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CazéTV: Público perdeu 61% das apostas sugeridas na Copa


Por Igor Mello

Quem seguiu as sugestões de narradores e comentaristas da CazéTV perdeu em quase 61% das apostas sugeridas durante as transmissões da Copa do Mundo, mostra levantamento exclusivo feito pelo ICL Notícias.

Ao todo, o monitoramento de 48 partidas do torneio contabilizou 74 odds — termo para cotações em tempo real — divulgadas pela equipe do canal durante as partidas das duas primeiras rodadas da fase de grupos. Em 45 delas — 61% do total — a aposta deu errado. As ofertas eram feitas pelas três bets que figuram na lista de anunciantes da CazéTV durante a Copa: Bet365, Betnacional e KTO.

Para conferir o resultado de cada aposta, a reportagem utilizou os principais sites especializados em scout de partidas de futebol — como o Sofascore e o Flashscore — para conferir se as ocorrências ligadas a cada aposta seguiram os parâmetros definidos pelas bets. As ferramentas são usadas pelos principais veículos esportivos do Brasil e do mundo.

O expediente usado por narradores e comentaristas da CazéTV para estimular as apostas em tempo real foi alvo de críticas: eles divulgavam odds “ampliadas” para quem apostasse naquele momento. Além disso, a equipe do canal analisava a probabilidade dos eventos listados pelas casas de apostas ocorrerem com um verniz de análise esportiva isenta e, muitas vezes, superestimando a chance de vitória do apostador. Essa combinação levou a uma ofensiva de órgãos do governo federal e do Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar).

O público saiu vencedor em 29 oportunidades – aproximadamente 39% das vezes, mas as letras miúdas por vezes escondiam uma pegadinha. As chamadas odds aumentadas — ou super odds — na maioria das vezes só estavam disponíveis para quem já tivesse feito apostas naquela casa de apostas, o que induz o público a apostar para garantir cotações vantajosas no futuro.

Além disso, em 7 das 29 odds que levaram a vitórias, o espectador da CazéTV só podia apostar um máximo de R$ 10 — valor que, em geral, traz ganhos insignificantes para o público.

Propaganda x análise

A principal crítica editorial ao canal –que é propriedade da empresa de marketing e direitos esportivos LiveMode — foi por conta da mistura entre comentários esportivos e publicidade, fazendo com que o estímulo às apostas fosse feito de forma pouco transparente — como se fosse uma análise isenta da equipe do canal.

Um dos episódios mais significativos dessa prática ocorreu já no jogo de abertura da Copa do Mundo, entre México e África do Sul. No intervalo da partida, o canal divulgou uma aposta da Betnacional: se o atacante mexicano Raúl Jiménez fizesse um gol até os 15 minutos do segundo tempo, o apostador teria um retorno de 12 vezes o valor apostado.

A cotação indica que o público só sai vencedor em oito de cada cem apostas com essa probabilidade. Contudo, a equipe da CazéTV disse ao público que aquela era uma boa aposta a se fazer. Foi o caso da análise feita pelo comentarista Fernando Campos, um dos principais do canal.

“Acho que é uma boa odd até porque a seleção sul-africana tem um problema na bola aérea defensiva. Já teve uma oportunidade do Reyes pro Raúl Jiménez, ele veio para a finalização e parou na ótima defesa do goleiro. E a tendência é a seleção sul-africana tentar sair mais pro jogo. O México fica muito confortável quando tem o campo aberto, é um time que aposta muito nas transições também, muito vertical. E que joga muito para o Raul Jimenez e para o Quiñonez. Então acho que é uma boa [aposta]”, afirmou o comentarista.

Como a cotação já indicava, quem seguiu a dica da CazéTV perdeu.

No segundo duelo do Mundial, entre Coreia do Sul e Tchéquia, a prática se repetiu. A Bet365 ofereceu pouco antes do início do jogo uma cotação de 4,25 vezes o valor apostado na seguinte aposta: os atletas Son, da Coreia do Sul, e Schick, da Tchéquia, deveriam dar pelo menos um chute a gol cada um. E as duas seleções tinham que marcar gols.

A odd de 4,25 indica uma probabilidade de vitória de apenas 23,5%. Mas o diálogo entre a equipe de transmissão pintou um quadro bem mais favorável ao público. O narrador Raony Pacheco leu a aposta e, em seguida, afirmou em tom empolgado: “Essa aí eu vou te falar, heim? Extraordinário isso, porque [os jogadores] finalizam, ambos tem o faro de gol”, sendo logo apoiado pela comentarista Amanda Viana.

