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O mal-estar no futebol – ICL Notícias


Há um incômodo latente que atravessa o espírito de todo brasileiro quando o assunto é a Seleção brasileira de futebol. É um mal-estar difuso, que transita entre a melancolia de um futebol que já não convence e a constatação de que a camisa mais pesada do mundo, aquela que ostenta o maior número de estrelas, parece ter se esvaziado de seus craques de outrora. Onde repousa a magia que nos habituamos a chamar de nossa?

Mas esse incômodo – um verdadeiro mal-estar no futebol e, por extensão, na civilização – não se restringe às quatro linhas. Ele nasce da dura percepção de que, para além do ludopédio, o que verdadeiramente dita as regras é a engrenagem fria dos negócios. São os balanços financeiros da FIFA, os corredores obscuros da CBF, a proliferação desenfreada das casas de apostas e o monopólio das transmissões televisivas. Convenhamos, são angústias absolutamente legítimas. A esmagadora maioria de nós há de concordar que o esporte, antes um rito popular, foi sequestrado por cifras.

Diante desse cenário, pego-me refletindo: vale a pena vestir a camisa amarela? Vale a pena o risco de soar como um “patriotário” ou de encenar uma “patriotada” efêmera a cada quatro anos?

Para responder a isso, o torcedor, ou a torcedora, precisa rememorar que qualquer patriotismo não passa de uma invenção. É uma construção histórica, cuidadosamente amalgamada com símbolos, bandeiras, cores, hinos, cartilhas escolares e uma linguagem comum. O problema é que essa unidade, tantas vezes fictícia, invariavelmente explode em contradições e violência. Ela escancara a fratura exposta de que não somos um só povo, uma nação coesa, mas sim uma terra onde alguns poucos exploram a vasta maioria. A isso, a História dá o nome de luta de classes.

Ainda assim, o nacionalismo cumpre o seu papel de nos anestesiar. Ele nos faz esquecer o abismo que nos separa e nos força a enxergar semelhanças onde a realidade grita diferenças. Funciona como uma espécie de religião civil, carregada do mesmo tom místico e salvador que promete redenção nos pés de onze homens.

E, sim, somos brasileiros. Somos forjados, há mais de um século, pela linguagem universal do futebol. É impossível não se emocionar com a trajetória da maioria desses jogadores, jovens que escaparam da miséria profunda, no país que foi o último a abolir a escravidão, para se tornarem figuras globais, celebradas sob os holofotes dos maiores estádios do planeta.

Eu mesmo, um são-paulino forjado nos anos 1990, embalado pela elegância de Raí e pela sabedoria de Telê Santana, abandonei o futebol inúmeras vezes. Afastei-me por repulsa às negociatas, pela arrogância dos cartolas, pela misoginia estrutural e pela impunidade de jogadores estupradores. O futebol, afinal, tornou-se a síntese absurda de todas as mazelas sociais deste vasto mundo.

Contudo, penso que não há mal nenhum em ceder a um patriotismo fugaz. Não há pecado em torcer pela genialidade cortante de Vini Jr., ou pela audácia do menino Endrick, que carrega no corpo o “jeito de gol”. Permito-me até mesmo torcer pelo quase ex-jogador Neymar, hoje mais popstar do que atleta, sabendo que, se ele entrar bem, ainda faz toda a diferença – talvez por ser um dos últimos lampejos daquele Brasil que se perdeu. E fica a pergunta: onde estarão os nossos meninos talentosos de amanhã? Teria a indústria do futebol os sufocado antes mesmo de florescerem?

É inegável que as bets são uma praga contemporânea, que a FIFA opera como uma corporação imperialista e que as emissoras de TV só enxergam a farra do lucro. Mas, pensem bem: o que, no mundo que nos rodeia, não faz parte dessa mesma farsa capitalista? Você, que carrega esse mal-estar no peito, está realmente cuidando dos seus? Ou somos todos, no fim das contas, engrenagens da mesma falácia global?

Enquanto o mundo gira e o capital devora o esporte, eu, já na casa dos 40 anos, me permito sentar diante da tela. Permito-me ver os jogos e torcer do meu jeito, mais ensimesmado, mais silencioso. Mas, ao mesmo tempo, sinto-me feliz por saber que, em meio ao caos, ainda resiste no futebol brasileiro um inigualável canto de paz. Um refúgio breve, ilusório talvez, mas profundamente nosso.

Foto colorizada de Garrincha em jogo contra a Tchecoslováquia na final da Copa do Mundo de 1962.

 





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