Conheci certa feita um devoto de São Longuinho, daqueles de fazer promessas para achar qualquer coisa, que ficou decepcionado ao descobrir que o santo existia. Entendo perfeitamente. Eu também acho bonito acreditar com convicção apenas nas coisas inventadas.
Gosto de definir o cristianismo popular brasileiro como um “cristianismo do dendê e da mandioca”. Ele mora nas encruzilhadas luso-mouro-ciganas- afro-ameríndias, temperando a nossa maneira de viver o arrebatamento do mistério. Sendo assim, é evidente que sou devoto de São Longuinho.
A tradição ensina que São Longuinho foi um soldado romano presente na cena da crucificação de Cristo. Algumas versões indicam que teria sido ele o centurião que perfurou o Nazareno com uma lança. O sangue de Cristo respingou nos olhos do centurião, que naquele momento foi tocado pela graça e se converteu. O centurião passou a ser conhecido como Longinus – latinização do grego lonke; lança.
Por ter aderido ao cristianismo e renegado os deuses de Roma, Longinus foi martirizado. Sob tortura, teve os dentes e língua arrancados e foi decapitado em Jerusalém.
São Longinus foi canonizado pelo Papa Silvestre II, no ano de 999. A documentação do processo se perdeu. O Papa teria rogado ao próprio santo para que os documentos fossem encontrados; o que acabou ocorrendo. Viria daí a fama que o homem tem de atender aos pedidos para achar coisas perdidas.
Na cultura popular, Longinus (muito venerado na Espanha) virou mesmo Longuinho, ou Lancinha, que eu acho extremamente simpático. Parece nome de erê de Ogum ou Oxóssi.
É tradicional o hábito de se fazer uma promessa ao santo para se encontrar o que foi perdido. A promessa deve ser feita mediante os dizeres: São Longuinho, São Longuinho, se eu achar o que está perdido, dou três pulinhos. (Minha avó dizia que, por ser manco, o santo andava dando pequenos saltos.)
São Longuinho, comigo, não costuma vacilar, mas agora está enrascado. Recentemente ando tentando encontrar algo que está escondido em algum canto: o Brasil. Não esse país boçal, intolerante, fanatizado, violento, raivoso. Falo de um Brasil includente, plural, insinuante, temperado nas ousadias brincantes de um povo de luta e festa.
Me ajuda, São Longuinho, porque tá dificil.