“Exatamente! E pra quem tem uma noção do Patrick Schik, ele marcou 6 gols em 7 jogos em grandes torneios pela Tchéquia. É um jogador muito prolífico em grandes torneios pela Tchéquia e muito forte na bola aérea, que eu tava citando que é uma das armas dessa seleção. Três dos cinco gols deles foram de cabeça. Então assim, Raony, é um jogador que a Tchéquia busca muito como referência. E olhando para a Coreia do Sul, o Son hoje faz uma função mais avançada. Aquele homem centralizado que tem muita liberdade para circular e buscar as finalizações de fora que são muito fortes no jogo dele”, avaliou a jornalista.

Assim como ocorreu na abertura da Copa, a aposta resultou em derrota para o público da CazéTV.

Um outro momento deste tipo ocorreu na partida entre Canadá e Catar e acabou viralizando nas redes sociais. Os canadenses, que jogam em casa durante o torneio, já venciam por 3 a 0 os cataris no intervalo do jogo. Para piorar, a equipe do Oriente Médio, considerada uma das mais fracas da Copa, ainda havia tido um jogador expulso.

O prognóstico para os cataris era dos piores, mas isso não impediu que a equipe de transmissão apoiasse uma aposta desfavorável para o público. A KTO ofereceu uma odd de 4,2 para ambas as equipes fazerem gol no segundo tempo. A cotação indica uma probabilidade de vitória de apenas 23,8% — que parece otimista dada as circunstâncias do jogo.

Após apresentar a aposta, o narrador Fernando Nardini asseverou: “A seleção do Catar não conseguiu chegar [no ataque] no primeiro tempo. Bruninho, o Canadá está pressionando demais. Se empolgar e for pro ataque, pode deixar desguarnecido lá atrás. É a chance do Catar no jogo”. O comentarista Bruno Magalhães endossou a avaliação enviesada do colega. “Pois é, a gente estava falando da importância de ficar em primeiro lugar do grupo”, ponderou. “O Canadá pode tentar fazer saldo e, numa dessas, pode ter uma esperançazinha para o Catar. É complicado, porque um a menos, mas no futebol a gente já viu de tudo”.

O jogo terminou em um massacre de 6 a 0 para o Canadá, e a aposta terminou em derrota.

Até os jogos da seleção brasileira foram utilizados para este tipo de publicidade. Na estreia do Brasil, contra a equipe do Marrocos, uma odd foi exibida no intervalo. Àquela altura, a CazéTV registrava a maior audiência da história de uma live esportiva no Youtube, com 12 milhões de aparelhos conectados simultaneamente. Coube a Casimiro Miguel, fundador do canal, e a Luis Filipe Freitas, principal narrador, a divulgação da odd.

A aposta divulgada era que o atacante Vini Jr. deveria dar mais um chute a gol no segundo tempo. Quem assistia ao jogo via que o Brasil tinha muitas dificuldades para atacar: a seleção saiu atrás no placar e foi completamente dominada pelos africanos até os 32 minutos do primeiro tempo, quando Vini empatou em bela jogada individual.

A Betnacional oferecia 3 vezes o valor apostado como prêmio, uma probabilidade de sucesso de apenas 33%.

Freitas introduziu a discussão após ler a oferta da casa de apostas: “Cazé, a gente vai precisar do Vinicius Jr. no primeiro e no segundo tempo”. Casimiro então concordou: “Vai precisar do Vinicius Jr. e que já poderia até ter finalizado na sobra ali depois do escanteio. A gente comentou sobre isso, é ele que vai assumir esse protagonismo. É ele que vai ter que ser esse cara. Raphinha, claro, a gente citou ele, mas são os dois principais jogadores do Brasil”.

Mais uma vez, a aposta recomendada pela CazéTV terminou em derrota.

Simulação: público teria perdas relevantes com odds

Para ilustrar o desempenho das apostas divulgadas pela CazéTV, o ICL Notícias elaborou uma simulação para estimar os resultados acumulados ao longo das duas primeiras rodadas da Copa. A reportagem ordenou as apostas conforme elas foram exibidas pelo canal e apurou o resultado de cada uma delas.

