O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o seu discurso no G7, nesta terça-feira, para mandar uma mensagem ao presidente Donald Trump e às alas da extrema direita brasileira que querem usar o crime organizado como arma para uma ingerência nas eleições brasileiras.
De acordo com ele, um dos desafios internacionais é o crime organizado, “que aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas”.
Mas alertou: “Esse esforço (de ação internacional) deve levar em conta do respeito à soberania dos Estados”.
O recado foi dado dias depois de Trump classificar o PCC e o CV como grupos terroristas. Na América Latina, a Casa Branca ainda tem usado o tema do combate ao narcotráfico para fazer ataques em diferentes territórios e justificar sanções.
Lula indicou que a Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas é um “passo positivo”. Nela, conforme o ICl Notícias antecipou, não há uma referência à classificação desses grupos como terroristas.
“Mas o enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas”, afirmou Lula.
Segundo ele, “valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da INTERPOL, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas”.
Lula com Interpol
Lula ainda aproveitará a viagem para a França para se reunir com a cúpula da Interpol. O encontro deve ocorrer nesta quarta-feira, em Genebra, após a reunião dos presidentes do G7. Entre os membros da comitiva do governo está o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
A reunião entre Lula e a Interpol ocorre num momento em que o governo vem sendo pressionado tanto por Trump como pelos bolsonaristas diante da designação do PCC e do CV como grupos terroristas. Brasília já deixou claro que é contra essa classificação e alerta que a mudança na postura dos EUA pode inclusive abalar a cooperação entre os dois países.
Lula, porém, quer dar uma sinalização de que está comprometido com a luta contra o crime organizado e blindar o país de qualquer ação que possa criar uma desestabilização. Uma ação, mesmo que seja na fronteira, seria considerada como uma ingerência em assuntos domésticos. Outro temor é de que o sistema financeiro seja atingido por sanções.
A mensagem de Lula é de que, para atacar os grupos do narcotráfico, é necessário que a operação de repressão ocorra no “andar de cima” e uma cooperação internacional. Ou seja, no combate contra aqueles que lideram as facções, na lavagem de dinheiro, tráfico de armas e estrutura financeira.
Na pauta, na quarta-feira, estará o combate ao crime organizado em geral, os avanços feitos pela Interpol e a possibilidades de ampliar cooperação.
A iniciativa de Lula ocorre num momento em que a ONU também sobe o tom contra Trump e sua suposta luta contra o narcotráfico.
Num discurso nesta segunda-feira, o alto comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Turk, alertou que a “chamada guerra às drogas tornou-se um círculo vicioso”. “Respostas militarizadas, particularmente nas Américas, alimentam ainda mais a violência”, disse.
“Os Estados Unidos da América teriam matado mais de 200 pessoas em ataques aéreos contra navios civis no Caribe e no Pacífico Oriental. Chamar esses ataques de parte de uma guerra contra o narcoterrorismo não os justifica”, criticou.
Para ele, os governos precisam combater a corrupção, fortalecer as instituições e investir na redução de danos, educação, saúde e empregos.






