A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que o governo local trabalha em uma alternativa caseira para viabilizar o aumento de capital do Banco de Brasília (BRB) e evitar um possível desenquadramento do banco junto ao Banco Central.
A estratégia envolve o uso, como garantia financeira, do fluxo estimado em R$ 9 bilhões das carteiras de crédito do Credcesta adquiridas do Banco Master. Segundo Celina, os valores estão atualmente sob controle do liquidante da instituição financeira ligada ao empresário Daniel Vorcaro após a liquidação do banco pelo Banco Central.
“O fluxo do Credcesta é do banco. Está com o liquidante e deveria estar com o BRB”, afirmou a governadora. De acordo com ela, o governo do DF já acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reaver os recursos.

A estratégia ocorre depois da negativa do governo federal de usar recursos da União para salvar o banco regional.
Em abril passado, a governadora se reuniu com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para buscar uma solução para a instituição, que tem no governo do DF o principal acionista.
Pressão do BC acelera busca por capitalização
O BRB enfrenta uma corrida contra o tempo para concluir, até 29 de maio, uma operação de capitalização estimada em R$ 8,8 bilhões. O aporte é considerado essencial para atender exigências regulatórias do Banco Central e evitar medidas mais severas, como intervenção ou liquidação extrajudicial.
A crise foi agravada por perdas associadas à aquisição de carteiras de crédito e ativos sem lastro provenientes do Banco Master. Para obter o empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a um consórcio de grandes bancos, o governo do DF buscava uma garantia da União baseada nos repasses do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF).
No entanto, segundo Celina, o Palácio do Planalto não demonstrou disposição para abrir exceção fiscal que permitisse a operação. A governadora revelou que tentou interlocução com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), inclusive com apoio de lideranças do Congresso, mas sem sucesso.
“A gente está indo por outro caminho. Temos uma segunda via sem ajuda do governo federal”, declarou.
Governo tenta afastar temor sobre liquidez
Apesar da pressão regulatória, Celina afirmou que o problema imediato de liquidez do BRB foi parcialmente contornado após acordo para transferência de ativos ligados ao Master para um fundo administrado pela Quadra Capital.
Segundo ela, o banco já recebeu cerca de R$ 1 bilhão da operação e espera outros R$ 3 bilhões até o fim do mês. O Banco Central acompanha diariamente a situação de caixa da instituição diante do risco de descasamento financeiro.
“A falta de liquidez foi resolvida”, disse a governadora, tentando transmitir segurança ao mercado e aos correntistas.
Ainda assim, o BRB segue sob pressão. O banco não publicou seu balanço dentro do prazo legal e acumula multas diárias pelo atraso.
Celina atribui crise fiscal à gestão Ibaneis
Em meio à deterioração financeira do DF e do BRB, Celina Leão também ampliou o tom das críticas ao ex-governador Ibaneis Rocha (MDB), de quem foi vice e hoje adversária política.
Segundo ela, a atual administração herdou um cenário de descontrole orçamentário, com despesas sem previsão financeira que se aproximariam de R$ 5 bilhões.
“Houve gasto acima do Orçamento. Foi preciso cortar contratos, reduzir despesas e reorganizar a máquina pública”, afirmou.
A governadora também procurou se desvincular das decisões econômicas da gestão anterior, ressaltando que, como vice-governadora, não tinha poder de ordenar despesas.
Privatização descartada
Apesar da crise, Celina afirmou que o governo não trabalha com a hipótese de privatização do BRB. Segundo ela, o objetivo é recuperar o perfil regional da instituição após o desgaste provocado pela relação com o Banco Master.
“Apesar da gravidade da situação, o banco tem condições de voltar à sua vocação de banco regional”, afirmou.
O próprio BRB informou, em nota, que as carteiras do Credcesta foram regularmente adquiridas junto ao Master e que os fluxos financeiros permanecem vinculados ao banco, ainda que temporariamente administrados pelo liquidante judicial.
A governadora também comentou especulações envolvendo uma possível delação premiada do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. “Não existe um áudio, uma mensagem ou qualquer conversa minha sobre o Master”, declarou.