Na simulação, o apostador hipotético tinha um orçamento de R$ 1000 para aproveitar as odds. A regra é que ele investiria 10% do saldo de momento na próxima aposta – isso só não foi feito nos casos em que as bets limitavam o valor máximo apostado a R$ 10.

No início da Copa, o apostador teria tido um prejuízo relevante: após 10 apostas, ele teria apenas R$ 553,32 na conta — uma perda de quase 45%.

Após 20 apostas, a tendência de perdas continua: sobra no caixa do apostador hipotético R$ 357,27 — as perdas acumuladas já eram de praticamente 65%.

O menor saldo da simulação foi registrado após 22 apostas. Nesse momento, dos R$ 1.000 separados inicialmente, restariam apenas R$ 289,39.

Uma sequência de resultados positivos faz com que haja uma recuperação. Na altura da aposta 35, o saldo disponível seria R$ 829,36 — as perdas foram reduzidas para 17%.

Após essa curta boa fase, um novo ciclo de perdas derruba o saldo. Na aposta 47, o saldo foi reduzido novamente para R$ 348,81 — mais de 65% de perdas.

A situação se mantém até a aposta 60 (saldo de R$ 335,25), quando a maré de sorte pareceu virar: uma sequência de vitórias deu lucro pela primeira vez.

Após vencer três vezes seguidas durante um jogo da Argentina, o valor em conta chegou a R$ 1050,69 após a aposta 64. Pela primeira vez, o apostador teria algum lucro em relação aos R$ 1.000 iniciais.

A posição só registrou lucro mais uma vez. Após vencer a aposta 68, o valor em conta foi R$ 1100 — lucro de 10%.

A situação voltou a se inverter. Com uma sequência de derrotas, a simulação terminou com um saldo de apenas R$ 691,10 — a perda acumulada foi de 31%.

Cerco das autoridades à CazéTV

A repercussão negativa da divulgação de apostas na CazéTV — além das odds em tempo real, o canal inundou as transmissões com comerciais das bets anunciantes — levou a uma reação das autoridades.

Parlamentares como os deputados federais Chico Alencar (PSOL-RJ) e Erika Hilton (PSOL-SP) e a liderança do PV na Câmara — representada pelos deputados Clodoaldo Magalhães (PV/PE), Prof. Reginaldo Veras (PV/DF) e Aliel Machado (PV/PR)– denunciaram a situação para os ministérios da Fazenda e da Justiça.

A pressão da opinião pública fez com que as autoridades federais atuassem. A Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça (MJ) abriu na última quarta-feira (24) uma investigação contra a CazéTV para apurar se o canal realizou publicidade irregular de casas de apostas durante as transmissões de jogos da Copa do Mundo.

A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (MF) também viu possíveis irregularidades cometidas durante a divulgação de apostas nas transmissões da CazéTV.

O órgão regulador notificou a empresa responsável pela Bet365 — uma das três que anunciam nas transmissões do canal, ao lado de Betnacional e KTO — por conta das possíveis infrações.

A Fazenda instou a Bet365 para que “se abstenha de divulgar peças publicitárias nos moldes observados e mencionados neste expediente, ainda que por terceiros”.

Na última sexta-feira (26), o Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também expediu uma decisão liminar suspendendo a exibição de propagandas de casas de apostas durante as transmissões de jogos da Copa do Mundo na CazéTV. O órgão considerou as propagandas abusivas, segundo a coluna Outro Canal, do jornal Folha de S. Paulo.

Diante da pressão, a CazéTV suspendeu a divulgação de oddss durante as transmissões. Nenhuma publicidade desse tipo foi exibida durante o primeiro jogo de mata-mata do torneio, entre Canadá e África do Sul.

Outro lado

O ICL Notícias procurou a CazéTV, por meio de sua controladora LiveMode e de Casimiro Miguel, para pedir um posicionamento sobre os achados desta reportagem.

Também procurou os narradores Luis Filipe Freitas, Raony Pacheco e Fernando Nardini, assim como os comentaristas Fernando Campos, Amanda Viana e Bruno Magalhães. Nas mensagens, enviadas por e-mail ou pelo Instagram, foram enviadas perguntas sobre possíveis vínculos com as casas de apostas divulgadas.

O ICL Notícias ainda não teve retorno sobre os pedidos de posicionamento enviados. Caso os citados se posicionem, as respostas serão incluídas na reportagem.





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