Em entrevista à coluna, o ex-deputado Victório Galli afirmou que “não pode ter padroeira” no Brasil porque o país é laico e precisa respeitar todas as religiões. Ele é autor do projeto apresentado em 2007 para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de padroeira do Brasil. Para ele, a lei que autorizou o título é inconstitucional e o “Brasil não é 100% católico”. Ele ainda disse que “está maior a porcentagem de evangélico”e a “cada ano está diminuindo a porcentagem de católico no país. Então, uma lei para ordenar que todo o país faça isso fica um negócio que não é assim”. Galli contou que ficou por cerca de seis meses como assessor especial de Jair Bolsonaro na Presidência da República, em 2019, a convite do próprio ex-presidente. Galli é novamente candidato à deputado federal.
Coluna: O senhor apresentou um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil lá em 2007.
Galli: Foi um projeto que eu apresentei lá em 2007 e que foi retirado da pauta, a meu pedido de arquivamento, em 2008. Então, já tem quase 20 anos que esse negócio tá andando aí, e o pessoal lembrou dele agora.
Foi o senhor que retirou? Eu vi o senhor dizer que também teria sido uma opção do deputado Arthur Lira.
Não é o Arthur Lira, é o outro deputado que chamava Lira, que foi o relator do projeto. Ele também concordou, porque o meu objetivo foi dar constitucionalidade ao projeto. Como ele está, ele está inconstitucional. O Estado é laico, e no projeto o Estado está pedindo para cultuar. Se o estado é laico, o estado não pode pedir a nenhum cidadão para cultuar nenhum santo ou nenhum Deus. Nem a padroeira e nem Jesus. Então o que eu tentei corrigir foi colocar “homenagear”, e não “cultuar”. Não é para tirar nada de padroeira, não é para tirar nem o dia 12, só para corrigir a questão de constitucionalidade.
Mas isso não tiraria o título dela de padroeira? A partir disso, ela seria o quê?
Seria homenageada, mas como padroeira.
Eu não entendi a diferença. Ela seria homenageada e não seria mais padroeira?
É porque o Brasil não é 100% católico. E isso está aumentando cada vez mais. Em 2007 era uma porcentagem, hoje está maior a porcentagem de evangélico. A cada ano está diminuindo a porcentagem de católico no país. Então, uma lei para ordenar que todo o país faça isso fica um negócio que não é assim. O país não é teocrático, é democracia. A gente tem que respeitar a religião, mas não impor.
Isso é uma demanda de um setor do campo evangélico?
Não, não foi. Fui eu que coloquei. Claro, eu sou evangélico, eu sou pastor. Eu atendi um pedido de vários juristas que me procuraram, se eu tinha condições de fazer isso, para tentar corrigir essa demanda. Eu falei: “Tá bom, vamos corrigir”.
O senhor também foi procurado por pastores para fazer esse projeto?
Tinha pastor no meio também, tinha pastor, mas tinha advogados. Eu tentei fazer isso para dar constitucionalidade, porque o Estado, sendo laico, não pode obrigar ninguém a cultuar ninguém. Outra situação, e aí já é erro dos evangélicos: os evangélicos têm um jargão. Um exemplo: você está no Rio de Janeiro, né? Eles dizem que “o Rio de Janeiro é do Senhor Jesus”. Se alguém for colocar um projeto de lei dizendo que o Rio de Janeiro é do Senhor Jesus, isso é inconstitucional. Nem o estado, nem a União, nem o município pode fazer uma coisa dessas, porque no nosso país nós temos democracia e o estado é laico. Nós não somos teocráticos.
Então o senhor também seria contra a ideia de consagrar o Brasil ao Senhor Jesus?
Sim, também sou contra. O Estado não é teocrático, o Estado é laico. O que nós temos que entender é que o Estado, [apesar de] ser laico, é composto de cidadãos que têm inúmeras religiões. Hoje nós temos católico apostólico romano, católico apostólico ortodoxo, cristão evangélico, espírita, pessoas que frequentam religiões afro-africanas [sic]. A gente tem que respeitar todas. Então, não pode ter um padroeiro, uma padroeira, isso e aquilo.
O senhor tem vontade de voltar a esse projeto? O senhor está disputando a eleição de novo.
Não, não tenho. Porque eu aprendi uma coisa: o convívio parlamentar me deu experiência. Quando eu coloquei isso, eu era suplente. Depois eu fiquei mais duas vezes suplente, aí virei titular.
O que eu aprendi é que o Brasil tem tanta coisa para se fazer, muito mais importante do que isso. Nós temos que resolver o problema da fome no país, o problema da segurança, do crime, do feminicídio, aqui em Mato Grosso mesmo. Mato Grosso hoje é campeão de grão, campeão de soja, campeão do milho. Mas é campeão também de matar mulheres. Nós temos tantas coisas para tentar resolver no país, e vamos ficar perdendo tempo com essas picuinhas? Isso não vai resolver nada.
Foi por isso que lá atrás o [Lira?], que era relator, me chamou e falou: “Ó, Victório, inclusive tem até uma jurisprudência no STF que já deu essa questão de [constitucionalidade?] no projeto. Nós vamos discutir isso aí, nós vamos perder tempo. Que que você acha?”. Aí eu pedi o arquivamento.
E outra coisa: eu sou de formação católica. Fui batizado na Igreja Católica, fui crismado na Igreja Católica, tive minha primeira comunhão na igreja católica. Só deixei a Igreja Católica depois de 20 anos [trecho incerto], depois que eu fiz meus estudos. Aí eu tive a minha opção de seguir, e estou hoje na Assembleia de Deus, sou pastor da Assembleia de Deus. Eu respeito todas as igrejas, todas as religiões. Inclusive, sou professor de teologia e de filosofia, e sempre explico nas minhas aulas que nós temos que respeitar todas as religiões.





