Celina Leão (PP) fez carreira à sombra de Ibaneis Rocha (MDB). Foi vice obediente, herdeira ungida, sócia de todas as decisões que importavam no Palácio do Buriti.Candidata à reeleição, carrega no colo a tragédia que ajudou o ex a perpetrar. Juntos, os dois quebraram o caixa do Distrito Federal. Faliram o Tesouro do DF e nem ao cinema podem ir. A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo e mais importante evento do calendário audiovisual do país, corre grande risco de não acontecer em 2026 por um motivo vergonhosamente simples: o GDF está na lona. Não tem sequer os R$ 3 milhões necessários para organizá-lo. Na tarde da última segunda-feira, 10 de agosto, a Secretaria de Cultura do Distrito Federal anunciou que o Festival estava cancelado. Às 20h55min Celina Leão postou em seu perfil na rede social “X” que sua administração voltara atrás e ela havia determinado à Secretaria de Economia que assegurasse o volume orçamentário necessário à confirmação do evento.
A primeira parcela desses recursos de apoio à cultura, de R$ 1,5 milhão, deveria ter sido paga em junho. Não foi. Em 60 anos de história, é a primeira vez que o Festival cai por dinheiro. A única interrupção anterior, entre 1972 e 1974, foi um gesto de protesto contra a censura da ditadura militar. Naquele tempo, suspendeu-se o Festival por dignidade. Agora, a ameaça é de suspendê-lo por insolvência e gestão de má-fé.
O Distrito Federal está quebrado porque Ibaneis Rocha e Celina Leão deixaram o Banco de Brasília, o BRB, fingir que compraria do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Calaram-se quando os fraudadores da instituição privada forjavam carteiras bilionárias de crédito recheadas de ativos que não existiam. O Banco Central e a Polícia Federal estimam perdas potenciais de R$ 8,8 bilhões — dos quais R$ 2,6 bilhões, não têm lastro algum. Era fumaça vendida a peso de ouro; porém, com carimbo de instituição pública.
Vorcaro produziu uma fraude monstruosa, dessas que envergonhariam até os falsários das quebradas. Vendia o que não tinha para quem não deveria comprar. O BRB, banco estatal com um único controlador — o povo do Distrito Federal —, comprou tudo, de olhos fechados e cofres abertos, sob as bênçãos de quem governava.
A partir dali, deu-se uma engenharia de sobrevivência que nenhum manual de finanças públicas recomenda. Para evitar a liquidação do BRB pelo Banco Central, o GDF passou a reter no caixa do banco público algo em torno de R$ 9 bilhões do Tesouro distrital. O montante estava destinado a fazer mexer a máquina pública.
Estancados artificialmente para “fazer caixa”, os R$ 9 bilhões se encontram parados nas contas da administração distrital para manter o nível de depósitos da instituição. A Secretaria de Economia do DF nega o represamento. Os fatos a desmentem. O custeio do governo é pago a conta-gotas, obras andam em marcha lenta, repasses a organizações sociais atrasam cronicamente. Saúde, Educação e segurança amargam contingenciamentos. O déficit projetado para 2026 é de R$ 5,4 bilhões. Em meio a tudo isso, o Festival de Cinema virou despesa descartável. A governadora Celina Leão, ex-vice do grande responsável pela incúria administrativa (Ibaneis Rocha, hoje um deprimido e agoniado fugitivo de si mesmo) justificou o cancelamento pela necessidade de “priorizar despesas”. Priorizou o banco à frente do povo de Brasília e de suas cidades-satélites; o balcão de negócios antes do necessário provimento à cultura.
O acordo costurado no Supremo Tribunal Federal para socorrer o BRB — um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos, autorizado pela Lei distrital nº 7.914/2026 — foi assinado sem o aval do Tesouro Nacional, que se recusou a chancelar a operação. O DF ofereceu como garantia os repasses que tem a receber dos fundos de participação com prazo de 15 anos, dois anos de carência, e uma contrapartida que hipoteca o futuro: ajuste fiscal rígido, restrição de gastos, congelamento de concursos. Nem assim o dinheiro saiu: os bancos privados que formariam o sindicato de avalistas exigido pelo FGC resistem a assinar. Enquanto isso, o BRB completa, em 29 de agosto próximo, um ano inteiro sem publicar balanços. Um banco que não mostra as contas é um banco que tem contas a esconder.
