Quando a maior celebração da cultura amazônica recebe recursos de uma empresa cuja atuação ambiental está sendo questionada na Justiça Federal, a pergunta deixa de ser apenas econômica e passa a ser ética.
Todos os anos, Parintins emociona o Brasil ao transformar a floresta em poesia. O Festival Folclórico exalta os povos originários, a biodiversidade, os rios, os espíritos da mata e a resistência amazônica diante das ameaças históricas ao território.
No entanto, fora da arena do Bumbódromo, uma contradição cada vez mais evidente desafia esse discurso.
Uma das principais patrocinadoras do festival é justamente a Eneva, maior operadora privada de geração termelétrica do país e uma das maiores exploradoras de gás natural da Amazônia.
A empresa mantém o Complexo Azulão, localizado entre os municípios de Silves e Itapiranga, empreendimento que se tornou alvo de sucessivas disputas judiciais envolvendo licenciamento ambiental, direitos territoriais e proteção de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Uma controvérsia que saiu do debate ambiental e chegou à Justiça
Nos últimos anos, o Ministério Público Federal passou a questionar a regularidade do licenciamento do Complexo Azulão.
Entre os principais pontos levantados estão:
- ausência de Consulta Prévia, Livre e Informada prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho;
- insuficiência dos estudos sobre impactos em comunidades tradicionais;
- possíveis efeitos sobre indígenas em isolamento voluntário;
- alegações de fracionamento do licenciamento ambiental;
- omissões na avaliação dos impactos cumulativos do empreendimento.
Em maio de 2025, a Justiça Federal determinou a paralisação das atividades da empresa na área sobreposta ao território indígena reivindicado Gavião Real, além de impedir a emissão de novas licenças até que fossem realizados estudos específicos e consultas às comunidades afetadas.
As decisões judiciais representam um dos maiores embates socioambientais atualmente em curso na Amazônia brasileira.
A Eneva afirma que cumpre integralmente a legislação ambiental, que atua com base nas licenças expedidas pelos órgãos competentes e que recorrerá das decisões judiciais cabíveis.
Quando o marketing encontra o conflito
Enquanto responde a processos ambientais e ações civis públicas, a companhia amplia sua presença institucional no maior símbolo cultural do Amazonas.
O patrocínio ao Festival de Parintins insere a marca da empresa em uma narrativa fortemente associada à floresta, à ancestralidade e à preservação ambiental.
Não há ilegalidade em financiar manifestações culturais.
O debate surge quando a construção dessa imagem institucional ocorre simultaneamente a litígios ambientais que discutem exatamente os impactos da atividade econômica sobre os territórios retratados dentro da arena.
Especialistas em comunicação ambiental definem esse fenômeno como greenwashing: estratégias de marketing que associam empresas à sustentabilidade ou à proteção ambiental enquanto sua atuação é alvo de críticas ou controvérsias relevantes.
A caracterização de um caso específico como greenwashing depende de análise dos fatos, do contexto e das evidências disponíveis. No caso da Eneva, organizações indígenas, movimentos socioambientais e entidades da sociedade civil utilizam esse termo para criticar a dissociação entre a imagem pública promovida pela empresa e os conflitos socioambientais relacionados ao Complexo Azulão.
A cultura pode ser financiada por quem transforma o território?
Essa talvez seja a pergunta central.
O Festival de Parintins tornou-se uma potência econômica.
Movimenta centenas de milhões de reais.
Atrai milhares de turistas.
Gera empregos temporários.
Fortalece cadeias produtivas.
Mas também passou a depender cada vez mais de grandes patrocinadores ligados aos setores energético, mineral e industrial.
Essa dependência abre um debate legítimo.
Até que ponto empresas cujos empreendimentos provocam intensos conflitos socioambientais podem utilizar grandes eventos culturais como instrumento de fortalecimento reputacional?
O financiamento da cultura não deveria vir acompanhado de compromissos igualmente robustos com a proteção dos territórios que essa mesma cultura celebra?
Um debate que ultrapassa Parintins
A discussão não é exclusiva do Amazonas.
Em diferentes partes do mundo, festivais culturais, museus e instituições artísticas vêm sendo pressionados a rever patrocínios de empresas ligadas aos setores de petróleo, gás, mineração e combustíveis fósseis.
A crítica parte da compreensão de que cultura, memória e patrimônio coletivo não podem servir apenas como vitrines de reputação corporativa quando persistem conflitos ambientais relevantes.
O desafio da coerência
Dentro da arena, os bois cantam a floresta viva.
Celebram os povos originários.
Denunciam a destruição ambiental.
Exaltam o equilíbrio entre homem e natureza.
Fora dela, entretanto, a Amazônia continua sendo palco de disputas envolvendo expansão energética, exploração de recursos naturais, licenciamento ambiental e direitos territoriais.
A força do Festival de Parintins talvez esteja justamente em sua capacidade de provocar reflexão.
Porque preservar a cultura amazônica exige, antes de tudo, preservar os territórios, os povos e os modos de vida que lhe deram origem.
Quando a narrativa da preservação encontra interesses econômicos bilionários, o verdadeiro desafio deixa de ser apenas organizar um espetáculo.
Passa a ser responder, com transparência, se a floresta homenageada no palco recebe o mesmo compromisso quando as luzes se apagam.
Rafael Medeiros / TREZZE Comunicação Integrada.





