O chanceler Mauro Vieira fará um apelo para que as grandes potências cheguem a um acordo “urgente” para iniciar uma reforma da ONU e da governança internacional. A mensagem será levada à reunião dos chefes da diplomacia do G7, nesta semana na França e com a presença do governo dos EUA. O temor do Brasil é de que, sem regras internacionais ou entidades que possam estabelecer limites para hegemonias, a única regra que prevalecerá será a do mais forte.
O Brasil não faz parte do G7. Mas, assim como tem ocorrido desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu em 2023, o país vem sendo convidado para as reuniões. Antes da cúpula que ocorre em junho, em Evian, o encontro desta semana vai tentar definir uma agenda e costurar posições comuns.
Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, já confirmou presença. Ao anunciar sua viagem, porém, ele se limitou a dizer que irá tratar de termas como Ucrânia, a situação no Oriente Médio e as “ameaças à paz e estabilidade”.
No caso do Brasil, a prioridade será a de defender algum tipo de reforma para permitir que as instituições internacionais possam voltar a ter um papel na estrutura de poder mundial.
Para o governo brasileiro, o temor é de que a “lei da selva” seja o único elemento que poderá ser levado em consideração nas relações internacionais, deixando países de médio porte vulneráveis e ameaçados.
A postura do Brasil agrada aos franceses, anfitriões da cúpula. O governo de Emmanuel Macron também entende que, diante de potências como Rússia, EUA e China, a própria Europa poderia estar ameaçada.
Em discursos recentes, tanto no Brasil como na Colômbia, Lula fez questão de cobrar uma resposta para ausência de um ordenamento que impeça que potências possam simplesmente invadir ou derrubar governos.
Para ele, o que o mundo assiste é “a falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas”. “O Conselho de Segurança da ONU e os seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz. E são eles que estão fazendo as guerras”, avisou.
“E quando é que a gente vai tomar uma atitude para não permitir que os países mais poderosos se achem donos dos países mais frágeis?”, perguntou.
“Eu estou, como ser humano, como democrata e como presidente do Brasil, indignado com a passividade dos membros que não foram capazes de resolver o problema na Faixa de Gaza, não foram capazes de resolver o problema no Iraque, não foram capazes de resolver o problema na Líbia, não foram capazes de resolver o problema na Ucrânia, não foram capazes de resolver o problema no Irã”, disse.
Lula ainda criticou a decisão de “resolve por guerra”. “Ou seja, quem tem mais canhão, quem tem mais navio, quem tem mais avião, quem tem mais dinheiro, se acha dono do mundo?”, criticou.
“Quando é que nós vamos dizer que isso não é normal? Quando é que nós vamos dizer que nós queremos voltar a ter uma relação civilizada entre as nações, que nós não vamos permitir o fim do multilateralismo e que a gente vai garantir que somente a paz é que pode fazer com que o mundo pobre possa se desenvolver?”, afirmou.
Conselho da Paz
O Brasil chegou a ser convidado para o Conselho da Paz, de Trump. Mas alertou que não poderia fazer parte, dentro das regras estipuladas pelo americano. Nos bastidores, porém, o governo Lula indicou que a “ousadia” da Casa Branca de criar sua própria organização internacional deveria ser respondida com uma mobilização de países para salvar a ONU e transformá-la, de novo, em um local relevante.
O temor do Brasil é de que, esvaziada, a ONU deixe espaço para que potências simplesmente refundem a ordem global com novas instituições das quais o país não poderá ter influência.
EUA x Brasil
O governo brasileiro não informou, até agora, se haverá uma reunião bilateral entre Rubio e Mauro Vieira. Os dois se falaram há duas semanas, por telefone, na esperança de costurar uma aproximação para permitir um encontro entre Lula e o presidente Donald Trump. Mas não existe data para uma viagem do brasileiro ainda para a Casa Branca.
Os dois chefes da diplomacia ainda trataram da reivindicação por parte dos EUA de classificar o PCC e o Comando Vermelho como “grupos terroristas”. O Brasil é contra, mas o governo norte-americano já indicou que poderá tomar essa decisão, sem consultar Brasília.






