Por Marcelo Santos
Na carta dirigida às famílias evangélicas, Lula fala de questões que atravessam a vida dentro de casa: o tempo para descansar e estar com os seus, o impacto das apostas on-line, a violência contra as mulheres, o acesso à saúde e a renda que precisa dar conta do mês. Ao tratar desses assuntos, o presidente aproxima a fé das condições concretas em que as famílias vivem.
Lula começa reconhecendo que não é evangélico, mas afirma respeitar quem é. Lembra a infância ao lado da mãe, Dona Lindu, e dos sete irmãos, e diz que foi ali que aprendeu o valor do trabalho e da luta por uma vida melhor. A linguagem também traz referências de fé: o presidente menciona a proteção divina em sua trajetória, cita a orientação bíblica de “seguir a verdade em amor” e termina pedindo que os eleitores busquem discernimento antes de escolher nas urnas.
A iniciativa não é inédita. Em 19 de outubro de 2022, poucos dias antes do segundo turno contra Jair Bolsonaro, Lula divulgou uma carta pública dirigida ao povo evangélico. Naquele período, circulavam notícias falsas de que, se eleito, ele fecharia igrejas. Por isso, a mensagem se concentrou na defesa da liberdade religiosa, da liberdade de culto e do funcionamento dos templos sem obstáculos. Lula também relembrou medidas de seus governos relacionadas à liberdade religiosa e à presença evangélica no país.
A carta atual tem outro ponto de partida. A liberdade religiosa continua presente, mas o centro do texto está nas políticas que, segundo Lula, podem proteger e melhorar a vida das famílias. Ele menciona o combate às apostas on-line e defende dois dias de descanso semanal. Para os evangélicos, escreve, esse tempo também pode significar mais convivência na igreja e comunhão com os irmãos.
O texto menciona ainda a proteção das mulheres, o combate à violência e ao crime organizado, a melhoria da saúde pública, o aumento real da renda e a preservação da natureza criada por Deus. Sobre as bets, fala em combater as apostas; não afirma que elas foram proibidas. Ao tratar da escala 6×1, Lula apresenta seu empenho para que os trabalhadores tenham dois dias de descanso.
O presidente não pede diretamente que os evangélicos votem nele. Convida-os a orar e a fazer a escolha com discernimento, mas encerra falando da esperança da vitória. A iniciativa de dirigir a mensagem às famílias evangélicas partiu da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que deve ser um dos principais canais de divulgação da carta.
A Frente reúne evangélicos de diferentes igrejas, apoia a reeleição de Lula e atua na defesa da democracia e da justiça social. Segundo Nilza Valeria Zacarias, jornalista, membro da Igreja Batista e coordenadora do movimento, a sugestão foi motivada pela compreensão de que a família é a base de tudo, inclusive das políticas públicas. A Frente será porta-voz da carta e ajudará a levá-la às famílias evangélicas.
É uma carta de campanha e também uma tentativa de conversar com pessoas cuja fé costuma ser invocada na disputa política, mas cujas preocupações cotidianas passam pelo trabalho, pela segurança e pelo cuidado com a família.
A escolha, como diz a carta, cabe a cada eleitor. Mas o debate que ela propõe merece ser feito para além da disputa: que políticas cuidam das famílias, protegem a vida e oferecem condições para que todos possam viver com dignidade?




