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A ESQUERDA CIRANDEIRA E A ARMADILHA DA VITÓRIA: O CAPITALISMO NÃO DESCANSA ENQUANTO O PROGRESSISMO COMEMORA

Da espionagem americana contra Dilma à ascensão do bolsonarismo e à reeleição de Lula em 2026, uma análise marxista questiona os limites da esquerda festiva, da conciliação de classes e do marketing eleitoral que mobiliza milhões, mas nem sempre constrói organização política permanente.

ANÁLISE POLÍTICA | 1º DE NOVEMBRO DE 2026

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026, abriu um novo capítulo da disputa política brasileira. Com 51,79% dos votos válidos, o presidente assegurou seu quarto mandato, enquanto Flávio Bolsonaro conquistou 48,21%. O resultado confirmou a força eleitoral de Lula, mas também revelou a dimensão da base conservadora que permanece organizada no país.

É nesse cenário que surge uma contradição histórica no interior do campo progressista: a tendência de transformar vitórias eleitorais em momentos de celebração, sem que a mesma intensidade de mobilização seja necessariamente convertida em capacidade de organização, pressão popular e transformação estrutural.

A crítica à chamada esquerda cirandeira não precisa ser entendida como uma condenação ao samba, aos saraus, às manifestações culturais ou à alegria popular. Essas expressões também fazem parte da história das resistências brasileiras. O problema político aparece quando a celebração substitui a formação, quando a identidade se sobrepõe à análise de classe e quando a vitória de um candidato passa a ser confundida com a derrota das estruturas econômicas que sustentam as desigualdades.

O capitalismo não deixa de operar porque uma eleição terminou. Bancos, grandes empresas, proprietários de terra, conglomerados de comunicação e interesses econômicos internacionais continuam disputando políticas públicas, orçamento, legislação e os rumos do Estado.

A urna altera a correlação institucional de forças. Não elimina, por si só, as relações de propriedade e poder.

DA ESPIONAGEM CONTRA DILMA AO IMPEACHMENT: AS CONTRADIÇÕES DO PROGRESSISMO INTERNACIONAL

Em 2013, documentos revelados por Edward Snowden e divulgados pela imprensa expuseram operações de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a NSA, contra alvos brasileiros, incluindo a então presidente Dilma Rousseff e a Petrobras.

O episódio ocorreu durante o governo de Barack Obama e provocou uma crise diplomática. O Brasil cobrou explicações e medidas para proteger sua soberania e seus interesses econômicos.

Três anos depois, em 31 de agosto de 2016, Dilma perdeu o mandato em um processo de impeachment aprovado pelo Senado por 61 votos a 20. O afastamento permanece objeto de interpretações políticas divergentes, incluindo sua caracterização como ruptura da legitimidade democrática por setores da esquerda.

Não há, entretanto, comprovação nos documentos citados de que a espionagem americana tenha dirigido ou causado o impeachment. A distinção é fundamental para uma crítica histórica consistente.

Sob uma perspectiva marxista, o encadeamento desses acontecimentos permite discutir a relação entre soberania nacional, interesses estratégicos, disputas institucionais e poder econômico internacional.

A contradição ganha uma dimensão adicional em 2024, quando Barack e Michelle Obama apoiaram a candidatura de Kamala Harris à Presidência dos Estados Unidos.

Apoiar uma candidatura democrata contra a direita republicana não equivale necessariamente a aderir ao socialismo. A tradição liberal do Partido Democrata e sua atuação dentro da economia capitalista exigem uma diferenciação entre alianças eleitorais circunstanciais e projetos de transformação das relações de produção.

A crítica marxista, nesse caso, não depende de negar as diferenças entre democratas e republicanos. Ela consiste em questionar os limites de uma identificação política internacional que, por vezes, privilegia símbolos de representação e discursos progressistas sem examinar suficientemente as políticas econômicas, militares e geopolíticas de seus governos.

