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Hecatombe bolsonarista em SC engole oligarquias e muda configuração política do estado


A família Amin, uma das mais tradicionais e oligárquicas do estado de Santa Catarina foi, talvez, a maior derrotada de um processo eleitoral marcado pelo recorde de votos do bolsonarismo no lugar que é considerado um “laboratório” do avanço do extremismo no país. O senador Esperidião Amin não conseguiu se reeleger senador. A sua esposa, Ângela Amin, ex-prefeita de Florianópolis e ex-deputada federal, também não terá mandato no próximo ano. É o fim de um tempo, uma hecatombe bolsonarista histórica.

Os Amin são uma das oligarquias mais longevas de Santa Catarina, ao lado dos Bornhausen, que também foram sugados pelo bolsonarismo a ponto de sequer cogitarem as urnas neste último pleito. Santa Catarina tem, historicamente, uma tradição oligárquica bastante conhecida por quem vive no estado. Agora, isso parece ter mudado de forma definitiva e exige da direita um lugar de auto-crítica que todos costumam cobrar da esquerda: alimentaram um monstro, agora precisam embalá-lo.

Então senador Esperidião Amin (PP-SC). Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
Então senador Esperidião Amin (PP-SC), em audiência pública, em setembro de 2026. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

O bolsonarismo engole quem o alimentou

A quebra da tradição oligárquica vem em um momento de radicalização do bolsonarismo que encontrou terreno fértil no estado. Amin foi um dos primeiros a se unir à onda, alavancando pautas do movimento e se colocando sempre à disposição de derrubar um ministro do Supremo Tribunal Federal. Não imaginava que encontraria no filho do ex-presidente Jair Bolsonaro alguém disposto a dinamitar sua intenção.

Ao lado de Caroline de Toni, Carlos Bolsonaro se elegeu com bem mais folga do que as pesquisas apontavam, sem participar de debates, quase sem fazer campanha e provocando o aliado do pai sempre que possível. Ficou com 25,31%, contra 15,31% de Amin, que ainda conseguiu captar votos desesperados à esquerda no discurso do “voto útil”.  Foi um abismo de mais de 800 mil votos que mostrou o sucesso da campanha do voto casado em uma chapa pura do PL, causa de grande polêmica no bolsonarismo local assim que se anunciou a dupla Caroline e Carlos.

Juliana Maciel (PL-SC), eleita deputado estadual, ficou conhecida por jogar livros no lixo enquanto prefeita de Canoinhas

PL avança e atropela forças tradicionais

A configuração política da Assembleia Legislativa também foi alvo da hecatombe. O PL conseguiu 16 cadeiras, das 40, com 35% de renovação no perfil da Casa onde Jorginho Mello já transitava sem oposição firme e com muita tranquilidade. Nomes como do deputado estadual Marcos Vieira (PSDB) ficaram de fora, engolidos pela onda. O MDB e o PSD, forças políticas até então tradicionais, fizeram quatro e três cadeiras — uma miséria. União e PP ficaram com duas cada. Em compensação, o PL elegeu até a prefeita que jogou livros fora e viralizou em 2024, na cidade de Canoinhas. Juliana Maciel surfou na fama e na radicalização e o estado gostou.

Júlia Zanatta e Jair Renan Bolsonaro, ambos do PL de Santa Catarina.
Júlia Zanatta e Jair Renan Bolsonaro, ambos do PL de Santa Catarina.

Congresso ganha novos nomes em SC

A Câmara Federal manteve uma estabilidade com relação à configuração desta legislatura. O PL segue a maior bancada, com Julia Zanatta como a principal puxadora de votos e Jair Renan Bolsonaro como novo personagem da política catarinense. Mas o MDB e o União perderam cadeiras, fortalecendo a tese de que o bolsonarismo veio para engolir a direita que o acolheu.

A esquerda, ainda tímida no estado, conseguiu ser mais bem sucedida do que a direita e a centro-direita que não aderiram ao PL como rota de fuga e tampouco decidiram enfrentá-lo. Conseguiu uma cadeira a mais na Assembleia Legislativa, onde agora terá seis deputados — cinco do PT e um do PSOL. Na Câmara Federal, elegeu uma deputada a mais, a grande rival de Julia Zanatta em Criciúma, Giovana Mondardo (PC do B).

Giovana Mondardo (PCdoB-SC), adversária política de Júlia Zanatta em Criciúma, foi eleita deputada federal.

Flávio Bolsonaro teve votação recorde no estado, ultrapassando o desempenho do pai e chegando aos 66,65% dos votos — em percentuais, só ficou atrás do desempenho em Roraima e Rondônia. Jorginho Mello também teve um caminho fácil, atingindo 68,98% — nesta, o candidato do centrão bolsonarista também foi engolido: João Rodrigues (PSD) teve apenas 13,35% dos votos, atrás de Gelson Merísio (PSB), com 15,66%.

A hecatombe bolsonarista em Santa Catarina era esperada, mas foi maior do que o que o cada vez mais constrangido campo da direita democrática esperava. Estes, já não têm espaço e terão que se organizar para disputar prefeituras em 2026. Ao que tudo indica, o laboratório do bolsonarismo já não é mais um laboratório: é um território real de ascensão do fascismo, capaz até mesmo de eliminar os iguais.





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