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RENAN 10%… O ECLIPSE DA DIREITA POPULISTA E O FATOR CORINGA

Como Renan Santos começa a ocupar o vazio produzido pela crise do bolsonarismo e arrogância da esquerda anti-comuniação digital.

Por Rafael Medeiros | TREZZE Comunicação Integrada

Em maio deste ano publiquei um artigo sustentando uma hipótese que, naquele momento, parecia exagerada para muitos observadores da política brasileira: a de que Renan Santos não deveria ser analisado como um candidato periférico, mas como a manifestação inicial de um processo de reorganização da direita brasileira no pós-bolsonarismo.

Naquele texto argumentei que o verdadeiro fenômeno não era Renan Santos em si.

O fenômeno era o vazio.

O vazio produzido pela crise interna do bolsonarismo.

O vazio produzido pela fadiga da polarização.

O vazio produzido pelo desgaste de um modelo de comunicação que, paradoxalmente, revolucionou a política brasileira em 2018, mas hoje já apresenta claros sinais de esgotamento.

Dois meses depois, os números começam a sugerir que aquela hipótese merece ser levada mais a sério.

Pesquisas recentes passaram a registrar Renan Santos alcançando aproximadamente 10% das intenções de voto em alguns cenários, sobretudo no maior colégio eleitoral do país, um crescimento significativo em relação aos levantamentos anteriores, quando aparecia entre 2% e 4%.

Para um candidato sem tempo tradicional de televisão, sem máquina partidária comparável aos grandes partidos e sem presença institucional consolidada, esse desempenho dificilmente pode ser tratado apenas como uma curiosidade estatística.

Talvez estejamos diante do primeiro sintoma de uma mudança estrutural.

A DIREITA ESTÁ PERDENDO O MONOPÓLIO DO ANTISSISTEMA

Existe uma contradição que poucos analistas parecem perceber.

O bolsonarismo chegou ao poder apresentando-se como uma força antissistema.

O problema é que movimentos antissistema deixam de sê-lo quando passam a integrar o próprio sistema que combatiam.

Após anos ocupando parte expressiva das instituições, controlando governos estaduais, bancadas parlamentares e estruturas partidárias, o bolsonarismo enfrenta uma dificuldade típica de todos os movimentos populistas: convencer o eleitor de que continua sendo insurgente enquanto já faz parte do establishment político.

É justamente nesse espaço que Renan Santos tenta operar.

Seu discurso não é construído contra a esquerda apenas.

Ele também disputa diretamente o eleitor decepcionado com o bolsonarismo.

Não é coincidência que boa parte do seu crescimento ocorra justamente entre jovens e segmentos altamente conectados às redes sociais.

A INTERNET CONTINUA SENDO O CAMPO DE BATALHA QUE A ESQUERDA SUBESTIMA

Talvez a maior ironia deste processo seja observar quem mais ajuda Renan Santos.

Não necessariamente seus apoiadores.

Mas seus adversários.

Grande parte da esquerda continua tratando a internet como um espaço secundário da disputa política.

Quando reage ao MBL, frequentemente o faz reproduzindo exatamente aquilo que o algoritmo recompensa:

indignação;

debates intermináveis;

cortes virais;

compartilhamentos emocionais;

engajamento negativo.

Nas plataformas digitais, pouco importa se o sentimento é favorável ou contrário.

O algoritmo mede atenção.

E atenção converte-se em distribuição.

Enquanto parte da esquerda acredita estar “desmascarando” Renan Santos, frequentemente contribui para ampliar seu alcance orgânico.

É uma contradição semelhante àquela observada durante a ascensão de Jair Bolsonaro.

Quanto mais era atacado nas redes, maior se tornava sua presença digital.

Não porque os ataques convencessem o eleitor.

Mas porque ampliavam sua circulação algorítmica.

A POLÍTICA DOS MEMES SUBSTITUIU A POLÍTICA DOS PROGRAMAS

As campanhas tradicionais continuam organizadas para disputar televisão.

Renan Santos disputa TikTok.

Enquanto marqueteiros ainda planejam peças de trinta segundos para o horário eleitoral, ele produz dezenas de cortes diários desenhados para circular organicamente.

Debates deixam de ser apenas confrontos de propostas.

Transformam-se em fábricas de memes.

Cada resposta é pensada como um possível vídeo de quinze segundos.

Cada confronto pode virar centenas de milhões de visualizações.

Essa lógica altera completamente a engenharia eleitoral.

Quem domina o corte, domina a repercussão.

Quem domina a repercussão, ocupa a agenda.

Quem ocupa a agenda passa a definir sobre o que todos falarão.

O DILEMA DO PL

O crescimento de Renan Santos cria um problema estratégico para o bolsonarismo.

Mesmo que seus percentuais ainda estejam distantes dos principais candidatos, ele passa a disputar exatamente um eleitorado que, até pouco tempo atrás, pertencia quase exclusivamente ao campo bolsonarista.

O eleitor jovem.

O eleitor masculino hiperconectado.

O eleitor que rejeita partidos tradicionais.

O eleitor que busca uma identidade política construída pela linguagem das redes.

Se essa tendência se consolidar, o PL enfrentará um dilema.

Atacar Renan significa dar ainda mais visibilidade a um adversário que cresce justamente pela exposição digital.

Ignorá-lo pode permitir que ele continue ocupando um espaço estratégico sem resistência.

Nenhuma das duas alternativas é confortável.

O PROBLEMA TAMBÉM É DE LULA

A análise costuma concentrar-se apenas na direita.

Talvez esse seja outro erro.

Porque Renan Santos representa também um desafio para a esquerda.

A campanha de Lula, até aqui, aposta majoritariamente na estabilidade, na institucionalidade e na previsibilidade.

É uma estratégia compreensível para quem lidera pesquisas nacionais.

Mas campanhas excessivamente institucionais enfrentam dificuldades para disputar atenção num ambiente em que emoção, humor, conflito e linguagem nativa das plataformas produzem muito mais alcance do que discursos convencionais.

Se a eleição continuar migrando para a lógica dos algoritmos, possuir maior estrutura partidária poderá deixar de ser a principal vantagem competitiva.

O RENAN SANTOS IMPORTA MENOS DO QUE O FENÔMENO QUE REPRESENTA

Talvez a principal conclusão não seja que Renan Santos vencerá a eleição.

É cedo para qualquer afirmação dessa natureza.

A questão realmente relevante é outra.

Sua trajetória começa a demonstrar que existe demanda política para uma nova direita digital, menos vinculada ao legado de Jair Bolsonaro e mais adaptada à cultura das plataformas.

Se essa hipótese estiver correta, o bolsonarismo pode estar deixando de ser o destino final da direita brasileira para tornar-se apenas uma etapa histórica.

O “fator Renan” deixa, então, de ser apenas uma candidatura.

Passa a ser um laboratório.

Um laboratório que testa como será organizada a próxima geração da direita brasileira.

Ignorar esse processo por preconceito ideológico ou por subestimar a política digital pode produzir o mesmo erro analítico cometido por boa parte da elite política em 2018.

Naquele momento, muitos riram dos memes.

Meses depois, os memes haviam conquistado o Palácio do Planalto.

A história não se repete mecanicamente.

Mas costuma punir aqueles que insistem em disputar a próxima eleição utilizando as ferramentas da anterior.

Por Rafael Medeiros | TREZZE Comunicação Integrada.

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