2018: O ELE NÃO E OS LIMITES DA MOBILIZAÇÃO ELEITORAL

Em 2018, o movimento Ele Não levou às ruas manifestações contra a candidatura de Jair Bolsonaro, com forte protagonismo feminino.

As mobilizações representaram uma expressão relevante de participação política, mas não impediram a vitória eleitoral do candidato, que recebeu 55,13% dos votos válidos no segundo turno.

Seria historicamente inadequado responsabilizar aquelas manifestações pela eleição de Bolsonaro sem demonstrar uma relação causal. A vitória resultou de um conjunto complexo de fatores políticos, econômicos, institucionais e comunicacionais.

A reflexão que permanece é outra: por que a capacidade de reunir multidões em torno de um protesto nem sempre se converte em organização permanente, presença territorial e influência política duradoura?

Na tradição marxista, a força de uma mobilização não se mede exclusivamente pelo número de participantes, pela repercussão nas redes sociais ou pela capacidade de ocupar as ruas em determinada ocasião.

Também importa sua relação com sindicatos, organizações populares, espaços de formação política e estruturas coletivas capazes de sustentar reivindicações para além dos ciclos eleitorais.

2022: A VITÓRIA DE LULA E O DEBATE SOBRE A CONCILIAÇÃO DE CLASSES

Quatro anos depois, Lula derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022, conquistando 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% do adversário.

A vitória representou uma mudança na direção do governo federal. Entretanto, as instituições econômicas, a estrutura de propriedade, o Congresso Nacional, as relações entre capital e trabalho e os mecanismos de influência empresarial continuaram compondo o terreno de disputa política.

Para uma análise marxista, é necessário distinguir três dimensões frequentemente confundidas no debate público: vitória eleitoral, conquista de governo e transformação do poder econômico.

A primeira corresponde ao resultado das urnas. A segunda envolve a capacidade de administrar o Executivo e construir maiorias institucionais. A terceira diz respeito à alteração das relações materiais que sustentam a desigualdade e a concentração de riqueza.

Essas dimensões podem se relacionar, mas não são equivalentes.

A crítica à conciliação de classes nasce justamente dessa diferença. A construção de acordos para governar pode assegurar estabilidade e permitir políticas sociais relevantes. Ao mesmo tempo, pode estabelecer limites para reformas que contrariem interesses econômicos consolidados.

A questão marxista não se resume, portanto, a aceitar ou rejeitar toda negociação institucional, mas a examinar quais interesses são preservados, quais transformações são possíveis e qual participação cabe à classe trabalhadora nas decisões políticas.

ROSA LUXEMBURGO E A DIFERENÇA ENTRE REFORMA E TRANSFORMAÇÃO

A discussão remete a um dos debates mais importantes da tradição socialista.

Em Reforma ou Revolução?, Rosa Luxemburgo confrontou a tese de Eduard Bernstein segundo a qual o movimento reformista poderia substituir o objetivo de transformação socialista.

Luxemburgo não rejeitava a luta por reformas. Considerava as conquistas imediatas dos trabalhadores parte essencial do processo político. Sua crítica se dirigia à transformação dessas reformas em finalidade exclusiva, desligada de qualquer horizonte de mudança das relações capitalistas.

Essa distinção é importante porque impede uma interpretação simplista do marxismo como oposição automática à democracia, às eleições ou às melhorias graduais das condições de vida.

O debate é sobre os objetivos históricos da ação política e a relação entre conquistas parciais, organização popular e mudança estrutural.

Aplicada ao Brasil contemporâneo, essa perspectiva permite questionar se a mobilização de milhões de pessoas durante uma eleição produz capacidades organizativas que permanecem ativas depois da apuração.

Quando toda a energia coletiva depende da próxima campanha, o movimento corre o risco de reduzir sua atuação política à alternância de governos.

DA FESTA À ORGANIZAÇÃO: O DESAFIO DA ESQUERDA CONTEMPORÂNEA

É nesse ponto que a expressão esquerda cirandeira assume seu sentido crítico.

