Por Cleber Lourenço
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), usou em decisão nesta quarta-feira (9) uma revelação do ICL Notícias sobre o encontro reservado entre André Mendonça e Daniel Vorcaro. Ao analisar a atuação do colega na crise envolvendo a Polícia Federal, Dino afirmou que a reunião com o dono do Banco Master torna “mais grave” a interferência nas competências de outros ministros e do Plenário da Corte.
A reportagem do jornalista Paulo Motoryn revelou, a partir de mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro, que o banqueiro se reuniu com Mendonça em 14 de março de 2025, em São Paulo. O encontro ocorreu no endereço do Instituto Iter, fundado pelo ministro.
“Mais grave se torna essa interferência na esfera de competências de outros Ministros e do próprio Plenário do STF quando, recentemente, veio a lume a informação de que o Ministro André Mendonça teria recebido, para reunião nas dependências de uma empresa privada, o Sr. Daniel Vorcaro, investigado em autos de sua própria competência”, escreveu Dino.
Dino também destacou que, “segundo noticiado, essa reunião teria ocorrido, inclusive, por intermediação de outros agentes que figuram em investigações em curso no Poder Judiciário”.
A apuração do ICL mostrou que a aproximação foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP). Mensagens indicam que os dois trabalharam durante semanas para viabilizar o encontro.
Em um dos áudios revelados pelo ICL, Ciro afirmou a Vorcaro que ele e Cezinha haviam conversado com Mendonça sobre uma situação relacionada aos problemas enfrentados pelo Master no Banco Central. Em outra mensagem, disse ter “dado uma balançada” no ministro sobre o assunto.
O material não demonstra que Mendonça tenha interferido no Banco Central ou prometido ajuda ao banqueiro. À época da reunião, em março de 2025, o ministro também ainda não era relator das investigações do caso Master.
“Decisão em causa própria”
A menção ao encontro aparece logo depois de Dino acusar Mendonça de usar uma decisão judicial para tratar de uma controvérsia que envolvia o próprio ministro.
“Compreende-se que o digno Ministro André Mendonça tenha suas divergências funcionais ou pessoais com a Polícia Federal e possa defender os seus direitos perante a instância própria”, escreveu.
Segundo Dino, porém, esses direitos “não podem converter-se em fundamento para a prolação de decisão em causa própria, com o efeito de paralisar investigações e os trabalhos policiais”.
O ministro também questionou se Mendonça poderia antecipar conclusões sobre relatórios da PF que o mencionam. “Uma parte pode ser juiz de si mesma?”, escreveu.
Dino ressalvou que não estava antecipando qualquer julgamento sobre o conteúdo da reunião com Vorcaro. Ainda assim, classificou o episódio como uma “situação complexa” que exige da magistratura “moderação, equilíbrio e prudência”.
Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro uma vez, em março de 2025, e afirmou que se limitou a ouvi-lo. Segundo o ministro, a conversa tratou de um processo relacionado a créditos de precatórios de interesse do banco. Seu gabinete afirmou ainda que a atuação posterior de Mendonça no processo foi contrária à posição defendida pelo ex-banqueiro.





