Por Cleber Lourenço
Há um momento curioso em toda campanha presidencial. É aquele instante em que o candidato sobe ao palco pela primeira vez não apenas para pedir votos, mas para apresentar o país que pretende construir. Uns falam de crescimento econômico. Outros prometem combater a fome, reduzir a violência, melhorar escolas, abrir mercados, recuperar empregos. Há quem escolha falar de esperança, há quem prefira vender medo. Mas todos, de alguma forma, apresentam uma ideia de Brasil.
No mesmo fim de semana, Lula subiu ao palco para defender os resultados do governo e pedir votos para Fernando Haddad em São Paulo. Ronaldo Caiado aproveitou sua convenção para falar de gestão, segurança pública, desenvolvimento e ainda defender as urnas eletrônicas diante da escalada de ataques ao sistema eleitoral. Até Renan Santos, personagem cercado de controvérsias e cujas ideias podem ser objeto das mais duras críticas, lançou um programa de governo, apresentou propostas e expôs uma visão de país para ser debatida.
Antes de pedir votos, Flávio escolheu atacar o Brasil
Flávio Bolsonaro escolheu outro caminho.
Uma candidatura construída para dizer que o Brasil não presta
Sua campanha não começou apresentando um Brasil possível. Começou tentando consolidar a ideia de um país permanentemente em crise — e, sobretudo, preparando o terreno para justificar uma eventual derrota antes mesmo que a disputa tenha começado.
Toda candidatura presidencial apresenta um país. Flávio apresentou um problema chamado Brasil.
A primeira promessa de Flávio foi desacreditar o Brasil
Antes mesmo da convenção, já havia dado sinais claros do roteiro que pretendia seguir. Repetindo um dos episódios mais traumáticos da história política recente, reuniu embaixadores para voltar a lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro. Não era um encontro para abrir mercados, discutir relações diplomáticas ou fortalecer a imagem do país. Era um palco para colocar sob suspeita justamente o mecanismo que sustenta a democracia brasileira.
Poucos dias depois, surgiu a revelação de que integrantes do governo dos Estados Unidos pretendiam desembarcar no Brasil para questionar o processo eleitoral brasileiro. O governo Lula recusou a visita, e o Itamaraty confirmou a negativa ao ICL Notícias. Independentemente de como aquela missão terminaria, o episódio escancarava uma tentativa de internacionalizar uma narrativa que até então parecia restrita ao debate doméstico.
Não eram fatos isolados.
E a convenção deixou isso evidente.
Em vez de reservar o principal momento do lançamento de sua candidatura para falar de emprego, inflação, saúde, educação ou crescimento econômico, Flávio entregou o palco ao presidente argentino Javier Milei.
Ali, diante de milhares de apoiadores e com transmissão para todo o país, um chefe de Estado estrangeiro atacou o presidente da República, ministros do Supremo Tribunal Federal e instituições brasileiras. Disse aos brasileiros em quem deveriam votar. Retratou o Brasil como um país capturado por um projeto político que precisa ser derrotado e encerrou seu discurso pedindo que os brasileiros “fizessem o Brasil grande novamente”, importando um slogan político que nem sequer nasceu aqui.

Há algo profundamente simbólico nisso.
Durante décadas, o bolsonarismo construiu sua identidade política sobre o discurso da soberania nacional. “Brasil acima de tudo” tornou-se um mantra repetido em palanques, redes sociais e campanhas eleitorais. A interferência estrangeira era apresentada como ameaça permanente. Organismos internacionais eram tratados como inimigos. Governos de outros países eram acusados de querer mandar no Brasil.
Agora, a primeira grande imagem da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro é justamente a de um presidente estrangeiro dizendo aos brasileiros como enxergar seu próprio país e como devem votar.
É um paradoxo difícil de ignorar.
A campanha que trocou um projeto de país por uma teoria de conspiração
A campanha que dizia defender a soberania nacional começou buscando legitimação fora das fronteiras brasileiras.
Mais do que isso: começou transmitindo a mensagem de que o país já não oferece condições normais de disputa — e de que, caso venha a ser derrotado nas urnas, essa derrota já estaria previamente explicada por um sistema supostamente viciado.
É verdade que Flávio apresentou propostas. Elas existiram. Falou sobre impostos, segurança pública, saúde e outros temas. Mas elas pareciam quase um apêndice de um discurso cujo centro era outro: Jair Bolsonaro, a perseguição contra sua família, o Supremo Tribunal Federal e a necessidade de “salvar” o país de um sistema que, na sua narrativa, já estaria comprometido.
Há candidatos que começam uma campanha vendendo um projeto de futuro.
Flávio começou explicando por que acredita que o resultado pode não ser favorável — e, ao mesmo tempo, construindo uma narrativa que antecipa a contestação desse próprio resultado.
Essa talvez seja a maior diferença em relação aos seus adversários. Não porque Lula, Caiado ou qualquer outro tenham deixado de atacar adversários — política nunca foi um ambiente de delicadezas. Mas porque todos eles, goste-se ou não de suas ideias, reservaram o centro do palco para falar do país que pretendem governar.
Flávio reservou o centro do palco para sugerir que o país e suas instituições já não oferecem garantias plenas de disputa — e, com isso, para enfraquecer a própria ideia de que sua campanha acredita na possibilidade de vitória.
E esse talvez seja o aspecto mais revelador de sua estratégia política.
A candidatura nasce sem esperar uma derrota para colocar instituições sob suspeita. Não é uma reação ao resultado das urnas. É o ponto de partida da campanha. As urnas voltam a ser questionadas antes mesmo de a eleição acontecer. O Judiciário é apresentado como inimigo antes mesmo de qualquer disputa eleitoral. O Brasil é retratado como um sistema político sob desconfiança antes mesmo de o eleitor falar.
Toda campanha vende uma ideia de futuro.
A de Flávio vende, desde o início, a justificativa para um possível fracasso — e, com isso, transmite também a impressão de que nem ele próprio acredita plenamente na força da sua candidatura, percepção que se estende inclusive a setores do Centrão e a aliados que observam o movimento com mais cálculo do que convicção.
No fim das contas, talvez a imagem que sobreviva ao lançamento de sua candidatura não seja a dos discursos, das bandeiras ou dos aplausos. Talvez seja a fotografia de um presidente estrangeiro ocupando o principal espaço de uma convenção presidencial brasileira para atacar instituições nacionais, depois de uma sequência de movimentos que incluiu reuniões com diplomatas para questionar as eleições e uma tentativa de trazer representantes de outro governo para discutir a credibilidade das urnas brasileiras.
Há campanhas que apresentam um projeto de nação.
Flávio Bolsonaro preferiu apresentar ao eleitor uma narrativa segundo a qual o resultado da disputa já nasce sob suspeita — e, com isso, uma campanha que parece mais preocupada em explicar uma possível derrota do que em construir uma vitória.
Na convenção em que o Brasil virou o inimigo, Flávio começou já explicando a derrota.





