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Quando o Groove Vira Manifesto: Fela Kuti, Afrobeat e a Ressonância Brasileira de BNegão e Seletores de Frequência

No calor de Lagos, anos 70, um grito musical ecoou além das fronteiras da Nigéria. Fela Kuti, com seu saxofone e sua ira sagrada, forjou o Afrobeat — uma fusão explosiva de ritmos ancestrais, jazz e funk, carregada de denúncia política. Quase meio século depois, nas vielas do Rio de Janeiro, BNegão e os Seletores de Frequência ressignificam esse legado, transformando-o em arma de resistência local. Esta é a história de como um mesmo pulso rítmico atravessa oceanos e décadas, conectando insurgências.

Parte 1: A Gênese do Fogo — Fela e a Criação do Afrobeat

Fela Aníkúlápó Kútì (1938-1997) não inventou apenas um gênero musical; criou um território de rebelião. Filho da feminista Funmilayo Ransome-Kuti — que liderou motins anticoloniais —, ele estudou música em Londres, mas foi em Los Angeles, em 1969, que sua revolução começou. Influenciado pelos Panteras Negras e pela militância de Sandra Izsadore, Fela fundiu highlife nigeriano, jazz, e o funk visceral de James Brown em algo inédito: o Afrobeat217.

Caracterizado por:

  • Polirritmos complexos: A bateria de Tony Allen (seu parceiro criativo) tecia até cinco ritmos simultâneos, baseados em padrões yorubá16.

  • Letras incendiárias: Músicas como “Zombie” (1977) comparavam o exército nigeriano a cadáveres sem mente, levando a um ataque brutal ao seu comunal, o Kalakuta Republic, onde sua mãe foi assassinada35.

  • Performances ritualísticas: Shows no Afrika Shrine podiam durar horas, com danças das “Queens” e discursos contra a opressão neocolonial110.

“Música é a arma do futuro” — Fela transformou esse lema em prática, usando o palco como trincheira.

Parte 2: O Atlântico Negro Ressoa — BNegão e os Seletores no Brasil

Se o Afrobeat é um rio, seu curso natural deságua na diáspora africana. No Brasil, BNegão emergiu nos anos 90 com o Planet Hemp, fundindo rap e rock. Mas foi com os Seletores de Frequência, a partir de 2006, que ele abraçou o legado de Fela, adaptando-o às periferias cariocas.

Pontos de convergência:

  • Releitura do groove: Os Seletores mantêm a base polirrítmica (agogô, surdos, guitarra cortante), mas injetam dub jamaicano, samba de roda e maracatu15. Músicas como “Luz Negra” (2018) têm a mesma duração épica das de Fela (10+ minutos), construindo climas hipnóticos.

  • Denúncia social: Se Fela atacava generais, BNegão canta sobre violência policial (“O futuro não demora / Na favela o tempo é agora“), corrupção e genocídio negro — ecoando a lógica de “canção-comício” do nigeriano.

  • Coletividade: Assim como as “Afrobeat Queens” de Fela eram pilares artísticos e políticos1, os Seletores operam como unidade, com vocalistas femininas (como Dina Alves) reforçando o diálogo de gênero.


Tabela Comparativa: A Anatomia da Resistência Sonora

ElementoFela Kuti & Afrika 70BNegão & Seletores de Frequência
Base RítmicaPolirritmos de Tony Allen (batéria yorubá + funk)Groove com tambores sagrados + dub/samba
EstruturaFaixas longas (15-30 min), solos de sax extensosCanções épicas, crescimentos instrumentais
Temas LyricaisDitadura militar, colonialismo, pan-africanismoFavela, racismo, violência de Estado
Manifesto CênicoDanças das Queens, discursos no palcoShows em ocupações, saraus periféricos
Resposta Estatal200+ prisões, Kalakuta destruído (1977)Censura velada, marginalização midiática

Parte 3: Comunidades de Resistência — Do Kalakuta às Favelas

Fela não só fez música: criou um espaço autônomo. O Kalakuta Republic (1970) era uma comuna, estúdio e território livre, declarado independente da Nigéria. Sua destruição em 1977 — com Fela espancado e sua mãe lançada de uma janela — revelou o pavor do Estado ante a arte insurgente35.

No Rio, BNegão e os Seletores atuam em espaços semelhantes:

  • Ocupações culturais (e.g., Ocupa Escola), onde o Afrobeat vira ferramenta educativa.

  • Saraus em favelas, reencenando o “call and response” dos shows de Fela — a plateia responde aos refrões como um corpo político.

  • Letras como “Conexão Já” (“A periferia quer voz, não esmola / Quer respeito, não polícia violenta”) atualizam o grito de “Sorrow Tears and Blood” (1977), de Fela: “África não quer misericórdia / África quer liberdade!“.


Conclusão: O Futuro do Groove é Coletivo

Fela morreu em 1997, vítima da AIDS, mas seu ethos sobrevive: a música como arma de transformação massiva. BNegão e os Seletores de Frequência não são “imitadores”; são herdeiros que traduzem a chama do Afrobeat para o português rachado das quebradas. Em tempos de opressão renovada — seja por governos autoritários, seja pela necropolítica nas favelas —, ambos provam: o ritmo não é escape. É mapa, bússola e machado para abrir caminhos.

Whose coffin are you willing to carry? (Fela Kuti, 1981). A pergunta ecoa, de Lagos ao Rio. Resta-nos dançar — e carregar a resposta na batida dos tambores.


Fontes Consultadas:

  • Dissertação sobre as “Afrobeat Queens” (UT Austin)

  • Documentário Finding Fela (Gibney, 2014).

  • Verbete biográfico (Wikipedia/Britannica).

  • Análise musical comparativa (Edge of the Line).

  • Contexto histórico do Afrobeat (BBC/KCRW).

  • Discografia crítica de BNegão e artigos sobre cultura periférica (fontes externas).

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