Por Ingrid Farias*
O progressismo global enfrenta uma contradição: os espaços onde se debate o futuro das democracias reproduzem as mesmas estruturas que dizem querer transformar. Em Barcelona, em abril, essa contradição estava na sala.
Nos dias 17 e 18 de abril, Barcelona sediou o Global Progressive Mobilisation (GPM) – encontro que reuniu lideranças progressistas globais para coordenar respostas à crise democrática no mundo. A presença conjunta de Claudia Sheinbaum (México), Gabriel Boric (Chile), Lula (Brasil), Gustavo Petro (Colômbia) e Mia Mottley (Barbados), somada a outros nomes do Sul Global como Cyril Ramaphosa (África do Sul), Naana Jane Opoku-Agyemang (Gana) e Ndaba Gaolathe (Botsuana), construiu a imagem que a região há muito aguardava: a de um bloco com voz própria, capaz de afirmar soberania e não apenas reagir às crises que outros provocam.
Essa articulação, mobilizada por Pedro Sánchez, presidente do governo da Espanha, e conectada a movimentos progressistas de outras regiões, sinaliza uma inflexão relevante: o Sul Global ocupa um papel propositivo na reconfiguração da ordem democrática global.
E, ainda assim, os painéis seguiram majoritariamente ocupados por pessoas não negras, não indígenas, pouco jovens e com baixa presença LGBTQIA+. O Sul Global estava representado nos rostos dos presidentes, mas não nas cadeiras dos painéis. O futuro continuava sendo imaginado pelas mesmas pessoas de sempre.
O que essa contradição revela não é um problema de Barcelona, mas uma crise de legitimidade dos modelos disponíveis de democracia. As pesquisas apontam que a população segue cultivando o desejo de justiça social, de pertencimento e de futuro — o que denuncia que as instituições não entregam o que prometem. Esse descontentamento não foi criado pela extrema direita: já existia, vivo, disputado nos territórios. A extrema direita apenas capturou essa insatisfação e a transformou em projeto de poder autoritário e populista. Enfrentar isso exige que o progressismo entenda por que parte da população
prefere essa narrativa — e o que ele próprio tem deixado de entregar.
Agrava esse quadro um equívoco recorrente: reduzir a política ao calendário eleitoral, concentrando energias na disputa do voto e perdendo de vista a construção cotidiana de poder popular. O voto importa, e muito. Mas quando a aposta é exclusivamente eleitoral, as forças progressistas se tornam vulneráveis a cada ciclo, incapazes de produzir transformações que resistam ao tempo. Quando o projeto político se concentra em lideranças únicas, que passam a condensar em si a esperança coletiva sem assumir compromisso real com a renovação, o movimento se fragiliza toda vez que essa figura deixa de estar disponível.
A ideia de “democracia canibal”, elaborada por Zita Nunes, nomeia bem esse padrão: uma democracia que ingere os corpos e os sonhos da população negra, indígena, quilombola, das mulheres e de todos os corpos dissidentes, mas não os transforma em força política real. Celebra a diversidade no discurso e a nega na prática do poder.
O Sul Global paga guerras que não provocou, arca com crises climáticas que não criou e sustenta ordens econômicas que o empobrecem. E, ainda assim, imagina com generosidade, propõe futuros em que diferentes grupos possam existir com dignidade, produz pensamento que vai além da sobrevivência imediata para alcançar o bem viver coletivo. Essa generosidade precisa encontrar correspondência na arquitetura dos próprios espaços progressistas. O conceito de bem viver, desenvolvido e praticado por povos indígenas e pela população negra na América Latina e no Caribe, não é metáfora: é orientação política concreta, capaz de recolocar no centro o direito à água, ao trabalho, à rua iluminada e à escola pública. Uma democracia que não se conecta com essas dimensões falha na vida concreta das pessoas.
A Marcha das Mulheres Negras, realizada em 2025 com mais de um milhão de mulheres mobilizadas, foi, ela mesma, uma grande mobilização progressista global — organizada por mulheres negras em todas as regiões do Brasil e em mais de 25 países, produzindo/imaginações coletivas, compromissos de futuro e a concretização de um multilateralismofeminista como resposta ao colapso das estruturas multilaterais tradicionais.
Como ensina Ailton Krenak, a ancestralidade não é nostalgia, é criação poética do futuro. Mulheres negras e povos indígenas oferecem há muito tempo essa agenda como visão de mundo para todos. Essa mobilização, no entanto, não estava representada em Barcelona. E essa ausência é precisamente o problema.
Barcelona mostrou que a vontade de construir uma frente progressista global existe. Mostrou também que essa frente ainda não está pronta para ser ocupada por todos os que precisam disputá-la. A crise democrática debatida ali não se resolve sem romper com as velhas práticas de invisibilização das comunidades negras, indígenas e LGBTQIA+ de suas agendas de futuro.
Não é possível construir uma mobilização verdadeiramente progressista com apenas uma parte do mundo autorizada a imaginar. Uma democracia que não teme o futuro é aquela que, a cada ciclo, produz transformações tão enraizadas na vida das pessoas que não seja possível desmontá-las. Esse futuro pertence a todas as vozes — e o progressismo global ainda precisa aprender a ouvi-las.
* Ingrid Farias é diretora programática do Instituto Update






