Gostemos ou não – e há quem não goste, há quem torça o nariz para a bola como se ela fosse coisa menor, indigna dos espíritos cultivados -, há mais de um século que o Brasil possui uma potente e avassaladora linguagem unificadora dentro e fora de suas fronteiras: o futebol. Não uma linguagem qualquer, não um idioma burocrático de repartições e formulários, mas uma língua viva, feita de dribles, de gritos guturais, de silêncios coletivos quando a bola bate na trave e de explosões sísmicas quando ela enfim beija a rede. É a língua que se fala nas várzeas de Porto Alegre e nos campinhos de terra batida do Recife, nos botecos de Copacabana e nas transmissões que cruzam o Atlântico até chegar aos ouvidos de brasileiros espalhados pelo mundo. Não é à toa que essa paixão transbordante está eternizada nas crônicas geniais de Nelson Rodrigues – que soube como ninguém capturar a alma nacional em suas hipérboles magníficas – , nas canções imortais de Jorge Ben (“Fio Maravilha, nós gostamos de você”) e de Chico Buarque (“Para estufar esse filó / como eu sonhei / só se eu fosse o Rei”), e nos gritos de gol das torcidas que se espalham por este imenso continente-bola. O futebol, para nós, nunca foi apenas um esporte. É um idioma, uma cosmologia, uma religião civil que nos une em comunhão mística a cada quatro anos – e que nos dilacera com a mesma intensidade quando o sonho se desfaz.
Ao mesmo tempo – e aqui a coisa se complica, como tudo que é brasileiro – , futebol e política sempre se misturaram em uma dança indissociável, por vezes obscena. João Saldanha, o “João Sem Medo”, que o diga. Comunista declarado em plena ditadura militar, comandou a Seleção Brasileira com uma campanha perfeita nas Eliminatórias para a Copa de 1970, vencendo todos os jogos, para ser sumariamente demitido a três meses do Mundial – porque a ditadura não podia tolerar que um comunista levantasse a taça em nome do Brasil. O nosso nacionalismo, e os nossos governantes de plantão, sempre se valeram da genialidade de nossos jogadores para fortalecer o tão almejado “orgulho nacional”. Não é diferente em nenhum outro lugar do planeta: quando as seleções nacionais vão à Copa do Mundo, acabam por reacender, no mínimo, a pergunta primordial que nenhum hino nacional consegue responder sozinho – do que é feito um país? Do que é feito um povo?
Linguagem unificada, impostos e controle de fronteiras são apenas alguns elementos de uma unidade nacional que não nasce pronta, que não brota espontaneamente do solo, mas que é, sim, o resultado de disputas históricas violentas, de genocídio, de séculos de escravidão, de golpes e contragolpes, cujas marcas podem ser vistas como chagas abertas em um dos países mais desiguais do mundo. O Brasil que veste a camisa canarinho é o mesmo Brasil de inúmeros famintos, que empilha corpos nas periferias, que segrega por cor e por CEP. A seleção é o espelho e a miragem ao mesmo tempo – reflete o que somos e projeta o que gostaríamos de ser.
Ao enfrentarmos a Noruega “viking” (outra invenção de tradição) neste domingo escaldante de julho lá nos EUA, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, tudo isso virá à tona mais uma vez. No MetLife Stadium, em Nova Jersey, sob uma sensação térmica de 39 graus – o maior calor dos últimos 14 anos na região -, vinte e dois homens correrão atrás de uma bola enquanto bilhões assistem, e cada um desses bilhões carregará consigo o peso de sua própria narrativa nacional. É sempre aquele “veneno remédio”, na precisa expressão de José Miguel Wisnik: o futebol como pharmakon, substância que cura e mata na mesma dose. O tudo ou nada. A glória retumbante ou o fracasso melancólico para o qual fomos supostamente destinados pelo nosso velho e conhecido “complexo de vira-latas”. Nelson Rodrigues cunhou a expressão em 1958, às vésperas da Copa da Suécia, a primeira que o Brasil venceria. Escreveu ele:
“Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.”
Sessenta e oito anos depois, o fantasma persiste. Carregamos o peso de um tabu histórico – o Brasil nunca venceu a seleção norueguesa em quatro confrontos: duas derrotas e dois empates. A última vez que nos enfrentamos em uma Copa, em 1998, a Noruega venceu por 2 a 1 na fase de grupos, e o Brasil, apesar de avançar, chegou à final para ser humilhado pela França de Zidane. A memória coletiva é cruel: ela guarda as derrotas com mais carinho do que as vitórias. E agora, diante dos nórdicos liderados por Erling Haaland – o homem que marcou cinco gols em três jogos nesta Copa, o centroavante de 1,94m -, a sombra do vira-latas espreita, pronta para nos assombrar ao menor sinal de tropeço.
Mas Nelson Rodrigues também nos ensinou o antídoto. Ele, que inventou a “pátria em chuteiras”, sabia que o brasileiro, quando decide jogar sem medo, quando se liberta das amarras da inferioridade autoimposta, é capaz de produzir o futebol mais bonito que o mundo já viu. A questão é: conseguiremos, neste domingo, trocar o vira-latas pelo vira-mundo? A questão parece ir muito além do nacionalismo, que se encontra em crise há tempos – crise de legitimidade, crise de sentido, crise de representação. O nacionalismo – essa religião civil de massas que floresceu nos séculos XIX e XX – parece ter ganhado um concorrente ainda mais venenoso e onipresente: as finanças que presidem as regras do jogo. Da FIFA e da Copa. Do mundo.
