Há um enorme elefante na sala e poucos sabem o que fazer com ele. Nesta semana, na cúpula do G7 em Evian, ainda que os temas da agenda do encontro incluam a guerra na Ucrânia, Irã, terras raras, China e tantos outros assuntos críticos, há um aspecto que permeia absolutamente todas as reuniões e preparações: o ego e os interesses de Donald Trump.
Nesta terça-feira, em cenas pouco comuns na diplomacia internacional, os chefes de governo da Europa, Canadá e Japão ficaram quase uma hora esperando por Trump na sala de reuniões da cidade francesa.
O mal-estar era óbvio. Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, tentava saber o que estava ocorrendo. Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, ironizava os atrasos.
Quando Trump finalmente chegou, o alemão Friedrich Merz se apressou em entregar uma camisa da seleção da Alemanha, e ganhar uma foto com o americano. O avô do presidente americano era alemão, o que permitiria que Trump jogasse pela Mannschaft.
Não se tratava apenas de um atraso. Trump, Volodymyr Zelensky e o anfitrião Emmanuel Macron tentavam, antes do encontro começar, chegar a uma posição convergente sobre o destino da guerra na Ucrânia. Um dos objetivos da cúpula do G7 é o de garantir que os EUA mantenham seu apoio para Kiev. Mas, para isso, os anfitriões franceses sabiam que precisavam dar ao americano um status diferente dos demais líderes ao redor da mesa.
Ao longo dos últimos dias, diplomatas europeus fizeram de tudo para acolher as demandas dos EUA e fatiar a declaração final para evitar um fracasso. Temas como o clima foram excluídos da agenda de reuniões, justamente quando o mundo enfrentará um dos fenômenos mais fortes em décadas.
Também foi excluída da agenda qualquer referência às taxações de grandes fortunas, enquanto a participação da sociedade civil foi complemente vetada.
Evian se transformou no lugar mais blindado do planeta nesta semana, com 16 mil soldados e policiais para uma cidade de apenas 9 mil habitantes.
Na esperança de agradar Trump, o G7 ainda cedeu em vários pontos da negociação. No texto que deve ser aprovado sobre o Ebola, por exemplo, os líderes devem evitar citar a OMS, justamente para não ferir os interesses dos americanos.
No que se refere aos desequilíbrios econômicos globais, o foco é na China, evitando críticas mais contundentes contra o protecionismo dos EUA. Já no debate sobre terras raras, mais uma vez o texto coloca ênfase em frear o avanço chinês, uma exigência de Trump.
Para convencer o americano a ficar até o final da cúpula e não abandonar a reunião após algumas horas, Macron inventou um jantar na quarta-feira no qual Trump será o único convidado. O evento ocorrerá no Castelo de Versalhes, nas proximidades de Paris, e considerado como um dos locais favoritos do americano na Europa e que lhe inspira na decoração da Casa Branca.
Os franceses sabiam que, para convencer Trump a não esvaziar a cúpula, teriam de recorrer ao seu ego. Para isso, precisavam do palácio mais simbólico da monarquia europeia.





