Por Cleber Lourenço
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma reorganização para o segundo turno com foco na redução da abstenção, na aproximação com o eleitorado idoso e no reforço da atuação nas redes sociais. O plano também passa por ampliar a vantagem no Nordeste, recuperar votos em São Paulo e Minas Gerais e levar Lula ao Amazonas, estado que não visitou durante o primeiro turno.
Segundo apurou o ICL Notícias, integrantes mais próximos do presidente continuavam reunidos perto da meia-noite desta segunda-feira (5), depois do encontro ampliado com aliados em Brasília, para definir os rumos da campanha contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Parte das decisões deve ser apresentada nesta terça-feira (6).
O encontro ampliado começou por volta das 18h e reuniu ministros, dirigentes partidários, governadores, senadores e candidatos que disputaram as eleições de domingo. Depois dessa etapa, as discussões prosseguiram com um grupo mais próximo do presidente.
Um dos principais focos definidos para os próximos 20 dias é a busca pelos eleitores que não compareceram no primeiro turno. A abstenção chegou a 21,08%, o equivalente a 33,4 milhões de pessoas e o maior percentual na primeira etapa de uma eleição presidencial desde 1998.
Durante a reunião, Lula afirmou que a própria campanha precisa entender por que tantos eleitores não se sentiram estimulados a votar e trabalhar para levá-los às urnas no segundo turno.
“Possivelmente tem uma causa: desinteresse. E a responsabilidade é nossa. É devolver o interesse para ele de participar do processo eleitoral”, afirmou.
Outro público que deverá receber atenção específica é o eleitorado idoso. A campanha já discutia uma estratégia para esse segmento no primeiro turno, mas o tema acabou perdendo espaço. Agora, aliados defendem que Lula, aos 80 anos, estabeleça uma comunicação mais direta com eleitores da mesma faixa etária e amplie a presença de assuntos de interesse desse público na campanha.
Nordeste terá meta de ampliar vantagem
A campanha também definiu prioridades diferentes para cada região. No Nordeste, onde Lula concentra sua maior força eleitoral, a meta é ampliar a vantagem e tentar alcançar um patamar próximo de 70% dos votos na região.
Governadores, senadores e outras lideranças deverão intensificar as agendas e a mobilização nos estados. No Ceará, por exemplo, José Guimarães afirmou que a intenção é elevar a votação de Lula de 63% para 70%. No Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) estabeleceu como objetivo passar de cerca de 71% para 80%.
A estratégia será diferente em São Paulo. No maior colégio eleitoral do país, a campanha pretende não apenas buscar quem deixou de comparecer às urnas, mas disputar diretamente eleitores que votaram em outros candidatos para reduzir a vantagem de Flávio.
Minas Gerais será outro foco. A avaliação é que Lula precisa melhorar seu desempenho nos dois principais colégios eleitorais do Sudeste para ter condições de virar a disputa nacional. Durante a reunião, foi discutido um plano específico para elevar a votação do presidente nos dois estados.
O Sudeste preocupa porque Lula perdeu mais de 5 milhões de votos na região na comparação com o primeiro turno de 2022. Para integrantes da campanha, não será suficiente apenas aumentar a vantagem onde o presidente já venceu: será necessário diminuir a diferença nos territórios em que Flávio saiu na frente.
Lula deve ir ao Amazonas
Outra medida discutida é uma viagem de Lula ao Amazonas. A demanda foi apresentada pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM), que chamou a atenção para o fato de o presidente não ter visitado o estado durante o primeiro turno.
A ideia é que Lula vá ao Amazonas para reforçar a campanha de Omar Aziz (PSD), que disputa o segundo turno para o governo estadual contra Maria do Carmo (PL).
A viagem faz parte de uma estratégia mais ampla de aproveitar os palanques estaduais que continuam ativos. Lula também pretende visitar outros estados onde aliados disputam o segundo turno e usar essas agendas para reforçar simultaneamente sua própria campanha presidencial.
Redes devem levar eleitor até Lula
A comunicação digital foi outro ponto importante da reunião. Segundo apurou o ICL Notícias, Lula deixou claro que sua preferência continua sendo pelo corpo a corpo e pelo contato direto com o eleitor, mas não descartou as sugestões apresentadas por Rafael Fonteles para ampliar sua presença nas redes.
Fonteles foi reeleito no Piauí com cerca de 70% dos votos válidos e relatou ao presidente que atribui boa parte de seu desempenho ao investimento feito pela campanha na comunicação digital.
Uma das ideias é usar as próprias redes para potencializar o modelo de campanha preferido por Lula. A intenção é deixar o público mais informado sobre onde o presidente estará e compartilhar com maior frequência sua localização e suas próximas agendas, facilitando a aproximação dos eleitores e aumentando a participação nos atos de rua.
A proposta, portanto, não é substituir o corpo a corpo pelas redes, mas fazer com que uma estratégia alimente a outra. A presença digital serviria também para ampliar o alcance das agendas presenciais e avisar o eleitor onde e quando poderá encontrar Lula.
Fonteles sugeriu ainda aumentar a produção de conteúdo durante as viagens e fazer mais selfies com eleitores, identificando os locais onde as imagens foram feitas. Lula respondeu que prefere o contato pessoal, mas não rejeitou a ampliação da presença digital.
O próprio presidente reconheceu que explorou pouco alguns meios durante o primeiro turno. “Vou ter que fazer mais rádio, vou ter que fazer mais selfie, vou ter que conversar mais”, afirmou.
A tendência é que Lula continue concentrado nas agendas presenciais enquanto um grupo da campanha fica mais dedicado à estratégia para as redes sociais.
O funcionamento das plataformas também entrou nas discussões. Participantes relataram uma avaliação de que os algoritmos estariam favorecendo a circulação de conteúdos relacionados a Flávio e dificultando a distribuição das mensagens petistas. A questão foi levantada por Luizianne Lins (Rede-CE), eleita para o Senado.
Além da mobilização territorial e digital, a campanha pretende intensificar o contraste entre os dois candidatos. Participantes defenderam mostrar ao eleitor quais políticas poderiam estar em risco em uma eventual vitória de Flávio. A valorização real do salário mínimo foi um dos exemplos citados. Lula também afirmou que pretende explorar o risco de o Brasil voltar ao mapa da fome.
Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Apesar da diferença, o presidente disse aos aliados que considera a disputa aberta e pretende aumentar as agendas de rua, participar dos debates e intensificar a comunicação com o eleitorado.
A divisão mais detalhada das tarefas e das frentes de atuação deve começar a ficar clara nesta terça-feira, depois de uma segunda-feira em que as discussões sobre os rumos do segundo turno avançaram até perto da meia-noite.