A Copa do Mundo de 2026 é a maior da história: 48 seleções, 104 jogos, três países-sede. E é também a mais cara, a mais patrocinada, a mais monetizada. A FIFA arrecadou um recorde de 2,8 bilhões de dólares em patrocínios. Coca-Cola, Aramco, Visa, Qatar Airways – os logotipos giram em looping nos painéis eletrônicos dos estádios como mantras hipnóticos de uma nova religião. As casas de apostas – as famigeradas “bets” – tornaram-se o segundo maior anunciante do torneio, com uma média de 425 buscas por minuto durante os jogos. Estão nos gramados, nos intervalos, na boca dos narradores, nos pop-ups que invadem as telas dos celulares. O governo brasileiro, em gesto tardio e tímido, tentou limitar as propagandas de apostas durante as transmissões. Mas o capital não conhece limites, e a mercadoria não respeita fronteiras – nem as do bom senso.
Tudo isso faz da Copa um negócio constante e ambulante, desde a máquina industrial de produzir jogadores – meninos arrancados de suas comunidades aos 12, 13 anos, moldados em centros de treinamento que mais parecem fábricas de sonhos e pesadelos – até as propagandas infinitas que transformam cada gol em oportunidade de venda, cada emoção em commodity. Em suma, estamos diante de toda a indumentária de um espetáculo cuja forma maior, absoluta e inquestionável, é a mercadoria. Guy Debord, se estivesse vivo, reconheceria na Copa de 2026 a expressão mais acabada de sua “sociedade do espetáculo” – aquela em que “tudo o que era vivido diretamente se afastou numa representação”.
De muitas maneiras, é a modernidade capitalista criando novos gladiadores. Homens que correm sem parar – a FIFA registra médias de 11 quilômetros por jogador por partida – sob um sol brutal que faz do MetLife Stadium uma arena romana contemporânea. Gladiadores que fazem a alegria (e a tristeza) de uma torcida cada vez mais elitizada nos estádios – os ingressos para Brasil e Noruega custam entre 300 e 2.000 dólares – e de bilhões de espectadores anestesiados em suas casas, grudados em telas que vão do celular de cinco polegadas ao telão de 75. O pão e circo nunca foi tão literal: come-se fast food nas arenas enquanto se assiste ao espetáculo; bebe-se cerveja de patrocinador oficial enquanto se aposta, em tempo real, no próximo escanteio.
A remada viking dos noruegueses – aquele gesto coletivo em que jogadores e torcida batem palmas em uníssono, como se remassem um drakkar rumo à conquista – é, a um só tempo, expressão autêntica de identidade nacional (sempre uma reinvenção) e performance midiática perfeitamente calibrada para viralizar nas redes sociais. O nacionalismo sobrevive, mas domesticado, transformado em conteúdo, em meme, em hashtag. A bandeira brasileira pintada no rosto do torcedor é, simultaneamente, gesto de pertencimento e figuração para a câmera do influenciador que transmite ao vivo para seus milhões de seguidores.
Como separar as coisas e apenas torcer? Com a “pureza” dos tempos em que o rádio crepitava e a imaginação completava o que os olhos não viam? Eu diria que é uma tarefa quase impossível. Impossível como separar o sal da água do mar, como distinguir onde termina o jogo e onde começa o negócio, onde acaba a paixão e onde principia a manipulação. Isso até vermos a plástica desconcertante de um drible de Vini Jr. – aquele movimento de quadril que desafia a física, que humilha o marcador e que, por um instante fugaz, restitui ao futebol sua dimensão de arte pura. Ou a explosão de juventude em uma arrancada de Endrick, o menino de 19 anos que carrega nos pés a promessa de um futuro que ainda não foi colonizado pelo cinismo. Ou, quem sabe – e aqui o coração se acelera – , um golaço redentor do veterano Neymar, o quase-ex-jogador de 34 anos que assiste do banco como um rei deposto, mas que guarda na manga a magia de seus 13 anos de protagonismo. Ancelotti disse que ele pode jogar 90 minutos. Neymar disse, sem dizer, que quer jogar. E nós, torcedores, queremos vê-lo em campo como quem quer ver um último pôr do sol antes da noite definitiva.
Quando a bola rola e a genialidade brasileira se manifesta – naquele drible impossível, naquela tabela de primeira, naquele gol que parece coreografia de balé e capoeira, o mercado, as apostas, as estatísticas e os algoritmos desaparecem por um breve e eterno segundo. Nesse instante, somos todos Nelson Rodrigues gritando “é a pátria em chuteiras!”. Somos todos Jorge Ben cantando “Fio Maravilha”. Somos todos Chico Buarque sonhando ser o Rei. Somos todos vira-latas que, por um momento de graça, se descobrem leões.
A pátria de chuteiras ainda vive e resiste. Resiste apesar do capital, apesar das bets, apesar da FIFA e de seus bilhões. Resiste porque há algo no futebol brasileiro – naquele jogo de cintura, naquela ginga que vem da capoeira, do samba, dos quilombos, naquela alegria subversiva que nenhum patrocinador consegue comprar por inteiro – que transcende a mercadoria. E enquanto houver um jogador ousado com a camisa canarinho pronto para desafiar a muralha norueguesa, pronto para driblar Haaland e a lógica europeia, o nosso complexo de vira-latas será, mais uma vez, esmagado sob a sola da chuteira imortal.
Que venham os tais “vikings”! O Brasil já enfrentou adversários piores…e sambou sobre seus escombros.