A questão não é o prazer coletivo, a cultura popular ou a celebração de uma conquista democrática. O problema seria a substituição do trabalho político continuado por um circuito de eventos, encontros, performances e manifestações que não produzam vínculos organizativos duradouros.

Também seria equivocado atribuir esse problema exclusivamente às pautas identitárias.

As lutas contra o racismo, o machismo e outras formas de opressão podem integrar uma análise materialista das relações sociais, especialmente quando relacionadas ao trabalho, à renda, à propriedade, à violência e à distribuição do poder.

A tensão real aparece quando demandas distintas são tratadas como concorrentes inevitáveis, ou quando o reconhecimento simbólico substitui respostas às condições materiais de existência.

Uma leitura de classe mais abrangente exige examinar como exploração econômica e formas específicas de opressão se articulam historicamente.

A cultura pode alimentar a resistência. A identidade pode fortalecer pertencimentos coletivos. A dificuldade surge quando essas dimensões ficam desconectadas de projetos políticos, econômicos e institucionais concretos.

JANONES E A GUERRILHA DIGITAL: O QUE O MARKETING ELEITORAL REVELA SOBRE A MOBILIZAÇÃO

A experiência de André Janones acrescenta uma dimensão contemporânea ao debate.

Durante a campanha presidencial de 2022, o deputado ganhou destaque pela utilização de redes sociais, grupos de mensagens, linguagem direta e coordenação de ações digitais. Naquele período, descreveu sua atuação como uma forma de guerrilha digital.

O modelo apostava na velocidade de resposta, na circulação de conteúdos e na mobilização de apoiadores para ampliar a presença das mensagens políticas nas plataformas.

Em 2026, a experiência ganhou uma escala ainda maior. Reportagens sobre a campanha registraram que o canal Exército do Lula, no WhatsApp, alcançou aproximadamente 10,8 milhões de seguidores, com tarefas de compartilhamento de vídeos, hashtags e divulgação de publicações em diferentes redes.

Esse fenômeno oferece um objeto relevante para o estudo do marketing político: a passagem da comunicação eleitoral centralizada em peças publicitárias tradicionais para redes de distribuição de conteúdo sustentadas pela participação dos próprios apoiadores.

Mas também apresenta contradições.

A eficiência de uma operação digital não significa necessariamente aprofundamento da consciência política. Um grande número de seguidores pode demonstrar capacidade de alcance sem comprovar formação ideológica, participação coletiva nas decisões ou engajamento social continuado.

Além disso, táticas baseadas na polarização, na reação imediata e na disputa permanente de atenção podem reproduzir características do próprio ambiente comunicacional que pretendem enfrentar.

A atuação de Janones também foi alvo de críticas e reportagens sobre a circulação de informações falsas durante a disputa de 2022, o que evidencia a necessidade de distinguir mobilização eficiente de comunicação pública responsável.

Para a análise marxista do marketing político, o problema central é compreender de que maneira as estruturas digitais de uma eleição podem manter utilidade social e democrática depois do encerramento da campanha.

A resposta não pode se limitar à reprodução contínua de conteúdos eleitorais.

Há diferenças importantes entre uma audiência mobilizada por lideranças, uma comunidade com participação política efetiva e uma organização coletiva dotada de capacidade de decisão.

Seguidores não são automaticamente militantes. Engajamento não é sinônimo de organização. Viralização não equivale a transformação social.

2026: UMA NOVA VITÓRIA, UMA ANTIGA CONTRADIÇÃO

A reeleição de Lula em 2026 recoloca o debate com particular intensidade.

O presidente venceu com 64.256.232 votos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041. A diferença foi suficiente para garantir a continuidade do governo, mas o volume de votos de ambos demonstra a persistência de uma sociedade politicamente dividida.

Não se pode deduzir desse resultado, isoladamente, a força relativa de cada projeto econômico ou a capacidade futura de mobilização de seus apoiadores.