POR ONDE ANDA E O QUE DIZ A ESQUERDA
E a oposição a Celina e a Ibaneis, como se comporta? A resposta a essa questão é melancólica e desabonadora para o currículo de lutas da esquerda brasileira. Leandro Grass, do PT, e Ricardo Capelli, do PSB, não têm coragem de dizer, com todas as letras, o que qualquer analista rastaquera conclui de imediato: não há saída que não seja deixar o BRB quebrar, liquidar o que já está liquidado preservando os depositantes protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito, apurar responsabilidades, punir quem fraudou e quem deixou fraudar e sepultar o cadáver que se finge de banco.
Entretanto, o proselitismo em torno do “banco público” virou dogma, e dogma não se discute nem quando o objeto da devoção apodreceu. Defender a manutenção de um banco estatal quebrado não é defender o patrimônio público; é defender o buraco em que o patrimônio público foi enterrado. O que se deve à população do DF não é a sobrevida artificial do BRB, é a responsabilização de quem o quebrou — Ibaneis, Celina, os diretores que assinaram as compras podres — e de quem o fraudou. Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente da instituição pública, à frente.
A IMPORTÂNCIA DO FESTIVAL DE BRASÍLIA
O Festival de Brasília, de futuro incerto ou cancelado para este ano, nunca foi um evento qualquer. É a mais tradicional plataforma de lançamento do cinema brasileiro. Foi na tela do Cine Brasília que despontou “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, vencedor da primeira edição, em 1965. Naquele mesmo ano, Fernanda Montenegro levou seu primeiro prêmio de atriz – o Candango. Foi lá também que Domingos de Oliveira consagrou “Todas as Mulheres do Mundo”. Foi no Cine Brasília, durante o Festival, que o Cinema Novo desfilou sua fúria; que Eduardo Coutinho ressuscitou o documentário brasileiro com “Cabra Marcado para Morrer”, em 1984; que Suzana Amaral revelou “A Hora da Estrela” e a Macabéa de Marcélia Cartaxo; que “Baile Perfumado” anunciou a retomada do Novo Cinema Pernambucano; que “Amarelo Manga” escandalizou e encantou; que Adirley Queirós, cria da cidade-satélite de Ceilândia, fez de “Branco Sai, Preto Fica” um marco; que “A Febre” arrebatou cinco Candangos. E foi lá, enfim, em setembro de 2025, na abertura da 58ª edição, que “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, teve sua pré-estreia nacional diante de uma sala lotada e saiu ovacionado para conquistar o mundo antes de aspirar premiações em todos os continentes e representar o Brasil no Oscar. Não é justo, não é crível, não é aceitável ver a tela do Cine Brasília apagar depois de tanta história.
Há uma ironia cruel nessa cronologia. “O Agente Secreto” se passa nos anos de chumbo e fala de um Estado que persegue, vigia e mente. O Festival que o exibiu foi morto por um Estado que não persegue ninguém — apenas quebra, esconde balanços e cancela a cultura para tapar o rombo que ele mesmo abriu. Em 1969, no auge do cinema marginal, Júlio Bressane filmou “Matou a Família e Foi ao Cinema”, título que virou síntese do absurdo brasileiro. Meio século depois, Brasília inverteu o roteiro e o piorou. Aqui, mataram a família inteira — o caixa, o banco, a saúde, a escola, a cultura — e nem ao cinema podem ir. Porque o Cine Brasília, este ano, não pode não abrir para o Festival que o consagrou. Se abrir, não é concessão nenhuma de Celina Leão à cultura nacional. Ela é uma espécie de capataz da massa falida deixada por Ibaneis Rocha. Se o Festival, enfim, acontecer terá sido por força e honra de sua própria história.





