Um Estranho no Ninho, Tubarão, Nashville, Barry Lyndon – para dizer que “não há melhor entre eles”. Um gesto de humildade que, na prática, reforça o panteão do qual O Agente Secreto nunca fez parte.

Enquanto isso, Sinners, o gigante de 16 indicações, cumpriu seu papel de forma exemplar. Levou quatro prêmios importantes, incluindo Melhor Ator e Roteiro Original, garantindo a foto da diversidade na capa dos jornais, mas sem ameaçar o prêmio principal. Hollywood, mais uma vez, mostrou sua genialidade em transformar a contestação em commodity, a dor em entretenimento e a revolução em uma franquia lucrativa. A cultura negra foi celebrada, desde que dentro dos limites do espetáculo.

A derrota mais emblemática, talvez, tenha sido a de Marty Supreme. O filme que era a cara do sonho americano individualista, com suas nove indicações, saiu da festa sem um único troféu. Um sinal dos tempos? Uma crítica ao narcisismo da hustle culture? Talvez. Ou talvez a Academia apenas tenha encontrado um individualista mais charmoso para premiar: o próprio Paul Thomas Anderson, o autor que finalmente recebeu sua consagração.

E a nossa Perna Cabeluda? Permanece onde sempre esteve: no estômago do tubarão, dentro de uma geladeira quebrada no Recife, servindo como a metáfora crua da nossa cadeira vazia no banquete global. A questão não é que sejamos “exóticos” ou “complexos demais”. O problema é que nossa brasilidade, que não se encaixa em suas fórmulas narrativas, é tratada como um defeito a ser ignorado, não uma virtude a ser explorada. Nossa ciência de resiliência e improviso, nossa política que é um thriller de absurdos – como se a deles fosse um primor de estabilidade – e nossa memória que é um campo de batalha permanente, tudo isso compõe um idioma que a Academia não apenas falha em compreender, mas se recusa ativamente a aprender. Ora, não se trata de uma dificuldade em ler legendas, trata-se de uma escolha deliberada de fechar os olhos para qualquer mundo que não seja o reflexo de seu próprio umbigo. Convenhamos, os filmes vencedores não são, nem de longe, melhores que O Agente Secreto. Todos se perdem na chatice sem fim da mesma fórmula decadente da cinematografia embromation daquelas colinas.

Não houve pirraça porque a festa não era nossa. Fomos convidados para o camarote, para apresentar uma categoria e aplaudir os vencedores. A noite de 2026 não foi sobre a derrota de um filme brasileiro. Foi sobre a reafirmação de um império que, mesmo diante de vampiros do Mississippi e jogadores de ping-pong, sempre encontra uma maneira de premiar a si mesmo ou algum nórdico mala. A melancolia fica, mas o humor também. Afinal, ver o queridinho Chalamet sair de mãos abanando tem sua graça. E saber que nossa história – com suas pernas cabeludas, Sebastianas, frevos, professores e maracatus –  dá um filme muito mais interessante que os chatíssimos premiados, é a nossa pequena e teimosa vitória. Que venha o próximo tubarão, mas o do Spielberg não. Senti? Muito. E que brasileiro-pernambucano não?





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