O que ele oferece é um ponto de partida para investigar a organização dos campos políticos brasileiros após a campanha.

A experiência histórica sugere que governos eleitos continuam submetidos a disputas sobre orçamento, tributação, políticas sociais, legislação trabalhista, serviços públicos e prioridades econômicas.

Do ponto de vista do materialismo histórico, essas disputas não desaparecem diante de uma cerimônia de posse ou de uma manifestação comemorativa.

Também é necessário observar que a ausência de organização popular não é um fenômeno exclusivamente cultural. Ela envolve precarização do trabalho, jornadas extensas, dificuldades de financiamento, fragmentação sindical, desigualdades territoriais e dependência das plataformas digitais privadas.

O capitalismo não apenas influencia a agenda política. Também condiciona as possibilidades materiais de participação coletiva.

Por isso, uma crítica que responsabilize somente os hábitos festivos de determinados setores progressistas seria insuficiente. É necessário investigar as estruturas que tornam a participação política episódica e frequentemente dependente dos períodos eleitorais.

O MARKETING POLÍTICO DEPOIS DA ELEIÇÃO: A DIFERENÇA ENTRE ALCANCE E PODER SOCIAL

O marketing político moderno dispõe de instrumentos capazes de ampliar significativamente o alcance de mensagens e facilitar o encontro de pessoas interessadas em determinados temas.

Plataformas digitais, produção audiovisual, análise de audiência, canais de comunicação e ferramentas de organização podem contribuir para a circulação de informações públicas.

Entretanto, sua utilização envolve escolhas políticas e éticas.

Uma estratégia de comunicação que estimule exclusivamente reações, compartilhamentos e disputas de visibilidade pode fortalecer a dependência de lideranças e algoritmos. Já experiências que favoreçam acesso à informação, deliberação pública, transparência e participação comunitária podem produzir relações distintas entre comunicação e cidadania.

A perspectiva marxista acrescenta perguntas sobre quem controla os meios de comunicação, quem financia sua operação, como o trabalho digital é organizado e quais interesses econômicos influenciam o funcionamento das plataformas.

Também exige reconhecer que a tecnologia não substitui a realidade material da política.

Nenhum algoritmo elimina conflitos de classe. Nenhuma campanha digital resolve sozinha os problemas de organização coletiva. Nenhuma audiência, por maior que seja, equivale automaticamente à capacidade de disputar decisões sobre o funcionamento da economia.

A experiência de Janones demonstra a importância adquirida pelas redes digitais na política brasileira. Seus limites e controvérsias, por sua vez, ajudam a compreender por que o sucesso comunicacional não pode ser o único critério de avaliação de uma mobilização.

A CRÍTICA MARXISTA NÃO TERMINA NA URNA

A história política brasileira entre 2013 e 2026 reúne episódios distintos, mas conectados por questões recorrentes: soberania nacional, crises institucionais, ascensão da extrema direita, reorganização do campo progressista e crescente influência das plataformas digitais sobre a disputa eleitoral.

Uma interpretação marxista desses processos não dispensa a análise das instituições democráticas, nem pode transformar acontecimentos complexos em consequências automáticas de um único fator.

Ela exige investigar interesses econômicos, relações de classe, condições históricas, formas de organização e contradições entre os discursos políticos e suas consequências materiais.

Nesse contexto, a crítica à esquerda cirandeira pode funcionar como provocação sobre os limites de um progressismo excessivamente concentrado no calendário eleitoral.

Mas sua consistência depende de não confundir celebração popular com passividade, identidade com ausência de consciência de classe ou negociação democrática com rendição inevitável ao capital.

A pergunta que permanece depois da reeleição de Lula não é se a vitória deve ser comemorada.

É o que acontece com a participação política quando a comemoração termina.

Porque a conquista do governo não encerra os conflitos da sociedade, e uma eleição vencida não significa que as contradições do capitalismo tenham sido superadas.

Rafael Medeiros
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